Tive que empreender uma caminhada pelas ruas de Botafogo. Fui da General Polidoro à rua Humaitá. Era hora do rush e um táxi demoraria tanto quanto a atividade aeróbica. Pus-me a caminhar.
Passei pelas calçadas que um dia foram minhas nas madrugadas, nas voltas da faculdade ou da praia. A Mena Barreto é uma grande adversária para os veículos automotores. Na esquina da Real Grandeza com Visconde Silva vi um imóvel abandonado. Ali funcionava a Pizzaria Calabresa, que foi um entreposto para várias domingueiras.
Apesar do investimento no pólo gastronômico de Botafogo, sinto que faltou deslocar o eixo até a Visconde Silva, bares abandonados, calçadas esburacadas. De novo, lançamentos imobiliários, um com o vício telemarketício (neologismo): "Você vai estar morando aqui em janeiro".
Deu nostalgia. No dia que a Princesa Diana morreu, eu estava de plantão. Meu horário era às 5 da manhã, na Rua do Livramento. Com bom senso, a Rádio Tupi mandava buscar em casa as pessoas que trabalhavam neste horário. No dia m questão tive que passar pela Visconde Silva. Era uma ferveção, pois havia um conjunto de bares que era chamado de baixo gay, com bastante preconceito em algumas bocas.
Era impossível passar na rua, toda tomada, bares funcionando, e o povo no maior agito. O carro da Tupi passando e a galera gritava. Atravessar o quarteirão quase fantasma teve em mim a angústia que o primeiro arqueólogo teve ao se deparar com uma cidade maia abandonada. (OK, menos). Quanta gente se conheceu ou quantas salivas foram trocadas, ou ainda, quantos romances de vida inteira tiveram a duração de um olhar, de um flerte ou coisa assim.
Era um tempo bom, dividir com a Mirella um frango assado, aprender com o Feres a melhor maneira de tratar uma matéria em rádio popular e lembrar do meu pai. Era tudo um aprendizado, com o Jonas, foi que as matérias para o Sentinelas deveriam ter até 38 segundos. Com o Jairo, que a segunda é feira e não "fêra".
Acho que a melancolia deste texto se deve a proximidade do meu aniversário. O tempo passa e a gente vai vendo que o mundo é redondo. Por exemplo, quando dei aula para o Thiago na faculdade. Dei uma gelada, pois o pai dele foi meu primeiro professor numa redação. Com a lusitana girando, começo a dar aulas para os filhos de alguns rostos do passado.
Em casa me deparo com o passar apressado dos ponteiros quando meu filho me diz antes da disputa de pênaltis: "Vai começar aquele friozinho na barriga". Há pouco tempo o filho era eu. A diferença era que se sentia, meu pai não transparecia o frio na barriga.
Em tempo, Mengo!!!!!!