Imagina você fazer parte de uma das melhores bandas de rock da atualidade, ter acabado de lançar o seu melhor álbum e, daí, o vocalista morre? A situação não deve ser fácil, a não ser que a banda que você faça parte seja o AC/DC.
Em 1979, a banda australiana lançou o ótimo álbum "Highway To Hell". Angus Young já era um dos maiores guitarristas da história do rock, e o supervocalista Bon Scott, até por conta de seu comportamento não muito convencional, já era chamado de "lenda". "Highway To Hell" chegou às lojas em 27 de julho de 1979. Após o lançamento, o AC/DC saiu em uma pequena turnê pela Europa e Austrália (na época, a banda não era tão conhecida nos Estados Unidos), e, no dia 19 de fevereiro de 1980, Bon Scott bebeu até morrer.
Pois bem, em 25 de julho do mesmo ano, chegava às lojas "Back In Black", álbum que marcou a estreia do vocalista Brian Johnson. Rápido, não? E olha que nesse intervalo, o conjunto australiano ainda teve que selecionar um novo vocalista, que acabou demorando um pouco para assumir porque queria fazer alguns shows para não deixar os colegas de sua ex-banda na pior. E se você acha que quando Brian Johnson entrou no AC/DC, ele foi direto para o estúdio apenas para colocar voz nas canções, está muito enganado. Brian Johnson compôs as letras de todas as dez faixas de "Back In Black".
Estava mais do que claro que o AC/DC queria "enterrar as suas bruxas" e recomeçar vida nova. Por mais traumático que fosse, Angus Young e companhia queriam dar uma resposta a altura das expectativas de seus fãs. A resposta, na forma de uma mórbida capa negra, com os dizeres "Back In Black", foi a mais adequada. O momento era delicado, e o trauma da troca de um vocalista e compositor do porte de Bon Scott poderia significar o fim da banda.
Mas aqui, ocorreu o contrário. O que era bom, para muitos, ficou melhor, e "Back In Black", até hoje, é o álbum mais cultuado do AC/DC. Brian Johnson vestiu a camisa, compôs boas canções e cantou com a alma. Juntando isso aos "riffs" poderosos de Angus Young e a cozinha de Malcolm Young, Cliff Williams e Phil Rudd, e não era necessário mais nada. E Bon Scott deve ter descansado em paz.
Por respeito a memória do recém-falecido cantor, Angus Young optou por não mexer nas letras deixadas por ele. Vocalista novo, vida nova. O máximo que aconteceu foi Angus ter resgatado alguma melodia antiga, mas nada que dissesse respeito a obra de Scott. "What Do You Do For Money Honey" é um exemplo. A música, que foi escrita antes da morte de Bon Scott, chegou a estar presente nas sessões de gravação do álbum "Powerage" (1978). Mas a letra, que ainda não existia, foi escrita por Brian Johnson. Aliás, o novo vocalista, que mantinha o mesmo espírito de Scott, ou seja, de "sexo, drogas e rock n' roll", não diferia muito de seu antecessor na hora de escrever as letras. Os temas continuaram sendo basicamente os mesmos (sexo, especialmente), só que com uma pitada de humor e duplo sentido. Quer um exemplo? Ouça a canção "Let Me Put My Love Into You", que conta com o "delicado" verso "Let me cut your cake with my knife".
O "riff" de guitarra da faixa título foi outra que nasceu antes da morte de Bon Scott. O antológico "riff", marca registrada de Angus Young, na verdade, foi criado pelo seu irmão Malcom Young, durante a turnê de "Highway To Hell". A letra da canção fazia clara referência a Scott. E não foi só ela. "Have a Drink On Me" fazia menção ao lado beberrão do ex-vocalista, e as sombrias badaladas da faixa introdutória "Hells Bells" serviam como uma espécie de réquiem ao falecido cantor.
Inclusive, depois que as gravações foram finalizadas, a gravadora implicou um pouco com o tom "mórbido" do álbum, a começar pela sua capa preta. Mas Angus Young bateu o pé sob o argumento de que tudo aquilo era um grande tributo para Bon Scott. Nesse caso, não havia mais discussão.
O mais curioso, apesar do tom "mórbido" alegado pela gravadora, é que "Back In Black", sétimo álbum dos australianos, tinha uma coloração mais pop do que os discos anteriores do AC/DC. As faixas "Shoot To Thrill" e "You Shook Me All Night Long" são as provas definitivas. E foi exatamente com esse tom mais pop que o AC/DC acabou conquistando os Estados Unidos, que se renderam ao álbum, que chegou ao quarto posto da parada da Billboard e abriu caminho para o seguinte, "For Those About To Rock We Salute You" (1981), alcançar o topo da mesma parada. Por lá, até hoje, 22 milhões de cópias de "Back In Black" já foram compradas. Méritos para o produtor Robert John "Mutt" Lange (mesmo responsável por "Highway To Hell", e atual marido, e produtor, de Shania Twain), que soube casar a voz rascante de Johnson com as guitarras cirurgicamente precisas dos irmãos Young.
Uma outra canção que merece destaque em "Back In Black" é "Rock And Roll Ain't Noise Pollution", uma espécie de resposta aos críticos que falavam mal da sonoridade pesada da banda, e que foi a última faixa do álbum a ser gravada.
Somente até o ano de 2003, "Back In Black" já havia vendido 42 milhões de cópias ao redor do planeta. Até hoje, ele detém o título de segundo álbum mais vendido de todos os tempos, perdendo apenas para "Thriller", de Michael Jackson. Se formos considerar somente grupos (excluindo os artistas solo), "Back In Black" pode ser chamado de o disco mais vendido de todos os tempos. E só de pensar que o AC/DC tinha perdido o seu vocalista dois meses antes da gravação do álbum...
Em 1989, "Back In Black" foi eleito pela Rolling Stone o 26º álbum mais importante dos anos 80. Em 2003, ele entrou na lista, publicada pela mesma revista, dos 500 discos mais importantes da história.
É... "Back In Black" é, de fato, um disco clássico...
Faixas:
1) Hells Bells
2) Shoot To Thrill
3) What Do You Do For Money Honey
4) Givin The Dog a Bone
5) Let Me Put My Love Into You
6) Back In Black
7) You Shook Me All Night Long
8) Have a Drink On Me
9) Shake a Leg
10) Rock And Roll Ain't Noise Pollution
Logo abaixo, a canção "Back In Black", durante o célebre show do AC/DC em Donnington Park (disponível em DVD e Blu-Ray), no ano de 1991:









Comentários (0)