Era dia 6 de dezembro de 2009. Uma data especialíssima. Tenho uma família em que a longevidade é uma marca registrada, mas pela primeira vez fui a um aniversário de 99 anos. A tia Célia é a matriarca da família da minha mulher. Apesar da provecta idade, ela conserva uma memória impressionante. Quando começaram os cumprimentos, dois meninos gêmeos foram falar com ela. De bate-pronto ela emendou: vocês fazem aniversário amanhã. A prodigiosa memória continuava em forma
Tia Célia me adotou e eu a ela. Projeto muitas coisas na sua figura, tendo em vista que ela nasceu apenas 10 meses antes do meu pai. Pois bem, eis que a comemoração foi marcada para um hotel na Barra da Tijuca. Qual não foi minha surpresa, quando descobri que era o local da concentração do Flamengo.
Sou tão supersticioso, que alguns amigos dizem que eu deveria ser botafoguense. Como acredito que superstição é uma espécie de profissão "b" do torcedor, desconsidero a provocação.
Sentado a duas cadeiras da aniversariante vejo passar pelo lobby do hotel o séqüito rubro-negro. Nesse momento penso: hoje é um dia tão especial, que é impossível que o título escape. Dona Ruth, aos 79 anos, não se intimidou e foi ao aniversário da amiga com a camisa do Flamengo na bolsa.
Só uma coisa insistia em atormentar meus pensamentos. O Flamengo nunca havia vencido o Brasileiro no ano em que se consagrara campeão estadual. Em 80, o campeão carioca foi o Fluminense; em 82, o Vasco; em 83, o Fluminense, em 87 e 92, o Vasco novamente.
Deixei a Tia Célia e corri para casa. Antes, ela me deu um beijo e me desejou boa sorte. O bom das pessoas que me conhecem mais intimamente é respeitar esta obsessão por futebol. Minha mulher suporta o meu trocar frenético de canais para acompanhar as diferentes mesas redondas.
Ritualísticamente, sentei sozinho na sala. Começou o jogo e aquele time apático. Quando o Grêmio fez 1 a 0 pensei: a bovina vai chafurdar. No entanto, imponderável entrou em campo. Airton, a quem muito xinguei neste mesmo certame, ganhou na raça, Adriano se aproveitou do corpanzil e David empatou. O nó da garganta apertou mais.
Começa o segundo tempo e de repente, estávamos em terceiro lugar. Novamente o imponderável,.Pet bate e o escanteio e Angelin acerta a cabeçada. 2 a 1. Fora um gol inacreditavelmente perdido, o Grêmio desistiu da partida.
Acabada a peleja, eu, minha mulher e meus filhos vestimos o manto e fomos comer uma pizza para comemorar. Fui encontrar outra família rubro-negra, que por razões profissionais não posso dizer quem era. Falei com outros amigos jornalistas, que também não posso revelar. Todos felizes e lembrando que acabara a fila.
Agradeço a Tia Célia por ter me dado a oportunidade de entrar no jogo antes das cinco da tarde. Não militava no jornalismo nos outros títulos e por isso nunca acompanhara o pré-jogo como no dia 6.
No mais, ainda dependemos daquela geração do Mundial para os grandes saltos. Em 92, Júnior foi o último em campo, Andrade começou a trajetória no banco comandando o time.