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O universo paralelo do mundo das raves

Luiz Felipe Carneiro | Opinião | 31/05/2009 20:05

O universo paralelo do mundo das raves / Foto: Reprodução/Site Oficial

Um sujeito passa uma hora pendurado por ganchos cravados na pele em busca de "prazer, dor e inspiração espiritual". Achou estranho? Pois saiba que esse fato tão bizarro é apenas uma amostra do que acontece no mundo das raves, algo tão conhecido por poucos e desconhecido por muitos. Após a leitura de "Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves" (Ediouro), o sujeito que percorreu as suas deliciosas 284 páginas, pode ter certeza de que conheceu um verdadeiro universo paralelo.

A descrição feita no livro é minuciosa, didática e curiosa. Os "personagens" do livro parecem ter sido escolhidos a dedo, deixando a leitura bem agradável. Além do tal "Coração Sangrento" que fica pendurado em ganchos, enquanto o seu sangue escorre, em "Festa Infinita" é possível encontrar a história de pessoas curiosas, como o sujeito que deixou de ser dentista para se transformar em Rica Amaral, idealizador da festa Xxxperience e um dos DJs mais conhecidos no mundo raver. Ou então a história do casal de namorados Rodrigo e Cecília (nomes fictícios). O primeiro não perde uma rave e a segunda, paciente, o acompanha a festas que chegam a durar dias.

Além das histórias curiosas, "Festa Infinita" tem um lado didático muito interessante. Tomás Chiaverini explica a história das raves e nada soa cansativo. Pelo contrário. Ou você sabia que na Idade Média já existia uma espécie de "pré-rave" das cavernas? E a história passa pela Inglaterra dos anos 80 e pelo nascimento das raves no Brasil, no início da década de 90, que desembocou em festas como a Xxxperience, a Avonts, a Fusion, a Trancendence e o Universo Paralello. Essas duas últimas chegam a durar dias e dias, como em uma festa infinita mesmo. Os estilos musicais adorados pelos frequentadores das festas - até chegar ao psytrance - também são descritos com didatismo e profundidade.

Mas para quem pensa que "Festa Infinita" é um "elogio infinito" ao mundo das raves, se engana. O distanciamento crítico do autor faz com que o livro toque em temas sensíveis como as mortes que acontecem nessas festas e toda a problemática das drogas. Tomás Chiaverini, inclusive, descreve com detalhes a história do LSD (uma das drogas mais usadas nas festas infinitas) até a sua chegada ao Brasil. Lá pelo finalzinho do livro, o autor conta como foi a sua experiência com o ectasy. O relato, cheio de sensações, é um dos pontos altos. E a conclusão do autor é crua:

"Nesse momento, tenho certeza absoluta de que não há música eletrônica sem ectasy, de que aqueles sons são uma espécie de interface com a droga, criados para estimularem os efeitos da MDMA."

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Outro ponto sensível tocado pelo autor é o de que os ideais do PLUR (paz, amor, união e respeito), que sempre regeram as raves, não estão mais presentes em algumas dessas festas infinitas. Nesse momento, Tomás Chiaverini mostra a falta de educação de alguns dos participantes e, principalmente, a tolerância com as drogas que alimenta tantos males na sociedade. Um trecho do livro chega a ser revelador:

"Nenhum dos ravers neo-hippies que se dizem preocupados com os rumos da sociedade moderna parece lembrar a proveniência dessas substâncias [drogas ilícitas]. No clima de festa e alegria há espaço para manifestações contra as religiões tradicionais e o consumo de carne, mas nada se fala sobre tráfico de drogas."

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Nunca pisei em uma rave, e não tenho planos de fazê-lo. Nada contra, mas realmente não é a minha praia. Talvez o meu interesse, de imediato, por "Festa Infinita" não seria muito alto. Mas a forma com que o autor escreveu o livro, faz com que a leitura desça muito bem. No estilo livro-reportagem, os capítulos são muito bem encadeados, e o relato chega a nos dar uma sensação de que nós estamos realmente em uma rave. Um universo paralelo, a princípio, estranho, mas que, ao final do livro, se torna íntimo.

E é exatamente por isso que a leitura de "Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves" é altamente recomendável. Goste-se ou não de rave, o livro nos transporta para um mundo diferente, um universo paralelo. E esse é o seu maior mérito.