Nelson Rodrigues em quadrinhos

Marco Aurélio Lisan | Entretenimento | 21/08/2007 13h42

O clássico texto “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, ganhou uma versão em quadrinhos (HQ). A obra mais assistida do dramaturgo no teatro, criada em 1961, virou gibi pelas mãos dos artistas Arnaldo Branco (texto) e Gabriel Góes (arte). A publicação da editora Nova Fronteira é fiél à narrativa de Nelson Rodrigues, que foi estimulado a escrever o texto a partir de uma insistência de Fernanda Montenegro.

A atriz ainda não era a grande dama do teatro brasileiro quando insistiu para que Nelson Rodrigues escrevesse uma peça para o seu grupo de atores. Pronta em apenas 21 dias, “O Beijo no Asfalto” foi inspirada na história de um repórter do jornal O Globo, Pereira Rego, que foi atropelado por um ônibus, e ao perceber que estava perto da morte pediu um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo.


Nelson Rodrigues apimentou essa história, fazendo com que o atropelado, no chão, pedisse um beijo a um homem com quem mantinha um caso de amor, sem que as mulheres de ambos soubessem do enlace.

Arnaldo Branco, que adaptou o texto original de "O Beijo no Asfalto" para a linguagem dos quadrinhos, conta em entrevista ao SRZD como foi o desafio de ‘mexer’ com um clássico rodrigueano. O lançamento da versão em quadrinhos de “O Beijo no Asfalto” será nesta terça-feira, às 20h, no La Cucaracha Bazar e Galeria, que fica na Rua Teixeira de Melo, nº31, Loja H, Ipanema, na zona sul do Rio.


SRZD: Transformar em HQ uma obra consagrada de Nelson Rodrigues deve ter sido, no mínimo, desafiante. Como foi o seu processo de criação. Ou seja, depois da montagem teatral e das duas versões para o cinema que 'cara' você queria dar para o texto em quadrinhos? O que você imaginou no início foi realmente o que está no produto final?

Tive, junto com o Gabriel, várias idéias. Pensamos em fazer referência à primeira e clássica montagem da peça (fazendo os personagens com as feições dos atores que os interpretaram: Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, etc) ou à várias outras obras (de teatro, literatura, cinema) que tivessem temas correlatos - histórias de indivíduos contra o rumor da multidão, como "O Homem Errado" do Hitchcock, "Um inimigo do povo", do Ibsen, "Fúria" do Fritz Lang... Todas essas idéias foram deixadas de lado por questões de direito de imagem, mas depois seguimos à risca o conceito de respeito total ao texto e mantendo o clima de teatro dentro da HQ.



SRZD: Você leu muito Nelson Rodrigues. O que mais te chama atenção no universo rodrigueano?

O universo em si, a visão do mundo. Acreditava na força do indivíduo - o que o levou a ser uma voz destoante em uma época de projetos coletivos - e, parecendo um explorador da besta humana, era seu maior crítico, um moralista.

SRZD: A versão em quadrinhos pode (ou tem essa intenção) atingir também o público infantil?

Não creio nisso e nem sei se as crianças de hoje em dia, às voltas com games ultra-realistas e brincando com simuladores de vida eletrônicos, têm tanto interesse em quadrinhos, parece um anacronismo. E nem Nelson (Rodrigues) é algo que desperte interesse a alguém que ainda não domina certos códigos de convívio social. Criança é para brincar (risos).



SRZD: O livro saiu numa tacada só ou em partes?

Foi de encomenda, com deadline. Então estabelecemos metas e fomos em frente, em movimento retilíneo constante. Até pra não perdermos o ritmo.


SRZD: O texto é de 1961. A genial história de Nelson Rodrigues parece mais do que atual, numa época em que casais gays, formados por homens casados, não são tão incomuns assim. Você acha que a história representada em quadrinhos é mais do que oportuna? No bom sentido.

É engraçado... Achamos melhor manter na carcterização dos personagens e no cenário a época em que a peça foi escrita, no início dos anos 60, já que se situássemos a trama nos dias de hoje a questão central perderia em impacto. Um sinal que progredimos, ainda bem. Mas se pensarmos que um beijo gay - e ainda por cima um beijo gay técnico, em uma novela das 8 - movimentou a cidade há poucos anos e acabou sendo censurado...

SRZD: Você lançará o livro nesta terça-feira, no Rio, mas a publicação já está nas livrarias? E, se está, qual a resposta do público?

O livro já está nas livrarias desde julho e é excelente o retorno do público. E não só o Nelson (Rodrigues) é uma força junto ao público como "O Beijo" é um dos seus textos mais atraentes.

SRZD: E quanto à crítica? É algo que te importa?

Claro que me importa. A crítica, mesmo a mal-intencionada, é necessária, faz parte do jogo como o juiz (ladrão ou honesto) do futebol. E os autores têm uma vantagem sobre os jogadores: a crítica não pode expulsar ninguém, tem bem menos poderes - e a ela você pode responder, cuspir no olho, etc...

SRZD: Você acredita que esse 'beijo imaginário' do Nelson poderia se tornar realidade em qualquer esquina hoje em dia?



Talvez em esquinas em que não haja ‘pitboys’ à espreita. Engraçado que todo mundo ache normal obrigar os gays a se fechar em seus clubes. Do gueto de Varsóvia para cá só alguns segmentos da sociedade receberam indulto, parece.

SRZD: Como estão seus projetos atuais?

Estão a mil. Devo estrear uma tira no site G1 agora em setembro, tenho encomenda de três livros de personagens meus, fora a colaboração para três revistas.

SRZD: Como você avalia o mercado da HQ atualmente? Não sei a atual, mas muitas gerações passadas, inclusive, aprenderam a ler diante de uma história em quadrinhos...

O mercado está aquecido, como os mendigos em frente aos latões de gasolina. O problema é que ainda se paga pouco e o prestígio é quase zero. Quando vejo esses escritores da nova geração, que vendem bem menos que qualquer quadrinista meia-boca - apesar de serem encaixados em qualquer matéria de cultura que precise de um "formador de opinião" - chorando por falta de incentivo, tenho vontade de mostrar o que deviam fazer com suas canetas.



SRZD: Como será o lançamento desta terça-feira no La Cucaracha Bazar e Galeria?


O livro demorou um pouco a sair, portanto perdemos o elemento surpresa e aquela vantagem para constranger os amigos e parentes à comprá-lo. Então caprichamos na comida e na bebida. Apareçam!

Comentários (0)

Isso evita spams e mensagens automáticas.