Parece assunto proibido. Ninguém comenta nos fóruns, nenhum dirigente se pronuncia. Engraçado, porque a licitação que o prefeito Eduardo Paes pretende fazer para administrar o desfile das escolas de samba é o tema mais importante do momento neste nosso universo carnavalesco.
Desde que Cesar Maia assumiu a prefeitura, em 1993, o governo municipal repassou à LIESA toda a organização do evento. De tal forma que a entidade passou a ser a "dona" do carnaval. Esta era pode estar chegando ao fim.
Não se sabe ainda o que os burocratas da prefeitura estão preparando para o edital que vai reger este novo momento do carnaval carioca. Eles podem propor uma mudança radical ou apenas inserir mais um "personagem" na festa.
Sempre defendi que o poder público tivesse um papel mais atuante. Não que ele precise "colocar a mão na massa", mas é fundamental que cumpra uma ação reguladora e fiscalizadora. É preciso que a prefeitura (que na última análise deveria ser o poder do povo) determine como deve ser a festa, definindo diretrizes e filosofias. E que mantenha uma relação profissional com o contratado, cobrando resultados e analisando as contas do evento.
Há muita coisa a ser feita para a melhoria do nosso carnaval. Tanto no aspecto artístico quanto no operacional. Uma parte depende da prefeitura e outra das escolas. Algumas destas questões foram levantadas por parlamentares nas comissões instauradas tanto na Câmara de Vereadores quanto na Assembléia Legislativa do Estado. Só que tais comissões não resolvem nada e não parecem interessadas em resolver.
É preciso que se discuta publicamente o número de escolas em cada grupo e quantas sobem e descem após o desfile; que se debata a constituição dos júris e o formato da avaliação dos desfiles; que se repense o desfile das campeãs que um dia já teve até os blocos e hoje é visto como uma festa VIP das grandes escolas; que se reveja a distribuição de verba pública entre as agremiações de diferentes grupos e que se planeje uma maneira de novamente popularizar junto ao carioca a cultura das escolas de samba.
Por outro lado se faz urgente a revitalização do sambódromo e de seus arredores. As áreas de armação e dispersão são vergonhosas. Sujas, mal iluminadas e perigosas, as ruas que cercam a passarela representam perigo para desfilantes, turistas e prestadores de serviço. Não há sinalização (ou é pouca) nos acessos e as distâncias para quem erra o caminho são gigantescas. Lá dentro quem paga caro por um ingresso senta no concreto e corre o sério risco de sair encharcado em caso de chuva (mesmo os que estão nas frisas). Os bastidores dos camarotes também não refletem o glamour de quem gasta fortunas para ter mais conforto no "maior espetáculo da terra". As instalações para a imprensa então... melhor nem comentar.
Aconteça o que acontecer, é bom lembrar que LIESA, LESGA e AESCRJ vão continuar exercendo papel importante no evento. Elas são as representantes das escolas e vão continuar gerenciando a execução dos desfiles. O que pode acontecer é a entrada de uma terceira empresa para cuidar da estrutura dos desfiles e trabalhar verbas publicitárias.
A mudança pode, e deve, ser para melhor. Mas também corre o risco de trazer novos problemas. Afinal, quem entrar vai encarar tudo como um grande negócio exacerbando o caráter mercadológico do qual nós já reclamamos hoje em dia.
Por isso é fundamental que nós, amantes do samba e das nossas escolas, discutamos, debatamos e façamos ver à prefeitura que ela pode e deve inserir neste edital maneiras de proteger o caráter cultural e popular do carnaval.
A melhor maneira eu não sei qual é, mas se cruzarmos os braços estaremos deixando passar uma oportunidade de ouro de melhorar a nossa festa e, quem sabe, deixando passar sob nossos olhares o decreto para a morte definitiva da maior manifestação cultural do país - e nossa maior paixão.