Parte II - Diretor de Carnaval
Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 30/04/2009 16:34
Compreendo o desfile de uma escola de samba como a conclusão de um amplo projeto de carnaval. Esse projeto será tocado por várias mãos, mas seis delas são fundamentais em seu desenvolvimento. O presidente da Escola, que é o homem do dinheiro, o carnavalesco, que o responsável plástico pelo projeto, e o gestor ou coordenador desse projeto que é o diretor de carnaval".
Na coluna passada, estávamos no momento de criação do carnaval e deixamos bem claro que não deveria haver influência da direção de carnaval no processo criativo do carnavalesco. Apenas uma suave supervisão para evitar exageros que possam comprometer o bom andamento de um desfile. Citemos, como exemplo, uma situação comprometedora num desfile: O artista carnavalesco decide que a quarta alegoria deverá ser formada por dois tripés acoplados a uma grande alegoria. A coisa é gigantesca, bonita e grandiosa, mas a sua montagem com a escola em desfile pode ser catastrófica. Um atraso nessa montagem pode abrir um buraco que acabe penalizando a escola, no mínimo, em três quesitos: Evolução, Harmonia e Conjunto. Essa preocupação deve existir na direção de carnaval.
Deixemos o carnavalesco criar a plástica do carnaval e vamos partir para o processo mais importante no pré-desfile de uma escola de samba e, também, da função do diretor de carnaval - Vem aí, a escolha do samba enredo. É claro, que essa escolha não passa apenas pela direção de carnaval. São fundamentais na comissão de escolha do samba, pelo menos, quatro nomes:
O presidente por ser o cargo majoritário da entidade, e é nele que recairá a maior culpa de uma escolha errônea. O diretor de carnaval que é o gestor do projeto e o conhece em sua amplitude. O carnavalesco que é, naquela oportunidade, o único a conhecer detalhadamente sua proposta plástica de desfile e reconhecer numa palavra, num verso ou estrofe de um dos sambas um ponto fundamental para a compreensão de seu trabalho e a direção de harmonia-evolução, que conhecendo a forma de desfile da escola pode optar por essa ou aquela obra.
Com certeza outros nomes podem e devem figurar nessa comissão de escolha do samba-enredo, mas uma coisa, no meu modo de ver, é fundamental. Esse colegiado precisa ser uma equipe, um time e estar unida com a difícil missão de escolher a melhor obra que será levada à avenida. E não tem essa de voto secreto, não pode ter o samba do amigo ou o do inimigo e eu não conto pra ninguém minha opinião. Toda eliminatória precisa ser encerrada com uma reunião fechada onde essa comissão discutirá abertamente cada uma das obras apresentadas.
Nessa fase a seriedade e a discrição são fundamentais. O que acontece numa dessas reuniões precisa ficar em sigilo até a próxima eliminatória. E como toda unanimidade é burra, alguns perderão, mas a maioria terá feito sua vontade e preferencialmente a vontade do corpo da escola, por isso, nesse processo eles precisam ser ouvidos. Você como julgador não pode e nem deve externar sua opinião fora do colegiado de escolha, mas deve, obrigatoriamente, ouvir as opiniões do maior número possível de componentes. A voz que cantará o samba na avenida precisa ser ouvida desde esse momento.
A escola já tem seu samba escolhido, o carnavalesco já deve estar com os protótipos das fantasias executados e as alegorias projetadas e já em execução. Cabe ao diretor de carnaval numa parceria com a direção de harmonia-evolução e com a benção do presidente dar inicio ao planejamento do desfile da escola. E aí vem as reuniões com cada um dos segmentos da escola e nessas reuniões, direção de carnaval e direção de harmonia devem esclarecer como será o desenvolvimento da escola na avenida.
Uma releitura e uma análise dos regulamentos de desfile será excelente numa reunião como todo o departamento de carnaval e harmonia-evolução. A escolha do nome que puxará ( não confudir com o puxador ou intérprete) , na verdade, é uma missão técnica importantíssima. É ele que controlará o tempo de desfile. Então quando você avistar um cara sério e com jeito de metidão a frente da escola e com uma parafernália de fones de ouvido, microfone e rádio na mão, não se espante. Ele até parece mais um presepeiro, mas é o fundamental cronometrista da escola. Desculpem o termo presepeiro, mas com ele, me autodenomino, pois fiz esse trabalho nos últimos cinco anos da Caprichosos de Pilares, com exceção de 2009, pois estava, como carnavalesco na Império da Zona Norte, em Porto Alegre e por lá fiz a mesma coisa, mas sem a parafernália dos rádios, que não são usados por lá.
Outra escolha muito importante num desfile é a designação do diretor de joelho, ou seja, a passagem da escola da concentração da Avenida Presidente Vargas para a Marques de Sapucaí. Muita escola já ganhou e já perdeu carnaval ali. A função dele é coordenar a curva das alegorias e das alas. Uma manobra perfeita é quando a alegoria entra direta e sem manobras, nesse joelho, não permitindo o tão indesejado espaçamento carros-alas. Ele também tem um rádio e comunica ao cabeça da escola, se alguma alegoria teve problemas de entrar em desfile e se é necessário parar a escola.
O terceiro ponto chave de uma escola é o diretor que acompanhará a bateria em suas manobras de saída e entrada nos recuos. Ele também tem um rádio e se comunica com os demais rádios, especialmente ao cabeça da escola, informando o momento da escola parar para o ingresso da bateria no segundo recuo.
Se o casal de mestre-sala e porta-bandeira não vier à frente da escola, como atualmente acontece na maioria das agremiações, um quarto rádio se faz necessário para possibilitar, com a parada de escola, a apresentação do casal à frente dos módulos de julgadores.
Como os amigos podem perceber, é bastante árdua a tarefa de um diretor de carnaval. Esse cargo não nasceu do nada e nem para agradar ninguém. Ele, com a grandiosidade dos desfiles de hoje, é, sem dúvida, fundamental.
Esse pequeno relato é uma homenagem aos grandes diretores de carnaval de nossa festa maior. Apesar da truculência e da cara feia de sempre nossa homenagem ao grande mestre Laíla, esse sabe tudo e um pouco mais de carnaval. Mesmo com a aparente arrogância, não podemos esquecer do outro monstro em dirigir um carnaval, Wagner Araújo, sabe muito de carnaval. Um de seus discípulos também segue uma linha de muito conhecimento de carnaval, Ricardo Fernandes.
Três outros nomes que me merecem respeito, apesar de não mais atuando na área, Jorginho Harmonia, Chiquinho Pastel, o Chiquinho do Babado da Folia e os falecidos amigos do peito Roberto Costa e Jorginho Moreira. Com cada um deles eu aprendi um pouco do pouco que sei de carnaval. Quem sabe um dia consiga desempenhar essa função com tanto talento quanto eles.
Um Abraço
Luiz Fernando Reis (por quatro vezes diretor de carnaval da Caprichosos de Pilares e por uma vez do Paraíso do Tuiuti)

Postado por:Carlos Dantas | 04/05/2009 10:56:19
Ao Caro amigo do Samba concordo com você sobre Roberto Costa um dos mais organizado que conheci quanto a Guilherme Nóbrega, é um bom Mestre de Cerimonia somente isso.

Postado por:LUIZINHO DA CUICA | 04/05/2009 10:31:57
Caro Luiz Fernando, o Laíla antes de assumir a direção de carnaval, era diretor de harmônia, e foi ali, o inicio de tudo, para que os carnavalescos parassem de ser os mandões. Por isso traço esse paralelo, e é logico, que com a evoluçao do espetáculo, coisas novas surgiram, transformando-se em tarefas, e englobadas por essa nova função. Quanto a experiência, dos da antiga tudo bem, mas dos de hoje, e que são poucos, não levo fé, até porque hoje temos "Diretores de Carnaval", sem nenhuma experiência, alguns "apadrinhados", e que já foram até campeões, abraços

Postado por:Luiz Fernando Reis | 03/05/2009 17:54:52
E aí Luizinho da Cuíca.................................. ..Na verdade tenho uma visão um pouco diferente de vc..............................É certo que antigamente o cargo de diretor de carnaval era mais um cargo complementar, era ocupado por um diretor da casa com mais experiência de carnaval, mas sem as diretrizes de hoje em dia. Na verdade quem acumulava as funções atuais do diretor de carnaval era o carnavalesco que inventava suas loucuras e dava de presente para a direção de harmonia resolver tudo na avenida.................. Era o que chamamos de ditadura do carnavalesco............................ ........... Não tenho certeza disso, mas acho que o diretor de harmonia Laíla é que deu o grito de alerta quando o João era carnavalesco da Beija Flor e resolver assumir a função de diretor de carnaval e coordenar desde cedo a elaboração do que sonhava o João 30 em colocar na avenida...........................Acho que é isso.............................Um abraço .............................Luiz Fernando Reis

Postado por:LUIZINHO DA CUICA | 01/05/2009 23:27:43
Professor Luiz Fernando gostaria de saber, se estou certo ou errado ? Essa nova função ( Diretor de carnaval ) surgiu em virtude do acumulo de tarefas do Diretor de Harmônia, que tempos atrás, era ou sentia-se, responsavel por tudo isso, que você acima, descreve como sendo hoje, de responsabilidade do Diretor de Carnaval. Penso que só não havia, como acontece hoje em dia, a inerferência dos de hoje ( Diretor de Harmônia ), no trabalho dos Carnavalescos. Na minha concepção, vejo o Diretor de Carnaval, como um Diretor de Harmônia da antiga, só que com mais responsabilidade, e deixando o da Harmônia mais tranquilo em suas tarefas, estou certo ou errado ? Ainda em tempo, Guilherme Nobrega aprendeu e muito, com o Diretor de Harmônia, infelizmente já falecido, Renatão ( Diretor de Harmônia do Salgueiro ) abraços

Postado por:julinho di ojuara | 01/05/2009 19:18:15
Valeu Luiz por mostrar a tantas pessoas que uma agremiação, não é só composta por mulheres semi-nuas, artistas famosos e amigos do amigo do presidente. Lembrar o Roberto Costa também foi de arrepiar, ele era uma figuraça que deixou muita saudade ao carnaval.

Postado por:Ronaldo Flavio Arriscado da Silva | 01/05/2009 18:25:08
Outro grande nome de diretor de carnaval é o do velho Perácio... O cara já foi presidente e interprete do G.R.B.C. DO China e é o fundador da Grande Rio...entende tudo de carnaval...

Postado por:Luiz Carlos | 01/05/2009 17:24:00
Matéria,legal a cada dia que passa me aprimoro mais,aprendi nas escolas que participei como diretor de harmonia, hoje sou diretor de carnaval da renascer graças aos melhores diretores de carnaval que tiver oportunidade de trabalhar.

Postado por:Jairo do Recreio | 01/05/2009 15:23:13
Luiz, leio sempre seus comentários e acho que são uma aula de como se deve fazer carnaval. Sugiro que alguns diretores deveriam ler mais à respeito para não acontecer o que vemos, alas como se fossem grupos de soldados marchando preocupados com uma suposta harmonia. Deveriam, êsses diretores, tentar fazer com que os desfilantes comparecessem aos ensaios para que além de cantarem o samba, se postassem como se fizessem parte de um grande teatro. Aliás, devo acrescentar, que o desfile de uma Escola de Samba, nada mais é, do que uma grande obra montada à partir do enredo e desenvolvida por um grande elenco de artistas (desfilantes, passistas, mestre sala e porta bandeiras, até alegorias), todos fazendo parte integrante de grande cenário, onde o samba enredo quando ouvido pelo público, aliado ao que a Escola apresenta na avenida, passe a mensagem que aquela obra se propõe mostrar. Só assim o desfile dessas agremiações pode ser entendido. Como uma grande obra mostrada por alguns momentos num cenário grandioso de magia e encantamento

Postado por:Luiz Fernando Reis | 01/05/2009 14:00:46
É verdade amigo do samba O Roberto Costa era um cara fantástico, tinha uma visão política invejável e pra quem não sabe era formado em teatro. Foi o primeiro presidente da ACES - Associação de Carnavalescos de Escola de Samba e me aturou como seu vice presidente. O samba perdeu o Roberto muito cedo e ele ainda tinha muito dar ao mundo do samba...............Realmente confesso a falha ao não citar o meu amigo Guilherme Nóbrega no rol do grandes diretores de carnaval......................Perdão Guilherme. Até dos amigos a gente esquece.......................Um abraço Amigo do Samba.................Luiz Fernando Reis

Postado por:Amigo do Samba | 01/05/2009 12:11:14
Mais uma vez belíssimo comentário.Ao lembrar os q ja se foram,o Roberto Costa pra mim foi o maior,aprendi muito com ele.Alem de ser um baita diretor de carnaval era uma pessoa maravilhosa,humana,comunicativa,didátic a.Outro nome q n foi lembrado mas q merece destaque é o de Guilherme Nóbrega,um pouco arrogante,porem entende do riscado.

Postado por:Kayque Santos | 01/05/2009 03:55:10
Luiz, deixo a dica para você falar nas próximas matérias, sobre a Direção de Harmonia/Evolução. Hoje o que se vê por aí, é diretores que exercem essa função e ao menos sabem o que estão fazendo. Emfim... Lamentável! Escreva para eles, a função deles(risos)! Abraços!

Postado por:Kayque Santos | 01/05/2009 03:52:51
Por mais uma vez, parabéns Luiz. Discordo com você, quando você disse que o Intérprete deve ser ouvido no concurso de samba enredo. Infelizmente, alguns colocam samba, sem assinar, sendo ouvido ele poderá indicar o samba dele, o que pode não ser o melhor. Feito isso, todo o relato está perfeito, Wagner Araújo e Ricardo Fernandes, são muito bom mesmo. Laíla não conta mais, é o nosso Papa. Todos os diretores de carnaval devem ler este artigo para aprender mais e mais! Abraços!

Postado por:Luiz Fernando Reis | 30/04/2009 23:41:04
Respondendo ao Jorge Lopes............................. O caso do Flávio Rangel que era um diretor teatral e assumiu o carnaval da Vila Isabel me parece ser atípico, um caso isolado................... Não sei te precisar quando aparece no carnaval a figura do carnavalesco, mas posso te garantir que foi João Jorge Trinta que popularizou o profissional carnavalesco......................A função de diretor de carnaval era, na época, bem diferente do que é a funçao hoje...............................E quanto a Caprichosos 1982 te prometo, em breve, contar suas histórias...............Um abraço Jorge................ Luiz Fernando Reis

Postado por:jorge lopes | 30/04/2009 23:11:36
Luiz Fernando, a minha pergunta é somente uma curiosidade: desde quando o cargo Carnavalesco deixou de ser uma das funções do Diretor de Carnaval? Digo isto, porque, em 1975, na Vila Isabel, o Flávio Rangel era chamado de Diretor de Carnaval e foi ele quem criou e produziu o enredo. Parabéns pela coluna e, se for possível, gostaria que você escrevesse sobre o carnaval da Caprichosos de 1982, A Feira, do samba do Ratinho, especialmente sobre a idéia dos carrinhos de rolimâ na comissão de frente. Obrigado. Um abraço.

Postado por:Luiz Fernando Reis | 30/04/2009 20:51:53
Complementando o comentário do Edilson Alves......................... Realmente o Jorginho Harmonia, discípulo do Laíla, é uma amigão de longa data e conhece muito de harmonia e direção de carnaval. E vou te contar uma que vc não deve saber..........................Fomos parceiro de samba enredo e vice campeões na querida Unidos do Cabuçu há um bom tempo atrás............................ Fui com muito orgulho harmonia de ala no Porto da Pedra tendo a batuta do Jorginho Harmonia na direção de carnaval.................Fui carnavalesco da Caprichosos com o Jorginho na direção de harmonia.........................Somos julgadores do carnaval de Uruguaiana e como bons amigos ficamos lembrando nossas histórias de samba................................... ......Um abraço Edilson.........................Luiz Fernando Reis







A vitória da emoção













