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O que é um enredo?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 23/06/2009 18:48

Preferia estar falando um pouco sobre um quesito muito desvalorizado ultimamente - o quesito conjunto. Na minha opinião é esse, talvez, o mais importante dos quesitos em julgamento num desfile de escolas de samba. Mas, como o assunto do momento é enredo, vamos papear um pouco sobre ele. O quesito conjunto pode esperar algumas semanas a mais.

Antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro que não estarei ensinando o que é o enredo, até por que não sinto gabaritado para tal, mas como já coloquei quase quarenta enredos na avenida, posso dar esse pontapé inicial para um salutar debate sobre esse assunto fundamental numa escola de samba. 

Por isso, peço aos amigos que não vejam a verdade absoluta no que colocarei. Serão apenas minhas impressões sobre enredo, com um bom respaldo de experiência, mas nada que vá muito além disso. A participação dos amigos comentaristas será muito proveitosa para todos nós.

Os enredos podem seguir dois caminhos bastante distintos. Eles podem ser temas enredos ou simplesmente temas. Nos carnavais de outrora, os enredos eram quase sempre temas enredo, eram históricos, fielmente descritivos e cronologicamente montados. Nos carnavais atuais, os temas são bem mais frequentes. Os enredos deixaram de ser históricos nesse visão cronológica que eles tinham e passaram a ser bem mais interpretativos. Mas a coisa não é tão simples assim, muitas vezes não sabemos definir se um enredo é um tema enredo ou simplesmente um tema, por exemplo, em alguns enredos: O Domingo da talentosa Maria Augusta claramente foi um tema, O Descobrimento do Brasil do Mestre Arlindo Rodrigues foi um tema enredo. Chica da Silva do grande Fernando Pamplona foi um tema enredo, Tambor do grande campeão Renato Lage foi um tema. Ratos e Urubus do Mestre João Jorge Trinta foi um tema fantástico. E o inesquecível Fernando Pinto nos brindou com o maravilhoso tema,  Tupinicópolis. Mas tentem os amigos diferenciar outros enredos que a coisa complica um pouco.

Mas esqueçamos um pouco esse classificar de enredos e conversemos mais sobre ele. Todo enredo, é claro, nasce de uma idéia. E de preferência uma boa idéia e se for inédita, melhor ainda.

Estamos falando de carnaval e uma temática triste, pesada ou mórbida não combinará muito com ele. 

Desde que acompanho carnaval e nisso já se vão quase meio século, nem sempre uma boa idéia se transforma num bom enredo. Eu já vi idéias brilhantes se transformarem em enredos medíocres e já vi, também, idéias apenas razoáveis se transformarem em enredos inesquecíveis. Já vi ideias não inéditas se transformarem em enredos bem melhores que o original e vice-versa também.

O que faz uma boa idéia se transformar num belo enredo é o seu desenvolvimento, mas para isso é necessário que essa idéia permita a criação de belas, adequadas e diferentes fantasias e de bonitas, pertinentes e variadas alegorias, além, é claro, e fundamentalmente, de um belo samba-enredo. Com isso, entendo que uma idéia necessita de quatro fundamentos para se transformar num bom enredo:

1 - Desenvolvimento em alas e alegorias. 

Muitas vezes um tema é pequeno e limitado e para isso precisamos viajar um pouco na maionese, ou seja, acrescentar desvios que nos permitam uma melhor plástica para o desenvolvimento, e aí mora o perigo. Se exagerarmos na dose perderemos o rumo do tema e o retorno a ele nem sempre será natural. Sonhar demais pode deturpar por completo um enredo e ferir seu caminhar natural. A transição entre alas precisa ser sequencial, uma mudança brusca de estilos, época ou cores pode macular sem retorno um bom desenvolvimento. O mesmo conselho vai para a transição de alas e alegorias. Se uma ala não complementa uma alegoria e a alegoria não faz cenário para a ala que a precede a coisa desanda e muito. O grande problema de um tema não cronológico pode ser a falta de continuidade de um setor para outro.

2 - Possibilidade de criar fantasias adequadas, bonitas, de bom gosto e diferentes.

Uma idéia por si só não nos brindará com um bom enredo se não nos permitir sua transformação em fantasias identificáveis, pertinentes, de bom gosto e que sejam agradáveis de se ver. A repetição de indumentárias torna o enredo cansativo, chato e enfadonho. Uma boa idéia precisa possibilitar a criação de fantasias diversas e não a repetição de vestimentas diferenciadas por detalhes. Uma bom planejamento cromático tornará leve a transposição das diferentes fantasias. 

3 - Possibilidade de criar alegorias adequadas, bonitas, de bom gosto e diferentes.

Uma ideia se tornará um bom enredo se nos permitir a livre criação dos elementos alegóricos. Alegorias que sejam originais e de temática diferentes entre si sempre desenvolvem bem um enredo. A dosagem cromática e a possibilidade na criação de indispensáveis esculturas será um bom começo. Também é importante a adequação da alegoria para as alas que a precedem, e se possível, com a ala que a segue.

4 - Possibilitar aos compositores a criação de um belo samba-enredo.

E aqui precisamos diferenciar duas coisas bastante distintas. Uma é o texto do enredo que servirá de base para a análise do julgador de enredo. Esse texto deverá ser descritivo, com todo o enredo explicado e poderá ser monográfico, não precisará emocionar, ele precisa é não deixar dúvidas sobre as pretensões do enredo. A outra é a sinopse do enredo que é um resumo do que é fundamental na letra do samba-enredo. É a sinopse que será entregue aos compositores e esse texto precisa inspirar e emocionar a ala de compositores, ele precisa transmitir tesão (me perdoem o termo, mas não vejo palavra melhor) aos poetas da escola. Ela não pode ser um relato frio e enfadonho do enredo. Ela precisa ser poética, ter um jogo diferenciado de palavras, ser bastante adjetivada e mais rebuscada em poesia. Na verdade, ela é um texto intermediário entre o monográfico enredo e a letra do samba-enredo.

Tem um ditado que se aplica muito bem ao que acabei de escrever: 

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço ...

E digo isso por que em meus enredos não consegui colocar o que penso na prática. Na verdade, a realização de um carnaval e o desenvolvimento de um enredo é bem mais complexo que meia dúzia de palavras num site de carnaval. Mas o importante é ter dado esse pontapé inicial para um amplo debate sobre a mágica de um enredo.

No relato dos enredos, não citei três feras na arte de um bom enredo:

Paulo Barros, Oswaldo Jardim e propositadamente a artista Rosa Magalhães que soube transformar uma idéia maravilhosa numa outra idéia mais maravilhosa ainda. João das ruas do Rio, o enredo do Império Serrano, é para mim até agora, o enredo destaque deste ano.
 
Um abraço
Luiz Fernando Reis