O Brasil é mesmo um país de complexidades e singularidades. Conhecido em todo mundo pelas suas belezas naturais – esse é o lado bom – e, ao mesmo tempo, pela desigualdade social e pela corrupção desenfreada – o lado ruim –, o Brasil também é o país do salto. Eu disse “salto” e não “assalto”. Mas poderia ser também a segunda opção, tal o crescimento da violência que está na cara de todo o mundo, estampada nas mais longínquas bancas de jornais, do Norte ao Sul do planeta..
Mas, nos meus olhos, o que ficou mais marcante neste fim de semana foi o Brasil dos grandes saltadores do atletismo. O paranaense Jadel Gregório, no triplo, e a pernambucana Keila Costa, na distância, estabeleceram marcas impressionantes no GP Brasil, em Belém, no Pará.
Jadel, que adotou o nome de Jade Abdul Ghani Gregório, ao converter-se ao islamismo, bateu um recorde que já durava 32 anos. Superou a marca sul-americana do lendário João do Pulo (17,89m), espalhando areia no salto de 17,90m. Um salto que tem tudo para ir mais longe no Pan do Rio ou na Olimpíada de Pequim, ano que vem.
O próprio triplista já estabeleceu como meta os 18,29m do atual recordista mundial, o britânico Jonathan Edwards, que se mantém desde 7 de agosto de 1995. “Um salto de cada vez”, como ele próprio faz questão de ressaltar para os mais ansiosos. Coincidência ou não, o britânico Peter Stanley, seu atual treinador, era o técnico do recordista mundial.
O calor e o clima úmido de Belém parecem ter se transformado em gás para Jadel e Keila. A imagem da pernambucana respirando fundo e partindo para o maior salto da sua carreira ficou guardada na memória. Keila saltou do décimo-sexto lugar para o topo do ranking mundial, com a melhor marca do ano no salto em distância: 6,88m. Assim como Jadel, ela persegue o recorde mundial com a garra de uma “pernambuquinha arretada”. A melhor marca do ano era da americana Akiba McKinney (6,82m) e o recorde mundial pertence à russa Galina Christvakova (7,52m), alcançado em 1988.
Mas vamos por partes. Fiquemos, por enquanto, na atmosfera do Planeta Pan, onde, tanto Jadel quanto Keila precisam apenas repetir o feito de Belém para levar o ouro. Para Keila, a pressão é um pouco maior, pois duas cubanas – segunda e terceira colocadas no GP Brasil – estão saltando como gazelas: Yargelis Savigne fez 6,59m, e Yudelkis Fernandez, 6,41m.
Keila é uma típica atleta brasileira. Seu talento nasceu, como o de muitas outras, na terra batida de um bairro pobre das periferias do nosso Brasil. Pisando firme como busca seus ideais e saltando capinzais como pretende superar todos os obstáculos da vida e do esporte, Keila quer mais: “Não tenho limites, estou em busca dos 7 metros. E a marca pode vir no Troféu Brasil, agora em junho, antes mesmo do Pan." Palavra de nordestina.
Por dentro do Pan
Atual bicampeã pan-americana, Joana Cortez é nome certo na equipe de tênis. Ela lidera entre as brasileiras no ranking mundial de duplas. O tênis pode dar medalhas ao Brasil tanto no masculino quanto no feminino. Neste último, serão convocadas a primeira brasileira do ranking, a campeã da Copa Brás-Onda, entre os dias 4 e 10 de junho, em Curitiba, e uma tenista por critério técnico da Confederação Brasileira de Tênis, que divulgará a lista até o dia 22 de junho.
Um salto para trás
Que atleta brasileiro não quer disputar um Pan-americano no Rio? Mas não basta querer. É preciso talento e resultado. No caso do hipismo, a questão é, no mínimo, peculiar. Nada mais nada menos do que 70 conjuntos começaram a saltar atrás de três vagas. Desses, 11 ainda sobrevivem depois das primeiras seletivas, e apenas um, Vítor Alves Teixeira, praticamente garantiu a vaga. O problema agora é que se nenhum outro conjunto cumprir os critérios estabelecidos pela Confederação Brasileira de Hipismo – ter apenas 28 pontos perdidos em duas competições –, a definição sairá por critérios subjetivos da própria CBH. Mais uma vez, vão implorar para que Rodrigo Pessoa mude sua posição de não disputar o Pan. Bernardo Alves, que também está no exterior, já admitiu aceitar os critérios e reforçar a equipe.
Golpe duro
A brasileira Natália Falavigna, campeã mundial de taekwondô em 2005, sofreu um duro golpe às vésperas do Pan. Ela foi derrotada pela mexicana Maria Espinosa, principal adversária na categoria entre 67 e 72 quilos, e ficou com a medalha de bronze no Mundial de Pequim. Pior: Espinosa mostrou estar em grande forma e foi campeã mundial, ao vencer a sul-coreana Lee In Jong, com um dramático 4 a 3, nos segundos finais do combate.
Medalha de ouro
Desta vez, o assunto é o Parapan-americano, competição que será disputada logo após os Jogos Rio 2007, de 12 a 19 de agosto. Ouro para a decisão do Comitê Paraolímpico Internacional, que decidiu manter o nadador Clodoaldo Silva na categoria S4 – deficiência motora –, na qual já conquistou quase uma centena de medalhas. Clodoaldo corria o risco de mudar de categoria e ter as suas chances vitória reduzidas. Cerca de 1.300 atletas disputarão as 10 modalidades: atletismo, basquete em cadeira de rodas, natação, halterofilismo, futebol de 5, futebol de 7, judô, tênis de mesa, tênis em cadeira de rodas e vôlei sentado. Vale a pena o público prestigiar aqueles que muito mais do que uma medalha buscam no esporte uma vitória na vida.
Medalha de lata
Não para o atleta, que é excepcional, mas para a sua falta de sorte. O ala Leandrinho, do Phoenix Suns, eliminado dos playoffs da NBA pelo San Antonio Spurs, foi operado no cotovelo esquerdo, nesta segunda-feira. Se já era dúvida a liberação para o Pan, agora a sua presença virou caso médico. A gravidade da lesão não foi divulgada. Sem Leandrinho e Nenê, que joga no Denver e que também não deve ser liberado – depende do pagamento de um seguro exigido pelo clube americano –, vamos para o Pan com o que temos de melhor no Brasil e mais Anderson Varejão, Rafael “Baby” Araújo e Marquinhos, que já conseguiram a liberação dos seus clubes americanos.
Número do Pan
+++ O Planeta Pan também é serviço. Muitos ingressos já se esgotaram, mas ainda existem opções para quem não quer ficar de fora do Pan. São esportes menos populares, mas que podem servir como boa lembrança. Os três esportes que menos venderam ingressos até agora foram a patinação artística, na qual o brasileiro Marcel Stürmer tentará o bicampeonato, o softbol e o badminton. Confira os preços mais baratos para as finais:
A R$ 10, o ciclismo BMX, e a R$ 20, várias opções: hipismo (saltos), hipismo adestramento, boxe, karatê, patinação artística, patinação velocidade, ciclismo de pista, tênis de mesa, lutas, canoagem, badminton, ginástica de trampolim, levantamento de peso, softbol, tiro esportivo, pentatlo moderno, hóquei sobre grama, tiro com arco e esgrima.
+++ Querem ver de perto a tocha do Pan? Então paguem! As 42 cidades, representando o mesmo número de países participantes do Pan, vão desembolsar entre R$ 23 mil e R$ 56 mil para pagamento de despesas com transporte, alimentação, hospedagem e passagem aérea para a comitiva da tocha. Não custa nada lembrar que o evento já recebeu uma injeção financeira de R$ 5 milhões do Ministério do Esporte e uma outra parte, não divulgada, de um patrocinador.
+++ O boliche estréia no Pan do Rio. Para quem gosta do esporte – para mim muito mais um divertimento –, a maioria dos jogadores no Brasil (59%) tem idade entre 18 e 49 anos. E o mais curioso: 47% são homens e 53%, mulheres. “As mulheres estão dando um strike nos homens e dominando o mundo”, diria uma velha amiga.