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08/02/2007 00h00

O Mercado financeiro e as especulações
Julio Hegedus*

Nesta quarta-feira, intensas foram as especulações em torno da saída do Presidente do Bacen, Henrique Meirelles e das pressões por mudanças na política monetária. Visando a estabilidade da moeda e o sistema de metas de inflação, o Bacen acabou se mostrando acertado, diante da inflação de janeiro, onde o IPCS acabou registrando 0,72%, puxado pelo item alimentação e um pouco por transportes.

Neste cenário de boatos e tensões, o dólar acabou fechando o dia em alta, a R$ 2,094 (+0,38%), mas devendo se reverter nesta quinta-feira, diante dos movimentos antecipatórios dos exportadores. Outro fato a justificar a alta da moeda norte-americana, além da central de boatos à plena carga, houve, também, uma atuação mais agressiva do Bacen neste mercado, tendo comprado cerca de US$ 500 milhões.

Novos capítulos sobre o confronto Bacen e governo devem agitar o mercado no restante desta semana. Na agenda internacional, destaque para as decisões do banco da Inglaterra (BoE) e o Banco Central Europeu (BCE) sobre os juros. Em ambos os casos, o mercado espera a manutenção das taxas atuais, em 5,25% e 3,5%, respectivamente. Nos EUA, destaque para o seguro desemprego e os estoques e vendas no atacado.

FALANDO DA ECONOMIA NORTE-AMERICANA

Por enquanto, uma economia sob controle. Esta é a constatação da Lopes Filho diante dos últimos indicadores de conjuntura da economia norte-americana. Antes da reunião do Fed, na semana passada, muitos achavam como provável um ajuste do juro de curto prazo, o Fed Funds, dos atuais 5,25% anuais, para 5,5%. No fim, no entanto, com o crescimento do PIB em 3,4% no ano passado, com o último trimestre indo a 3,5%, e a inflação, pelo IPC, relativamente controlada, em 2,58% anuais, este viés de alta acabou arquivado (ou adiado).

Com estes indicadores cresce no mercado a crença de que o Fed Funds deve se manter no atual patamar num período mais longo do que o antes imaginado, em sintonia com os títulos públicos de longo prazo, no teto em torno de 5,4%.

No crescimento do PIB no quarto trimestre, o ?grande motor? foi o consumo das famílias, que cresceu 4,4%, somado ao bom ritmo das exportações, o que significa para os norte-americanos um volume de gastos maior que a capacidade de poupança. Isto, inclusive, pode ser visto pela taxa de poupança, fechando 2006 negativa em 1,0% do PIB, menor patamar desde a grande depressão dos anos 30. Neste período, a poupança se manteve negativa por dois anos (1932/33), chegando a 1,5% em 1933, em função da precária situação das famílias norte-americanas, atingida por uma profunda depressão, com a taxa de desemprego indo a 25% da PEA. Ou seja, muitos se descapitalizavam, acabando com suas reservas, apenas para tentar sobreviver.

Agora, no entanto, outro fenômeno acontece. Nos dias de hoje, a família média norte-americana experimenta uma ?falsa? sensação de riqueza, em função da disparada na cotação dos imóveis e de outros ativos, além da necessidade de manter um padrão de consumo e de qualidade de vida cada vez mais incompatível com os dias de hoje. As famílias norte-americanas experimentam o maior endividamento dos últimos 70 anos! Há 21 meses, a poupança se mantém negativa, tendo fechando negativa em 0,4% do PIB em 2005, até fechar dezembro passado em -1,2%.

Para 2007, as estimativas do mercado indicam um crescimento do PIB em torno de 2,9%, com a previsão de PIB global elevada a 3,3%, próximo ao ano anterior (3,6%)., segundo a JP Morgan. Atenção, no entanto, deve ser dada a capacidade de rolagem da dívida privada nos EUA, somada aos chamados ?déficits gêmeos?, e a capacidade do mundo, com destaque para a China, para financiá-las.


*Julio Hegedus Netto
Economista-chefe
Lopes Filho


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