Compreendo o desfile de uma escola de samba como a conclusão de um amplo projeto de carnaval. Esse projeto será tocado por várias mãos, mas seis delas são fundamentais em seu desenvolvimento. O presidente da Escola, que é o homem do dinheiro, o carnavalesco, que o responsável plástico pelo projeto, e o gestor ou coordenador desse projeto que é o diretor de carnaval".
Na coluna passada, estávamos no momento de criação do carnaval e deixamos bem claro que não deveria haver influência da direção de carnaval no processo criativo do carnavalesco. Apenas uma suave supervisão para evitar exageros que possam comprometer o bom andamento de um desfile. Citemos, como exemplo, uma situação comprometedora num desfile: O artista carnavalesco decide que a quarta alegoria deverá ser formada por dois tripés acoplados a uma grande alegoria. A coisa é gigantesca, bonita e grandiosa, mas a sua montagem com a escola em desfile pode ser catastrófica. Um atraso nessa montagem pode abrir um buraco que acabe penalizando a escola, no mínimo, em três quesitos: Evolução, Harmonia e Conjunto. Essa preocupação deve existir na direção de carnaval.
Deixemos o carnavalesco criar a plástica do carnaval e vamos partir para o processo mais importante no pré-desfile de uma escola de samba e, também, da função do diretor de carnaval - Vem aí, a escolha do samba enredo. É claro, que essa escolha não passa apenas pela direção de carnaval. São fundamentais na comissão de escolha do samba, pelo menos, quatro nomes:
O presidente por ser o cargo majoritário da entidade, e é nele que recairá a maior culpa de uma escolha errônea. O diretor de carnaval que é o gestor do projeto e o conhece em sua amplitude. O carnavalesco que é, naquela oportunidade, o único a conhecer detalhadamente sua proposta plástica de desfile e reconhecer numa palavra, num verso ou estrofe de um dos sambas um ponto fundamental para a compreensão de seu trabalho e a direção de harmonia-evolução, que conhecendo a forma de desfile da escola pode optar por essa ou aquela obra.
Com certeza outros nomes podem e devem figurar nessa comissão de escolha do samba-enredo, mas uma coisa, no meu modo de ver, é fundamental. Esse colegiado precisa ser uma equipe, um time e estar unida com a difícil missão de escolher a melhor obra que será levada à avenida. E não tem essa de voto secreto, não pode ter o samba do amigo ou o do inimigo e eu não conto pra ninguém minha opinião. Toda eliminatória precisa ser encerrada com uma reunião fechada onde essa comissão discutirá abertamente cada uma das obras apresentadas.
Nessa fase a seriedade e a discrição são fundamentais. O que acontece numa dessas reuniões precisa ficar em sigilo até a próxima eliminatória. E como toda unanimidade é burra, alguns perderão, mas a maioria terá feito sua vontade e preferencialmente a vontade do corpo da escola, por isso, nesse processo eles precisam ser ouvidos. Você como julgador não pode e nem deve externar sua opinião fora do colegiado de escolha, mas deve, obrigatoriamente, ouvir as opiniões do maior número possível de componentes. A voz que cantará o samba na avenida precisa ser ouvida desde esse momento.
A escola já tem seu samba escolhido, o carnavalesco já deve estar com os protótipos das fantasias executados e as alegorias projetadas e já em execução. Cabe ao diretor de carnaval numa parceria com a direção de harmonia-evolução e com a benção do presidente dar inicio ao planejamento do desfile da escola. E aí vem as reuniões com cada um dos segmentos da escola e nessas reuniões, direção de carnaval e direção de harmonia devem esclarecer como será o desenvolvimento da escola na avenida.
Uma releitura e uma análise dos regulamentos de desfile será excelente numa reunião como todo o departamento de carnaval e harmonia-evolução. A escolha do nome que puxará ( não confudir com o puxador ou intérprete) , na verdade, é uma missão técnica importantíssima. É ele que controlará o tempo de desfile. Então quando você avistar um cara sério e com jeito de metidão a frente da escola e com uma parafernália de fones de ouvido, microfone e rádio na mão, não se espante. Ele até parece mais um presepeiro, mas é o fundamental cronometrista da escola. Desculpem o termo presepeiro, mas com ele, me autodenomino, pois fiz esse trabalho nos últimos cinco anos da Caprichosos de Pilares, com exceção de 2009, pois estava, como carnavalesco na Império da Zona Norte, em Porto Alegre e por lá fiz a mesma coisa, mas sem a parafernália dos rádios, que não são usados por lá.
Outra escolha muito importante num desfile é a designação do diretor de joelho, ou seja, a passagem da escola da concentração da Avenida Presidente Vargas para a Marques de Sapucaí. Muita escola já ganhou e já perdeu carnaval ali. A função dele é coordenar a curva das alegorias e das alas. Uma manobra perfeita é quando a alegoria entra direta e sem manobras, nesse joelho, não permitindo o tão indesejado espaçamento carros-alas. Ele também tem um rádio e comunica ao cabeça da escola, se alguma alegoria teve problemas de entrar em desfile e se é necessário parar a escola.
O terceiro ponto chave de uma escola é o diretor que acompanhará a bateria em suas manobras de saída e entrada nos recuos. Ele também tem um rádio e se comunica com os demais rádios, especialmente ao cabeça da escola, informando o momento da escola parar para o ingresso da bateria no segundo recuo.
Se o casal de mestre-sala e porta-bandeira não vier à frente da escola, como atualmente acontece na maioria das agremiações, um quarto rádio se faz necessário para possibilitar, com a parada de escola, a apresentação do casal à frente dos módulos de julgadores.
Como os amigos podem perceber, é bastante árdua a tarefa de um diretor de carnaval. Esse cargo não nasceu do nada e nem para agradar ninguém. Ele, com a grandiosidade dos desfiles de hoje, é, sem dúvida, fundamental.
Esse pequeno relato é uma homenagem aos grandes diretores de carnaval de nossa festa maior. Apesar da truculência e da cara feia de sempre nossa homenagem ao grande mestre Laíla, esse sabe tudo e um pouco mais de carnaval. Mesmo com a aparente arrogância, não podemos esquecer do outro monstro em dirigir um carnaval, Wagner Araújo, sabe muito de carnaval. Um de seus discípulos também segue uma linha de muito conhecimento de carnaval, Ricardo Fernandes.
Três outros nomes que me merecem respeito, apesar de não mais atuando na área, Jorginho Harmonia, Chiquinho Pastel, o Chiquinho do Babado da Folia e os falecidos amigos do peito Roberto Costa e Jorginho Moreira. Com cada um deles eu aprendi um pouco do pouco que sei de carnaval. Quem sabe um dia consiga desempenhar essa função com tanto talento quanto eles.
Um Abraço
Luiz Fernando Reis (por quatro vezes diretor de carnaval da Caprichosos de Pilares e por uma vez do Paraíso do Tuiuti)