CD: "Beijo Bandido" (Ney Matogrosso) - O camaleão troca de pele mais uma vez
Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 05/11/2009 11:11
"As Ilhas", composição de Astor Piazzolla e de Geraldo Carneiro, foi gravada por Ney Matogrosso em 1975, em um compacto, quando do lançamento de seu primeiro disco pós-Secos & Molhados, "Água do Céu - Pássaro". E a mesma canção retorna, 28 discos depois, em "Beijo Bandido". Além de trazer "Água do Céu - Pássaro" para o universo digital, pela primeira vez, a caixa que saiu no ano passado com os antigos discos de Ney também foi responsável por parte do repertório de "Beijo Bandido".
Segundo o cantor, algumas canções que ele interpretava no início de sua carreira (como "Tango Para Tereza" e "Fascinação") acabaram perdidas e careciam de um registro definitivo em sua voz. Mas não pense que "Beijo Bandido" é um álbum que olha para trás. Pelo contrário. Ney Matogrosso está mais antenado do que nunca. Depois da explosão pop-rock de "Inclassificáveis" (2008), o cantor se despiu das fantasias, reaparecendo com um álbum em que a sua voz é a maior estrela. O formato da banda também é enxuto, com o maestro e pianista Leandro Braga, o violoncelista Lui Coimbra (que também ataca no violão), o violinista Ricardo Amado e o percussionista Felipe Roseno.
Um dos artistas mais produtivos do país (assim como Maria Bethânia), Ney Matogrosso sempre surge com boas ideias, grandes discos e ótimos shows. E "Beijo Bandido" não fica atrás de seus últimos trabalhos. O camaleão envelheceu bem e trocou a sua pele outra vez em um trabalho diferente dos anteriores. Talvez o mais próximo seja "As Aparências Enganam", de 1993, gravado ao lado do conjunto Aquarela Carioca, do qual Lui Coimbra também fazia parte.
"Beijo Bandido" já começa chamando a atenção pelo seu deslumbrante encarte, um dos mais bonitos dos últimos tempos, cheio de belas fotos de Ney (por Rogério Mesquita) e com direção de arte de Ocimar Versolato, que começou a trabalhar com o cantor nos figurinos da turnê "Estava Escrito", de 1994, na qual o cantor interpretava sucessos de Ângela Maria.
E é exatamente com Ângela Maria que "Beijo Bandido" começa, na canção "Tango Para Tereza" (Evaldo Gouveia / Jair Amorim), que foi sucesso na voz da cantora, na década de 70. A sua letra ("Hoje / Alguém pôs a rodar / Um disco de Gardel / No apartamento junto ao meu / Que tristeza me deu") cai como uma luva à voz de Ney e ao arranjo da banda, especialmente por conta das cordas, que dá realismo e vivacidade ao tango. No mesmo estilo, "De Cigarro Em Cigarro", pérola de Luiz Bonfá, ganha ares de bolero, com destaque para o piano de Leandro Braga. Já "Fascinação" aparece em versão mais "light" e contida do que a histórica de Elis Regina. Difícil dizer qual é a melhor...
Mas nem só de canções antigas vive "Beijo Bandido". "A Cor do Desejo", de Junior Almeida e Ricardo Guima, no entanto, é a mais fraca do álbum, com letra e arranjos aquém das outras faixas, apesar da boa interpretação de Ney. Por sua vez, "Invento", de Vitor Ramil (e de cuja letra saiu o nome do CD) é um dos melhores momentos do disco, com um arranjo simples, menos sofisticado, e que cairia muito bem até mesmo em "Inclassificáveis". Nem tão nova assim, "Nada Por Mim", sucesso escrito por Herbert Viana e Paula Toller nos anos 80, ganhou tom solene na gravação que conta apenas com a voz de Ney e o piano de Leandro Braga. Ficou bonito.
Voltando às joias antigas, "Segredo" foi registrada pela terceira vez por Ney Matogrosso. A canção de Herivelto Martins e de Marino Pinto ficou ainda mais bonita nessa nova versão adornada pelo violoncelo de Lui Coimbra. Nela, Ney também soa mais contido do que na (estupenda) gravação feita ao lado do violonista Raphael Rabello, em "À Flor da Pele", de 1990. O violoncelo também chama a atenção em "A Bela e a Fera", música composta para o musical "O Grande Circo Místico", de Chico Buarque e Edu Lobo.
O samba-canção "Doce de Coco", de Hermínio Bello de Carvalho e de Jacob de Bandolim, é outra que caiu bem na voz de Ney, com a sua letra de "rasgar coração" ("Tu sabes bem / Quantas portas tem meu coração / E dos punhais cravados / Pela ingratidão / Sabes também / Quanto é passageira essa desavença / Não destrates o amor"). A valsa "Medo de Amar" (com letra e música de Vinícius de Moraes) ganhou um arranjo abolerado, que também combina bem com a sua linda letra ("Vire essa folha do livro / E se esqueça de mim / Finja que o amor acabou / E se esqueça de mim"). Em "Bicho de Sete Cabeças" (Geraldo Azevedo / Zé Ramalho / Renato Rocha), o destaque vai para o bandolim de Ricardo Amado, que transformou a canção praticamente em um choro.
"Mulher Sem Razão" (de Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza), que Lucinha Araújo recomendou que Ney gravasse antes mesmo do registro de Adriana Calcanhotto, ganhou uma versão agressiva - diferente da "cool" registrada pela cantora - que tem tudo a ver com os versos da letra e com a voz de Ney Matogrosso. Uma versão classuda para o sucesso "À Distância", de Roberto e Erasmo Carlos, encerra "Beijo Bandido" a altura.
E "Beijo Bandido" está mais do que a altura da obra de Ney Matogrosso. Mesmo tendo sido concebido durante a turnê de "Inclassificáveis", o álbum tem identidade e força para iniciar mais uma grande turnê na carreira de Ney. Aguardemos o show e o DVD.
Cotação: ****
Abaixo, uma entrevista com Ney Matogrosso, sobre o disco, publicada no site "Saraiva Conteúdo":
***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim




























































































































































































































































