Construção
Demas (Ademar Jr. de Queiroz) | Blogosfera | 14/05/2009 19:02
"Amou daquela vez como se fosse a última
(...)
Beijou sua mulher como se fosse a única
(...)
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo..."
(Chico > 1971)
HISTÓRICO: Esta é outra daquelas canções que ouvi - pela primeira vez - lá pelos idos de 1979. Parte da trilha de uma coletânea que trazia também "Geni e o zepelim" (veja post do dia 18 de março de 2006), "Construção" me fascinou, imediatamente, por causa do jogo de palavras, em que versos praticamente idênticos diferenciavam-se em função dos últimos vocábulos, todos proparoxítonos. Aquilo, para um garoto de 13 anos, era como decifrar um mapa do tesouro. Hoje, continuo encantado com a estrutura dessa canção e - mais ainda - com a verdade urgente de alguns dos seus versos. De que outra forma deveríamos amar, se não como se fosse a última vez? Porque o amor é ardiloso e exige dedicação, ardor e entrega para crescer plenamente. De que outra maneira beijar a pessoa amada, se não como se ela fosse a única? Porque o objeto (ou seria o sujeito?) do amor pede devoção e cumplicidade, sob o risco de sentirmos na boca um travo de amargor, rancor e dor. De que outro jeito descansar, se não como um príncipe? Porque nós somos os soberanos das inúmeras realizações diárias que executamos em casa, na escola, na rua ou no trabalho. E se é arroz-e-feijão que se tem para comer, por que não fazê-lo como se fosse o máximo? Não, não é questão de resignar-se com o pouco, mas de ser grato pelo que a vida está oferecendo naquele momento. Festejar a abundância, qualquer um faz. Difícil é enxergar algo onde os outros vêem nada. Tudo isso parece utopia? Pois para mim, são elementos essenciais do prólogo de uma história de vida feliz, que eu procuro escrever todos os dias, uma linha de cada vez. É claro que, em alguns momentos, monossílabos, hiatos, verbos de ligação e pontos finais imperam em parágrafos frios e curtos. Mas há também os capítulos longos, repletos de ditongos, contrações, objetos diretos e indiretos, apostos, parênteses e reticências. Se o final for feliz, melhor. Porque o que interessa mesmo é que o conteúdo dessa escrita seja rico em detalhes e emoções.
Texto publicado originalmente no blog buarqueando
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Postado por:Ronald Corrêa | 26/05/2009 17:37:44
Nossa, que interessante! Não só pela excelente letra do Chico, que também me fascina, mas pelo texto, pelas palavras, pelo bom gosto... Ganhou um leitor assíduo. "Show de bola!" Gosto demais dessas asssociações com letras que valham a pena. Obrigado.


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