A infâmia dos trocadilhos
Soares Júnior | Soares Júnior | 11/05/2009 21:32
Tenho implicância com a correção política. Odeio também trocadilhos infames. Não sei o que é pior. Um sábio amigo disse que a correção política está acabando com os palavrões. Você pode condena-los na novela, na boca dos seus filhos, mas perdoem-me, na conversa informal P´s. FDP´s e afins são praticamente imprescindíveis.
Esse confesso nariz-de-cera é para falar sobre uma inacreditável propaganda que vi num outdoor. O atentado ao bom gosto está na Rua Humaitá, quase esquina com a Macedo Sobrinho.
O quadro: Dois pés de couve com a seguinte legenda. Couves Gêmeas, um ataque de delícia do Hortifruti. É inacreditável, essa campanha com títulos fazendo trocadilhos com títulos de novela teve seus acertos, mas a escorregada é inaceitável.
Foram três mil pessoas mortas num ataque sem precedentes. Talvez em 100 anos os historiadores dêem ao 11 de Setembro de 2001 o mesmo peso da queda de Constantinopla e da Revolução Francesa, marcos arbitrários, mas emblemáticos de mudanças de época..
Acho que nós os responsáveis por mensagens públicas deveríamos pensar no peso que nossas palavras ganham. Há trezentas mil piadas infames, elas proliferam a cada novo acontecimento trágico. Poderia lembrar de todas numa conversa de bar, com bastante chopp e sem volante depois.
Isso me lembrou um caso muito comentado nas rádios do Rio de Janeiro. Há diferentes versões, mas a mais conhecida é a seguinte:
Trágico dia na história da cidade. Na virada de 88 para 89 o barco Bateau Mouche naufraga no litoral carioca. Mais de 60 mortos, dentre eles a maravilhosa atriz Iara Amaral.
O repórter deu a notícia na emissora. O comunicador ouviu e num ataque de semnoçãozisse (neologismo) disse algo como: "morreu, mas é ano novo é festa". O intrépido operador completou o serviço colocando nas carrapetas a canção que diz "É doce morrer no mar, nos braços de uma sereia".
Há diferentes relatos sobre o fato, mas a versão é ótima. Vocês me dirão que eu deveria ter cuidado de apurar, mas é um "causo" e nenhum nome foi dito, portanto...
Eu devo estar ficando velho. Será que estou ficando politicamente correto? Seria um triste fim.
Até a próxima.
Postado por:Diego Abu-Marrul | 17/05/2009 09:55:12
Você se questiona se está ficando politicamente correto e eu me questiono quanto a algo também preocupante. Vi o anúncio e, inacreditavelmente, não associei com a tragédia de 11 de setembro: "mais um anúncio bobo dessa campanha", pensei eu. Será que já não me abalo com tamanha falta de bom senso? Será que estou ficando frio e indiferente?
Postado por:Jotapê | 14/05/2009 07:53:40
Tá ficando velho. E politicamente correto.
Postado por:João Figueiredo | 12/05/2009 23:43:50
Ser correto é ruim? O excesso de palavrões que está acabando com a correção... vejo professores (sim, professores) banalizando o uso dos palavrões... falam sem motivos..só por falar....como se estivessem numa mesa de bar com muito chopp...mas não..adicionaram ao vocabulário e falam sem contexto..são situações como a do comunicador que não pesa o que fala...é foda!
Postado por:Fred | 12/05/2009 15:43:45
Não é você que está velho. Apenas interpretando as coisas como de seu costume. E as coisas tão se alterando. O preço de uma propaganda como essas, que é comentada geralmente pela sua graça de trocadilho com frutas, é justamente o de passar dos limites. Assim como nossos jornais passam de certos limites algumas vezes, a publicidade, tão faminta, não medirá os modos para atingir seu público. Algo que só podemos aceitar.

















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