LIVROS: Três poetas com a força de sete novidades

Vitor Paiva | Entretenimento | 04/12/2006 00h00

Para os que enxergam o mundo com olhos matemáticos, sete divido por três resulta em uma dízima periódica. Qualquer calculadora barata pode comprovar. Mas sob os olhos da poesia, tal equação se divide em um numero perfeito. Três, para ser mais preciso. Hoje à noite, no Espaço Cultural Sérgio Porto, os poetas Mariano Marovatto, Domingos Guimaraens e Augusto de Guimaraens Cavalcanti lançam seus livros de estréia – "O Primeiro Vôo", "A Gema do Sol" e "Poemas Para se Ler ao Meio Dia" – pela coleção "Os Sete Novos", da Editora 7Letras.

Oriundos do evento de poesia CEP 20.000, os três jovens escritores se lançam na literatura com o sangue azul e quente de quem desde sempre viveu pela literatura, seja através de heranças genéticas – Augusto e Domingos são descendentes dos poetas Alphonsus de Guimaraens e Alphonsus de Guimaraens Filho – ou pelo fino interesse, caso de Mariano. “Quando tinha 9 anos, botei todos os livros da casa no meu quarto, mas não li nenhum. Só ficava olhando para as lombadas. O Ulisses era o mais grosso de todos.” Em entrevista, Mariano confessou ter se iniciado nas escritas cinco anos depois desse episódio, ao se apaixonar pela primeira vez. “Aí fui comprando uns livros, adorava as aulas de literatura do colégio, entrei pra faculdade de Letras, me formei em literatura, entrei pro mestrado e um dos maiores poetas da atualidade (o Paulo Henriques Britto) acabou virando meu orientador... Poesia é uma coisa fascinante. Como diriam os Guimaraens: "se não for pela poesia, como crer na eternidade ?".

Mas afinal, em um mundo repleto, onde cada vez menos se lê, quanto mais poesia, pra quê afinal se lançar mais um livro? Segundo Mariano, o livro ainda é o objeto de afirmação de um escritor. O trio, há um bom tempo, vem se destacando pelos palcos da poesia falada no Rio de Janeiro. Participam da produção do CEP 20.000, e, de fato, alcançam com suas publicações o cume dessa maturidade vastamente percebida por quem já os assistiu recitando e dando cambalhotas pela cidade. Mas não encerram suas atividades artísticas na poesia propriamente dita – ou escrita. Mariano também é musico e compositor, e Domingos, seguramente é um dos melhores nomes da novíssima geração da performance carioca.

Destacar-se por mais do que uma tarde em um evento como o CEP 20.000 – com dezesseis anos de bagagem, mais de cinco mil artistas em seu currículo – não é para qualquer um. Quem já passou algum tempo nos domínios do CEP sabe que não é moleza se salvar da peneira que um evento comportando tantos artistas – mais as gatinhas, a cerveja, os amigos – fundamentalmente realiza. Domingos, Mariano e Augusto, portanto, se juntam a nomes como Michel Melamed, Bianca Ramoneda, Botika, Ericsson Pires, Pedro Rocha, entre outros – como esse humilde escritor que vos fala. Apesar da força quase indestrutível do CEP como evento, como palco para novos talentos, proporcionalmente é pequeno o número de publicações oriundas de lá. Naturalmente que as pressões e exigências mercadológicas do ramo editorial – muito pouco discutidas na grande mídia, mas tão complicadas e duvidosas quanto as do mercado fonográfico – explicariam tal dinâmica, mas o fato é que esses três poetas cariocas conseguiram furar essa bolha e publicar seus primeiros livros. E isso merece comemoração. Especialmente sendo tais escritores do quilate que são. Finíssima vitória para a geração 00, que aos trancos e barrancos começa a mostrar que esse papo de que hoje nada mais é questionado, criado, deslocado, elaborado, é balela saudosista e preguiçosa.

Naturalmente que, para um jovem poeta, a esperança de viver de literatura é exígua. “Só se eu arranjar um mecenas gente fina. Talvez seja mais fácil ganhar na mega sena. (...) Para viver de literatura, vou ter que escrever um 'best seller', ou um livro de auto ajuda”. No entanto, apesar dessa rejeição mercadológica à poesia, poeta – e espaço para eles – é o que não falta. “O problema é que, como poesia não é, por exemplo, um curso reconhecido pelo MEC, todo mundo acha que é poeta de verdade. Mas a crítica e os editores, mesmo totalmente desnivelados em relação a 50, 60 anos atrás, ainda funcionam como a melhor peneira para esse problema. Espaço tem muito, mas a poesia, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, acaba tendo inúmeras outras funções, como catarse, auto-ajuda, teatro, sei lá o que, que também fazem parte dela, mas ainda passam muito ao largo das questões relacionadas a arte e a contemporaneidade. Não discute, não pensa, só descarrega”.

E o que pode se esperar dos três livros passa exatamente por questões de sensibilidade crítica, delírios poéticos contundentes como uma bula de remédio que não pretende curar, mas se desdobrar sobre os sintomas de se estar vivo. A novíssima geração de escritores do Rio se engrandece com a chegada desses três rapazes talentosos e, quem sabe, não inicia aqui um possível marco delicado na linha evolutiva das letras cariocas, com desdobramentos futuros ainda impossíveis de serem imaginados. Enquanto isso, Mariano segue, para igualar a nobreza hereditária de seus companheiros de estréia, tentando encontrar sua ascendência nobre. “Minha avó pernambucana me dizia que nós éramos (somos) parentes do José Lins do Rego. Meu pai é Lins, eu poderia ter Lins no nome. Mas artista na minha família é uma categoria nova. Só conheço o meu primo que era do Cyclone, famosa "boy band" dos anos 80 que se apresentava com regularidade no programa do Chacrinha”. De qualquer forma, O futuro os espera. Aberto como um rosto.

Comentários (0)

Isso evita spams e mensagens automáticas.