CD: 'Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos' (Otto) - Sonhos sonhos são
Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 23/01/2010 11:15

"Este disco escorre por linhas e formas de caos", escreveu Otto no encarte de seu novo trabalho, "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos" - título extraído da obra "Metamorfose", de Franz Kafka. Explica-se: Otto passou pelo seu inferno astral, ao se separar de sua esposa, e perder a mãe e a afilhada. De quebra, Otto estava sem gravadora, após sair da Trama. Mas, do fundo do poço, o compositor pernambucano, com recursos próprios, gravou a sua obra-prima.
Disparado o melhor trabalho de sua carreira solo, "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos" traz, em todas as suas letras, resquícios desse inferno astral pelo qual Otto atravessou. Até mesmo porque, como canta na faixa de abertura do álbum "(Crua"), "dificilmente se arranca a lembrança". Essa (maldita) lembrança está embalada em letras confessionais emolduradas por uma sonoridade pesada (não no sentido estrito) que faz do álbum um dos grandes lançamentos do ano passado.
Até mesmo nas canções que não foram compostas por Otto, a melancolia está presente, como mostram os versos "Lágrimas negras / Saem, caem, doem", de "Lágrimas Negras", composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, e que ganhou um arranjo original com a guitarra de Fernando Catatau e a percussão de Pupillo (da Nação Zumbi) e de Marco Axé, além da voz de Julieta Venegas. Ou ainda em "Naquela Mesa", de autoria de Sergio Bitencourt, e com uma sonoridade propositalmente brega (que toma emprestada a melodia do samba "Disritmia", de Martinho da Vila), no estilo da banda Cidadão Instigado: "Se eu soubesse / O quanto dói a vida / Essa dor tão doída / Não doía assim / Agora resta / Uma mesa na sala". Vale citar ainda o timaço que participou da gravação de tal faixa: Pupillo (bateria), Kassin (baixo), Berna Ceppas (guitarra) e Lafayette (teclados).
A perda também está representada em outras canções, como na roqueira "Seis Minutos" ("Nasceram flores / Nem canto de um quarto escuro / Mas eu te juro / São flores de um longo inverno") - que conta com Dengue, também da Nação Zumbi, no baixo; na abolerada "Saudade" ("Saudade quero ver pra crer / Saudade de te procurar / Na vida tudo pode acontecer / Partir e nunca mais voltar"), que também conta com a voz de Julieta Venegas; na experimental (e pop) "O Leite" ("Quando eu saí da tua vida / Bati a porta / Saí morrendo de medo / Do desejo do desejo de ficar"; e na inclassificável "Filha", que diz: "Aqui é festa amor / E há tristeza em minha vida / Jurei pro amor um dia te encontrar". A barra estava pesada mesmo...
Outro aspecto que chama a atenção de cara em "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos" é a sua sonoridade, semelhante a do último trabalho de estúdio de Otto, "Sem Gravidade" (2003), ou seja, mais orgânico e menos eletrônico. Mesmo nas canções em que há um certo excesso de elementos eletrônicos (caso de "Meu Mundo Dança"), ele cai bem. Mas não tão bem quanto o ótimo arranjo de "Agora Sim", que conta com cordas, sopros e congas, em uma letra viajante. Um encerramento a altura do disco.
Na "quase latina" "Janaína", Otto canta os seguintes versos: "Disse um velho orixá / Pra oxalá, pra acreditar / Pra não temer, temer, temer / Desses tempos verdadeiros / Tempos maus". Tempos maus, mas que geraram um grande disco. Aliás, como costuma acontecer com grandes artistas. E Otto é um deles. Que sonhos mais tranquilos possam contribuir com grandes canções como essas.
Cotação: ****1/2
Abaixo, a canção de abertura de "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos", "Crua":
***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim
































































































































































































































































