Donatinho ao natural e em ebulição
Luiz Felipe Carneiro | Música | 21/09/2009 19:55
Em um primeiro momento pode parecer estranho o fato de o único instrumento montado na sala do apartamento de Donatinho ser uma bateria eletrônica. Filho de João Donato, um dos grandes compositores e pianistas do país, Donatinho abraçou a mesma paixão de seu pai pelas teclas. Com 24 anos de idade, Donatinho, atualmente, faz parte da banda que acompanha a cantora Vanessa da Mata, em sua turnê "Perfumes de Sim", que está rodando o país. A cantora reconhece o talento de seu tecladista. "Eu tenho vontade de colocar você em um vidrinho e levar para casa", disse Vanessa da Mata ao tecladista durante o show que aconteceu na semana passada no Canecão, no Rio de Janeiro.
Apesar da pouca idade, Donatinho não se faz de rogado e mais parece um músico muito experiente em cima do palco. Não à toa, o momento mais aplaudido da apresentação foi exatamente quando o tecladista "substitui" Ben Harper na música "Boa Sorte / Good Luck", com a sua voz sintetizada em um "talk box". A ideia da nova versão, diferente da gravada no CD (que conta com a participação do cantor norte-americano), foi do próprio tecladista.
Mas não pense que Donatinho está acomodado ao integrar a banda de uma das cantoras que mais vende disco no Brasil. Projeto é o que não falta para o tecladista. No momento, ele se dedica ao Paraphernalia, um conjunto de música instrumental que conta com Alberto Continentino (baixo), Renato "Massa" Calmon (bateria), Bernardo Bosisio (guitarra), Joca Perpignan (percussão), Leandro Joaquim (trompete), Marlon Sette (trombone) e Felipe Pinaud (flauta). "Acho que fazemos milagre, porque tocamos música instrumental e conseguimos lotar a boate Pista 3, em Botafogo, todas as quartas. E o público ainda canta as melodias", explicou em entrevista ao SRZD-Esquina da Música
.
O Paraphernalia tem planos de lançar, ainda sem data certa, um álbum. Donatinho prefere que a distribuição seja independente, fora do esquema das grandes gravadoras. Aliás, o músico pareceu não se importar muito com a crise da indústria fonográfica. "Ah, eu não estou nem aí pra negócio de disco não. Eu quero é tocar", arrematou.
Além do Paraphernalia, o músico se dedica ao Zambê, dupla formada com o diretor de televisão Jodele Larcher. Nas suas apresentações, a dupla faz uma fusão entre vídeo, computador e percussão, misturando eletrônica com música regional brasileira. Donatinho, que eventualmente participa de shows e gravações da banda Fino Coletivo, ainda faz parte do elenco da agência de DJs Smartbiz. "Eu faço 'Live PA', produzindo os arranjos ao vivo em cima de algumas coisas pré-gravadas, em um estilo disco, funk, soul, house, eletro, tudo com uma pegada dos anos 70. Esse meu trabalho é uma maneira que encontrei de colocar tudo o que eu gosto, da música pop ao jazz", explicou.
Indagado sobre o seu projeto predileto, Donatinho se mostra reticente, mas com uma única certeza: "Prefiro desenvolver o meu trabalho. Não quero ficar dependendo de acompanhar outros artistas pelo resto da vida. Minha meta é chegar aos 30 anos sem precisar fazer turnê como integrante de banda de um artista da MPB. Quero ter o meu trabalho e gravar com outros artistas quando eu quiser."
Tal pai, tal filho
Toda a trajetória de Donatinho está calcada nos grandes pianistas do jazz e da black-music. "Eu resolvi tocar mesmo quando, aos 14 anos, ouvi o disco que mudou a minha vida, o 'Head Hunters', do Herbie Hancock. Era a parada que eu queria fazer. Um som jazz-funky, com sintetizadores e pianos elétricos", explicou o músico, enquanto colocava o álbum para rodar em seu computador. Herbie Hancock, aliás, é a principal influência de Donatinho. "Ele consegue passar por todas as vertentes e ser bom sempre, como em sua fase mais pop, quando gravou o disco 'Sunlight', todo no vocoder [instrumento que sintetiza a voz]", afirmou.
Donatinho admite que não contou com a ajuda (pelo menos direta) de seu pai. "Ele nunca me ensinou não, apesar de eu ter pedido quando era pequeno. 'Pô, me ensina aí a tocar piano.' Mas tem aquela coisa de que santo de casa não faz milagre. Eu aprendi vendo ele tocar, por osmose."
Autodidata, Donatinho já ganhava o seu dinheiro aos 16 anos. "Acho que a arte corresponde ao único grupo de profissões que independe de formação acadêmica para você ser um bom profissional. O médico não pode abrir a barriga de alguém sem nunca ter estudado, já um ator pode fazer um bom trabalho sem a teoria. É a diferença entre vocação e dom". A comparação entre o seu trabalho e o de seu pai também parece não incomodá-lo. "Eu faço a minha parte. O meu tipo de música é diferente da música do Donato. Mas se quiserem comparar, não estou nem aí. Não quero competir, só fazer a minha música."
E fora da música? O que o Donatinho gosta de fazer nas suas (poucas) horas vagas? "Prefiro ficar por aqui mesmo, em casa ou saindo pelo Rio. Eu viajo muito por causa dos shows. Os únicos dois estados que não conheço no Brasil são o Amapá e Tocantins. Ultimamente tenho me dedicado a fotografia. Comprei uma máquina profissional e estou brincando com esse negócio de lentes", afirmou o músico.
Ao final da entrevista, quando perguntado qual foi o principal momento da sua carreira, Donatinho respondeu sem pensar: "Vai rolar ainda". Pois é... Pelo jeito, muita água ainda vai rolar em sua carreira.
Bate-bola:
Um disco
: "João Gilberto" (o da capa branca, de 1973).
Uma música
: "Invitation" (Bronislaw Kaper).
Um compositor
: Tom Jobim. "Pelo conjunto da obra."
Um cantor
: Cassiano. "Ele é incrível cantando."
Uma cantora
: Elis Regina. "Ela era completa em tudo, no jeito de cantar, escolha do repertório, produção... Não tem nada para mudar."
Um guitarrista / violonista
: Robson Jorge. "O maior do Brasil."
Um baixista
: Larry Graham
Um baterista
: Robertinho Silva
Um tecladista / pianista
: Herbie Hancock
Um artista com quem você gostaria de dividir o palco
: Stevie Wonder. "Eu teria dito o Michael Jackson, mas ele já morreu..."
Um show memorável que assisti
: João Gilberto
Um show memorável que não assisti
: Herbie Hancock
Um parceiro
: Davi Moraes. "Com certeza."
Um disco que gostaria de ter gravado
: "Robson Jorge & Lincoln Olliveti". "Outro dia eu conheci o Lincoln pessoalmente e foi a realização de um sonho."
Uma música que gostaria de ter composto
: "Thriller". "Acho o arranjo incrível, e essa música é um marco para o pop."
Estúdio ou palco?
Palco. "Detesto gravar."
Vinil, CD ou MP3?
Vinil. "Acho que não tenho nenhum CD aqui em casa."
João Donato em uma palavra
: "Juvenil."
Postado por:lysias enio | 22/09/2009 15:50:37
Tô torcendo (a favor), vai nessa na sombra da mata como o olho dágua que desponta e corre mansinho nas águas do rio até conhecer o oceano. Um bjs.
Postado por:Raiany Brito | 21/09/2009 23:03:27
Um artista completo e sempre inovando.... Parabéns pela sua versatilidade e talento! :)








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