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Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 15/06/2009 16:31

A história desta semana é a de um torcedor da Mocidade Independente. Luiz Carlos Severo narra um acontecimento às vésperas do carnaval de 76 mostrando, com muito humor, o envolvimento da religiosidade com o samba.

"À minha Rainha :

Envio a história abaixo, sem qualquer compromisso, para você avaliar se tem interesse e  espaço para publicação no site.

A personagem principal é a saudosa e folclórica baiana Tia Chica, responsável pelas festividades religiosas ligadas ao samba, naquela época em que comemorávamos com muito entusiasmo as datas festivas dos santos de nossa Fé.

Tia Chica vem a ser mãe da competente e atuante baiana Bibiana e do também folclórico, polêmico, saudoso e competente ritmista Fumão, cujo boato da sua morte ocorreu pelo menos 4 vezes, nos seus 5 últimos anos de existência... o cara aprontava todas no bom sentido!!!"

Eis a história :

No carnaval de 75 a Mocidade recebeu vários prêmios, elogios, estandarte de ouro em enredo e fantasia ,,,,,, A escola estava bombando e a expectativa para 76 era muito grande .

Não tínhamos problemas financeiros, porém havia muita negatividade: confusões no barracão, intrigas nos bastidores, chiadeiras de compositores, problemas nos ensaios, brigas internas... a urucubaca era geral!!!  Daí, espontaneamente, a nossa saudosa Tia Chica se inspirou para fazer um trabalho espiritual!!! Procuramos o também saudoso e generoso Dr. Castor, que por via das dúvidas, como fazia rotineiramente,  abriu a bolsa, proporcionando uma imensa oferta de oferendas e rufar de tambores em Padre. Miguel, culminando com uma lavagem na quadra, onde foi utilizado 7 vassouras, 7 rodos virgens, 7 baldes virgens, 7 kilos de sabão, 7  kilos de sal grosso,70 molhes de ervas especiais, 700 litros de água  que foram utilizados por 7 homens com o corpo limpo(sem relação sexual por 7 dias)  .

Logo após a lavagem da quadra o clima melhorou em 100 % : os compositores perdedores se acalmaram, a produção no barracão alavancou, os ensaios eram um sucesso, os críticos viraram colaboradores, a imprensa dedicou mais espaço... etc.
       
O Dr. Castor ficou impressionadíssimo e mandou reformar o centro da Tia Chica, sem falar nos outros agrado. O homem sabia ser generoso, e o natal dos envolvidos e de  outros bicões nesse processo nunca foi tão farto.    

Veio o carnaval e a Mocidade desfilou com muita competência e glamour, ficando em 2º lugar; o explosivo Fumão não se conformou e aladeou que dois dos sete homens que lavaram a quadra tinham namorado no último dia.

E o que é pior... bem, paro por aqui porque desses 7 há ainda quem esteja está vivo, e o negócio pode acabar comprometendo.

Beijo do seu súdito... Severo."


Lendo esse email, lembrei que a Mocidade nesse ano havia tirado não o segundo, mas o terceiro lugar e perguntei ao Severo: "Você está falando o ano certo, porque em 76 a Mocidade ficou em terceiro?". Ao que ele respondeu:

"Oficialmente ficamos em 3º, porque empatamos em 2º com a Mangueira, perdendo no quesito de desempate. Moralmente ficamos em 2º, isso é mais uma polêmica dos desfiles, pois o quesito de desempate era BATERIA e nessa época, minha rainha, não tinha pra ninguém!!! Pois nenhuma escola havia copiado a graça da paradinha, não conhecia a baqueta sextavada nos tamborins(amplia o som da batida, inventada pelo canhoteiro). Tinha de respeitar a bossa na marcação do nosso surdo de 3ª (criada pelo grande Miquimba), que dava aquele balanço no andamento/compasso.

É por isso que a Mocidade nunca desce. Somos celeiro de sambistas tradicionais, conseguimos casar o tradicional com a vanguarda, estamos numa crise momentânea , que já se prolongou demais e que, se Deus quiser, será superada no próximo desfile. Levo a maior fé

... Beijo/Severo."

Grande tia Chica, dizem que foi de seu terreiro que saiu o ritmo da Mocidade. Mestre André era o ogã do terreiro, tocava o atabaque.

Como também dizem que cada escola tem sua batida influenciada pela religião e por suas respectivas crenças, com a Mocidade não foi diferente, já que tia Chica trazia a herança de Angola.

A Mocidade em 1976 desfilou com um carnaval lindo, mas acabou em terceiro, com 116 pontos. Nesse ano o desfile foi na Presidente Vargas, na altura do Mangue, e a verde e branca de Padre Miguel desfilou com o enredo "Mãe Menininha do Gantois, do carnavalesco Arlindo Rodrigues. Há um detalhe nesse desfile que escapou à observação do Severo: os componentes da bateria desfilaram com a cabeça raspada, num dos momentos mais marcantes da história do carnaval. Foi também um trabalho espiritual.

Mas Severo: nem tia Chica, com toda sua crença e devoção aos santos,  nem as cabeças raspadas poderiam prever o que aconteceria no carnaval de 1976.

Joãozinho Trinta, que no ano anterior havia sido campeão pelo Salgueiro, com um enredo original, "As minas do rei Salomão", acabara de estrear na Beija-Flor, deixando de lado a estética que a azul e branca de Nilópolis vinha desenvolvendo em cima de enredos ufanistas, desfilando com um enredo sobre o jogo do bicho, "Sonhar com rei dá leão", inaugurando uma nova era nas escolas de samba, a era das superproduções das escolas, com gigantismo, luxo e exuberância visual.

O desfile tornara-se um grande espetáculo. Realmente seria difícil vencer a Beija-Flor , já que após esse grandioso desfile, a escola de Nilópolis tornara-se parâmetro de estética visual para as outras.

O bom foi que não demorou muito para a Mocidade se adaptar à nova estética, vencendo três anos depois, em 1979.

No YouTube, eu consegui encontrar um trechinho do desfile da Mocidade e do samba da Beija-Flor em 1976:

Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br