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Transformando carvão em diamante: um cérebro novo pode surgir de um punhado de pele

Stevens Rehen | Stevens Rehen | 27/01/2010 22:42

 

Em 2007 o japonês Shynia Yamanaka, ao reprogramar fibroblastos da pele, conseguiu criar pela primeira vez células-tronco de pluripotência induzida (iPS). Foi uma revolução.

As células iPS são equivalentes às células-tronco derivadas de embriões. Capazes de se transformar em qualquer tipo celular do corpo, inclusive em neurônios.

Neurônios por sua vez são células altamente especializadas, por onde circulam nossos pensamentos e desejos, com os quais sentimos dor e prazer.

Criar neurônios a partir de células iPS parecia ser o ápice de uma história de sucessos que começou em 1981 com Mario Capecchi,  Martin J Evans e Oliver Smithies, ganhadores de Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina pelo isolamento das primeiras linhagens de células-tronco embrionárias de camundongos.

Só que uma equipe de cientistas da Califórnia, liderados por Marius Wernig, fez o que parecia impossível. O equivalente em biologia a transformar carvão em diamante.

Converteram pele de camundongo em cérebro. Direto! Como que por um atalho impensado. Sem parada na fase embrionária, como é necessário no caso das iPS.

O trabalho dos pesquisadores da Universidade de Stanford vem à reboque da inventividade e esforço seminal de Shinya Yamanaka mas tem mérito para subverter positivamente o campo.

Trata-se de procedimento rápido e eficiente para criar neurônios paciente-específicos.

Partiram de 19 genes, todos com importância na formação do cérebro durante o desenvolvimento normal de mamíferos. Chegaram a 5, confirmaram que com somente 3 genes já era possível a conversão.

Os 3 genes que, quando combinados, respondem pela façanha são conhecidos por siglas de difícil compreensão: Ascl1, Brn2 e Myt1l.

Destaco Myt1l, gene sabidamente alterado em pacientes com esquizofrenia. Por tabela, o estudo do processo de conversão fibroblasto-neurônio poderá no futuro ajudar no entendimento de doença tão complexa.

Com a ajuda de vírus com papel de cavalos de Tróia, levaram para dentro das células da pele os 3 genes. Em 3 dias apareceram os primeiros neurônios. Em menos de duas semanas um punhado de fibroblastos se transformou em uma rede neural complexa, recheada de sinapses (especializações de membrana através das quais os neurônios conversam entre si).

A quantidade de perguntas que o trabalho suscita é enorme. O que é ótimo!

Alguém já disse que a humanidade é movida por perguntas muito mais do que por respostas.

 

Por que a maioria dos neurônios obtidos parecem ter saído do córtex cerebral, aquela camada mais externa do cérebro cheia de giros e sulcos, e não de outras áreas do sistema nervoso?

Neurônios dopaminérgicos (aqueles que se perdem em pacientes com a doença de Parkinson) não foram gerados, por quê?

Será que uma combinação com outros genes poderá gerar células produtoras de dopamina a partir da pele?

Abre-se mais uma janela de possibilidades para a Medicina Regenerativa.

Agora é esperar que o mesmo procedimento seja aplicado a células isoladas da pele de pessoas jovens e idosos.

A eficácia como transplante dos neurônios convertidos deverá ser testada em animais de laboratório, sua funcionalidade comparada a neurônios oriundos do próprio cérebro.

E não vai demorar até que proteínas façam a vez dos temidos vírus no processo de conversão pele-cérebro.

Se tudo correr (muito) bem, no futuro, terão início os testes de segurança em humanos.

Minha única crítica ao trabalho é a falta da confirmação prática da inexistência de células com potencial tumoral entre os neurônios formados.

Não custava nada ter feito um ensaio clássico que evidencia a possibilidade de formação de teratomas. Seria melhor do que sugerir que as células geradas não carregam o potencial tumorigênico das iPS, como fizeram ao longo do texto mas sem comprovar com resultados.

É bem provável que daqui a bem menos tempo do que imaginávamos, um paciente que necessite repor neurônios perdidos por conta de um acidente, envelhecimento ou doença poderá recorrer à sua própria pele. Já pensou?

Não me surpreenderia ainda que os bancos que hoje armazenam sangue de cordão umbilical se diversifiquem e passem a guardar fibroblastos extraídos de pessoas de todas as idades.

A partir de agora, sua pele vale ouro (e diamantes) ou em outras palavras, poderá te dar um cérebro novo!




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Postado por:Armando Paulino da costa | 11/02/2010 07:06:11

Quando poderemos usufruir dessa tecnologia? Sou portador de Parkinson e já não tenho encontrado medicamento que resolva meu problema. Será que posso ter esperança?


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Stevens Rehen

Cientista e diretor de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências. Trabalhou na Universidade da Califórnia e Instituto Scripps dos Estados Unidos. Autor do livro Células-tronco: O que são? Para que servem? Mais informações aqui. E-mail: stevens.rehen@srzd.com

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