No centenário de Noel, um samba assinado por Martinho da Vila. A idéia parece ótima. Mas será a melhor solução? O que há por trás disso?
Na verdade, mais do que criar uma fato histórico unindo dois ícones da MPB ligados ao bairro, a idéia visa a garantir a nota máxima no quesito samba-enredo, apostando que os julgadores se sentiriam inibidos diante de uma obra com a assinatura de um nome consagrado como Martinho. Tudo em função das notas baixas aplicadas ao samba de 2009.
Martinho não vence o concurso da escola desde 1993. De lá pra cá participou, sem sucesso, de algumas disputas. E não pode reclamar da direção da escola. Suas últimas obras não têm honrado o nome do autor. Nada parecido com os antológicos "Iaiá do cais dourado", "Pra tudo se acabar na quarta-feira" e "Raízes". Além disso, tais sambas não têm sido "abraçados" pela comunidade, mais acostumada com o estilo de André Diniz e parceiros.
Parece fato definitivo também o esgotamento deste tipo de samba. Principalmente junto aos julgadores. O próprio André tem pensado em fazer coisas diferentes, mas ainda não se sente seguro para tal. Só que André e Martinho não são os únicos nomes na ala de compositores da agremiação.
Na última disputa a escola teve uma vasta gama de estilos a seu dispor. Poderia citar vários compositores, mas há uma especial que possui o talento suficiente para fazer aquilo que o grande público espera de Martinho: um samba de qualidade e fora dos padrões vigentes. Seu nome é Eduardo Medrado, autor de dois sambas campeões da Imperatriz (95 e 99). Por exagerar na busca por melodias diferenciadas, Medrado não vem obtendo sucesso nas disputas das várias escolas por que tem passado. Acredito que, sendo um pouco mais comedido em sua construção musical, ele pode fazer a diferença.
Não estou pedindo que encomendem a ele o samba, mas que deixem ele (e os demais) tentarem fazer algo melhor que o Martinho. É importante ter alternativas para o caso de o mestre errar a mão de novo.
A teoria de que o nome de Martinho é garantia de nota máxima faz sentido. Mas, se a Vila acredita ter sido prejudicada neste quesito, teoricamente isto pode acontecer em qualquer outro, especialmente nos mais abstratos como evolução e harmonia, que não têm assinatura consagrada pois dependem da coletividade.
Ainda acredito que o melhor caminho seja a disputa. E, se Martinho fizer bonito - mais bonito que os concorrentes, que vença e nos brinde com uma grande obra. Eu, particularmente, torço para que isso aconteça.