Eu iria começar meu texto brincando com o fato de ter feito aniversário e atravessado meu inferno astral. No entanto, diante do desaparecimento do avião da Air France, desisto de qualquer brincadeira.
Eu conhecia uma das pessoas que estavam no AF 447. Ela não era minha amiga, mas por essas coisas da vida, duas pessoas muito queridas eram próximas a ela. A última vez que a vi foi na véspera do meu aniversário do ano passado. Por conta da aula numa turma de concurso, encontrei com Adriana e conversamos rapidamente.
Tragédias não mandam sinais de quem serão suas vítimas. São pessoas comuns que por uma loteria ao contrário, encontram a fatalidade. No caso em questão, fatalidade travestida de silêncio e escuridão da noite.
Na queda do avião da TAM, em 2007, também conhecia uma das vítimas. Por coincidência, não era meu grande amigo, mas muito íntimo de uma querida amiga. Sentei em mesas de bar com os dois, ri entre chopps e comidas que aumentaram meu colesterol.
Penso na dor profunda da mãe de minha personagem. Não consigo mensurar a dor que atravessa seu peito. Posso falar da minha. Durante eternos cinco minutos meu filho ficou perdido na praia. A bruma de desespero fez com que eu sentisse um vazio e a culpa de não ter feito tudo. Ele voltou e o cuidado ficou redobrado. Mas, e essa mãe? Ela não tinha mais o que fazer. Acredito na desgastada imagem que filhos são flechas que lançamos no mundo. Ela já fizera o lançamento. O que pode um simples arco fazer para que a flecha não caia no fogo?
No meio da tarde de angústia, um homem chega ao hotel da Barra dizendo que ligou para o celular de um dos passageiros. Segundo o relato, o aparelho tocou e a ligação não caiu diretamente na caixa postal. Confusões da telefonia ou milagre?
O tempo passa e não há sinais, não há destroços. A emoção diz que se não há morte, há vida. A razão, com o estofo da opinião dos analistas, diz que se não há vida, há morte. Cérebro e coração dialéticos, como a vida e a morte. O avião sumiu do radar. Aqui de baixo, o arco acompanha a flecha, até que ela também fique invisível.
Arco no armário, mãe na cama, cabeça no travesseiro rezando. O jeito é fechar os olhos para fazer do sonho, o local do reencontro.