'Selvagem?': O risco calculado dos Paralamas do Sucesso
Luiz Felipe Carneiro | Música | 24/03/2010 11h12

Em 1986, os Paralamas do Sucesso já haviam gravado dois álbuns, sendo que um deles ("O Passo do Lui", de 1984) fez grande sucesso comercial e credenciou a banda a se consagrar de vez em duas históricas apresentações na primeira edição do Rock in Rio. Os Paralamas poderiam muito bem ter mantido o seu pop-rock tradicional de "Óculos" e "Meu erro" e ter seguido o seu caminho.
Mas Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone desejavam mais. Segundo o baterista, a banda queria, de fato, ousar, e não repetir a fórmula dos discos anteriores. Em uma reportagem comemorativa dos trinta anos do álbum, que tive o prazer de assinar em agosto de 2006, na "Folha de S.Paulo", o baterista frisou bem esse ponto: "A gente apostou todas as nossas fichas de novo. Se desse errado, voltaríamos para a Universidade e pronto".
Após a turnê de "O Passo do Lui", os Paralamas do Sucesso estavam esgotados, e tudo o que os seus integrantes queriam era um pouco de paz para poder pensar no novo trabalho. O release de "Selvagem?", assinado pela banda, enfatiza essa questão. "Decidimos então esquecer datas, compromissos e finanças. Simplesmente sentar e tocar, ir vivendo, deixando que as ondas do mundo chegassem a nós. Ou seja: voltar pra casa, começar do zero, ouvir muita música e descobrir o que realmente gostaríamos de fazer e sobre o que gostaríamos de falar. Foi daí então surgindo a nossa tradução do que vínhamos ouvindo há tempos, do que mais nos interessava: os sons africanos, o swing baiano e os dubs jamaicanos, a tecnologia usada ao avesso."
Mudança era mesmo a palavra de ordem para os Paralamas em 1986. E o baterista João Barone, na mesma reportagem para a "Folha de S.Paulo", ressaltou bem esse aspecto. "Na época, ficamos empolgados em ousar, não repetir a fórmula do 'Passo do Lui'. Isso orientou muito o caminho seguido. O Herbert estava sempre querendo mudar, não se acomodar. Ele sempre foi muito preocupado com o porvir, sempre puxou a gente para novos planos, novas referências, e 'Selvagem?' cristalizou isso muito bem."
Produzido por Liminha e lançado em 1986, "Selvagem?", o terceiro LP dos Paralamas, de fato, fugiu do rock básico e explorou novos ritmos, bebendo diretamente na fonte dos ritmos africanos, jamaicanos e baianos, em um tom experimental que acabou dando muito certo. E não foi só a sonoridade que mudou. As letras estavam mais politizadas e adultas, chegando, inclusive, a fazer uma dura crítica ao governo Sarney que tinha censurado o filme "Eu Te Saúdo, Maria", de Jean-Luc Godard, na canção "Selvagem", um reggae pesado com uma letra que diz: "E a liberdade cai por terra aos pés de um filme de Godard".
A questão política não ficou apenas na faixa-título. "Alagados", música de abertura do álbum, fazia a ponte entre as favelas - tão distantes geograficamente, mas tão semelhantes em suas misérias - da Maré (Rio de Janeiro), Trenchtown (Jamaica) e Alagados (Salvador). Contando com a participação especial de Gilberto Gil nos backing vocals (que luxo!), a canção, que nasceu como um samba, é considerada por muitos como o sêmen do movimento do "mangue beat", que explodiu em Pernambuco nos anos 90, através da obra de Chico Science e companhia.
Voltando no tempo, em 1986, a banda que mais fazia sucesso comercial no Brasil era o RPM, que fazia um som fortemente influenciado pelo rock progressivo e pelo pop-rock inglês. E chega a ser até engraçado pensar que os Paralamas, navegando por um caminho completamente oposto, também explodiu nas paradas. Diferentemente da banda de Paulo Ricardo, os Paralamas estavam mais interessados em olhar para o seu próprio país. E a banda, como pode ser visto até hoje, acabou se dando bem.
Um ano antes da gravação de "Selvagem?", os Paralamas haviam excursionado com Jimmy Cliff, o que certamente, ajudou muito na formatação desse novo som. E para alcançar a tal sonoridade desejada, os Paralamas tiveram que abrir espaço para novos músicos durante as gravações. O produtor Liminha, por exemplo, pilotou os teclados em "Alagados", "Teerã", "A novidade" e "Você". O percussionista Armando Marçal também participou das mesmas faixas, com exceção de "A novidade". E, para a turnê de divulgação do álbum, não houve jeito, e João Fera, o "quarto paralama", foi incorporado à banda, na qual continua até hoje.
Além de sua participação em "Alagados", Gilberto Gil, que já havia gravado coisas puxadas para o reggae anteriormente, como "Vamos fugir", embarcou na onda paralâmica contribuindo na letra de "A novidade", um dos grandes hits do disco. A letra foi escrita pelo compositor baiano em apenas três horas. Na entrevista para a Folha, Barone explicou como foi esse processo. "Imagina a nossa emoção ao ver o Gil gravando 'Alagados'... Ele estava super gripado, tomou um chá e uma colher de mel e mandou ver assim mesmo. Depois, fez aquela letra sensacional de 'A novidade', em cima da melodia cantarolada que o Herbert mandou. Ele escreveu a letra em cima certinho, respeitando as divisões, a métrica. Foi demais. O Gil recebeu a fita em Florianópolis, onde estava fazendo shows. Ele passou a letra para o Herbert pelo telefone, no estúdio. O Herbert escrevia e chorava de emoção... Quando ele acabou de escrever, gritava: 'olha só que coisa linda!'"
As gravações de "Selvagem?", que aconteceram no recém-inaugurado estúdio Nas Nuvens, transcorreu dentro dos conformes. O tempo de "descanso" após a turnê de "O Passo do Lui" inspirou os três integrantes a escreverem quase todas as canções do álbum. Assim, quando entraram em estúdio, tudo ficou mais fácil. O álbum foi todo gravado durante o mês de abril de 1986.
Além de "Alagados", outra canção que fez grande sucesso no LP lançado em 86 foi "Melô do marinheiro" ("Entrei de gaiato num navio / Entrei, entrei, entrei pelo cano"), que nasceu de uma brincadeira entre Bi Ribeiro e João Barone. "Você", cover de Tim Maia, também foi outra que tocou bastante nas rádios. E "O homem", apesar de não ter feito sucesso, é uma das grandes letras de Herbert ("O homem traz em si a santidade e o pecado / Lutando no seu íntimo / Sem que nenhum dos dois prevaleça"). A canção, inclusive, chegou a abrir os shows da primeira perna da turnê "Acústico MTV", em 1999.
A mudança dos Paralamas acabou sendo aprovadíssima pelo público. O álbum (que tinha uma capa tosca, com uma foto de Pedro Ribeiro, irmão do baixista Bi, em um acampamento em Brasília) vendeu horrores e, com a ajudinha do Plano Cruzado de Sarney (que congelou os preços, favorecendo o consumo de discos), "Selvagem?" virou "disco de ouro" (100 mil cópias vendidas) em apenas uma semana. Em um mês, o álbum já tinha sido comprado por 300 mil fãs. A loucura foi tão grande que a banda foi obrigada a fazer sete shows em apenas quatro dias no Canecão, no Rio de Janeiro.
Graças a "Selvagem?", os Paralamas iniciaram a sua carreira internacional, com shows no exterior, incluindo um no festival de Montreux, que acabou gerando "D", o primeiro álbum ao vivo da banda. Em 1988, os Paralamas já estavam abrindo o show de Tina Turner na Argentina, e dividindo o palco (e engolindo) com o UB40, na primeira edição do finado Hollywood Rock.
E, para o bem do Rock Brasil, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone não precisaram voltar à Universidade.
Faixas:
1) Alagados
2) Teerã
3) A novidade
4) Melô do marinheiro
5) Marujo dub
6) Selvagem
7) A dama e o vagabundo
8) There's a party
9) O homem
10) Você
11) Teerã dub
Abaixo, o videoclipe de "Alagados", o maior sucesso de "Selvagem?":









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