O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, se viu em maus lençóis ao ter que convocar uma reunião emergencial com o Parlamento para comunicar o extravio de dois CDs contendo dados sigilosos de 25 milhões de cidadãos. A polícia ainda não trabalha com a hipótese de roubo. Nos CDs constam informações como data de nascimento, endereço, contas bancárias, número de seguro social de praticamente a metade da população do país e de quase todos os responsáveis por menores do Reino Unido. O temor da população é que as informações caiam nas mãos do crime organizado.
O caso provocou protestos e acusações irônicas da oposição, vindas principalmente do partido conservador, e resultou na renúncia Paul Gray, diretor da Secretaria de Receita britânica. Alistair Darling, ministro da Fazenda, explicou que o CDs contêm informações sobre pedidos de benefício fiscal para dependentes. Políticos e cidadãos britânicos ficaram perplexos com o fato de que informações tão preciosas, que são um prato cheio para quadrilhas especializadas em fraude, circularam pelo correio em dois CDs.
O ministro se viu obrigado a admitir que o tráfego de dados confidenciais por um meio tão inseguro aconteceu outras vezes, mesmo sendo contra as normas. Da primeira vez, em março deste ano, um funcionário da Fazenda mandou uma cópia desses dados para a Seção Nacional de Auditoria. Segundo ele, “o envio não foi feito de forma apropriada”. Uma vez utilizados, o órgão devolveu os dados, outra vez de forma irregular.
Os dois CDs possuem um sistema de segurança que é um código, enviado pelo correio interno do ministério da Fazenda e Aduanas, que é administrado pela empresa privada de correspondência TNT. O anúncio do extravio foi feito após a Seção Nacional de Auditoria se dar conta de que os CDs não haviam chegado ao seu destino.
O pacote extraviado saiu do Ministério da Fazenda em 18 de outubro, mas o comunicado de extravio foi feito somente em 8 de novembro ao departamento. O ministro da Fazenda foi informado no dia 10. Apenas há quatro dias a polícia ficou sabendo do ocorrido.
Darling pediu desculpas publicamente aos 25 milhões de britânicos afetados pelo extravio. Ele justificou a omissão da notícia porque os bancos queriam se preparar e assegurar-se de que não havia acontecido nenhum problema até então, e porque as autoridades assim aconselharam. O ministro prometeu que ninguém perderá dinheiro se houver alguma fraude, e insistiu que não é necessário que as pessoas afetadas mudem suas contas bancárias, nem que se comuniquem com seus bancos, mas que prestem atenção a seus extratos bancários.
A crise causada pelo extravio coloca em apuros não só o ministro da Fazenda, como o antecessor do cargo e o atual primeiro-ministro, Gordon Brown. O primeiro ministro está em queda livre desde que, na volta do recesso de verão, começou a especular sobre eleições antecipadas, desfazendo o prestígio político que tinha acumulado desde sua admissão no cargo, em junho. A crise ameaça também o projeto do governo que pretende introduzir o Documento Nacional de Identidade, já que no Reino Unido não existem carteiras de identidade. Os documentos de identificação oficiais mais comuns são o passaporte e a carteira de motorista.
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