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Anúncio fúnebre e histórias interrompidas

Soares Júnior | Soares Júnior | 28/04/2009 00:22

Eu sei que pode parecer filosofia de botequim, mas numa viagem de táxi pensei. Uma das coisas certas na vida é que você não vai ler seu obituário. Ah, por favor, claro que isso se aplica a pessoas normais e não ao Raul, na inacreditável novela Caminho das Índias.

Por isso, o fato a seguir intrigou-me sobremaneira. (resolvi usar sobremaneira pois no último texto usei "peguete", não quero ser acusado de preguiça pelos que me lêem). O anúncio fúnebre era mais ou menos assim: "Florzinha, deveríamos estar comemorando seus 70 anos, mas agora só restam saudades, muitas saudades. I wish you were here, assinado, J".

Levantei vários questionamentos. O primeiro pragmático: se Florzinha morreu por qual motivo o anúncio. Tentei transcender para entender o mistério. O cara faz uma homenagem cifrada, usa um enigmático "J." para falar com alguém que não pode ler a homenagem? Vamos fazer  conjecturas a respeito de Florzinha e J. 

Minha principal hipótese: Florzinha era casada, tinha três filhos. O casamento morno sofreu um abalo ao conhecer J. Os dois se olharam pela primeira vez passeando em Londres. Como os filhos já estavam crescidos, ela resolveu tirar férias. J era um homem maduro e ao encontrar aquela mulher não resistiu. Mesmo por volta dos 50 anos tiveram uma aventura adolescente, com direito inclusive a um show do Pink Floyd no estádio de Wembley. Este é o motivo da citação ao clássico da banda. 

Tudo bem, não fui original, peguei emprestado um pedaço do roteiro de "Pontes de Madison", filme de Clint  Eastwood, com ele e Meryl Streep.

O que levou J a publicar seu amor?  A crença que qualquer que seja o "plano" em que Florzinha se encontrar ela vai ler aquela mensagem e saber que o amor não acabou.  Sei que são inúmeras as possibilidades, mas tenho um espírito noveleiro, como bem diz minha amiga Carla Rodrigues, por isso não admito outra hipótese que não seja a de uma história de amor, maduro e proibido.

Repentinamente na viagem de táxi entre o Humaitá e Gávea veio a mim a angústia de J ao perder Florzinha. Pensei em  quantas vezes os dois devem ter firmado o compromisso que contariam a todos o sentimento que os tomava por dentro.  

Há quanto tempo Florzinha morreu? J deve estar ainda tão ressentido pela perda que a tentativa de aplacar o sofrimento foi o anúncio cifrado, publicado na seção de obituários do jornal, num dia de outono no Rio de Janeiro.

Na verdade fico preocupado com J, pois pragmaticamente, Florzinha já cumpriu a lida, com dores e amores.

Infelizmente esta vai ser para mim uma história sem final, pois jamais saberei as identidade de J e Florzinha. Parece-me sem fim também para J.

Neste mundo em tudo passa rápido, a história de J e Florzinha é mais uma conversa daquelas que você escuta na condução e abandona, pois está na hora de descer.

Até a próxima.




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Postado por:Helmut Leopold | 01/05/2009 00:14:58

Oi Soares! Eu li esse anúncio fúnebre e fiquei tentando entender também. Felizmente ou infelizmente nunca saberemos a verdadeira resposta, o que dá uma boa margem para a nossa imaginação, como você fez. Um abraço!

Postado por:Giuline | 28/04/2009 11:03:39

Espírito noveleiro mesmo, e uma sensibilidade inacreditável. "J" deve sentir-se grato por sua compreensão. rs

Postado por:José Hunaldo de Souza | 28/04/2009 05:23:08

Poderemos imaginar mil e uma hipóteses para a atitude de J. Porém, penso que a mais plausível seja a que ele acredite piamente na reencarnação, esta coisa tão usada como ingrediente nas novelas e seriados da Globo, desde que a novela A Viagem fez o maior sucesso e criou uma verdadeira escola do mundo dos que estão "no andar de cima". Temos até uma celebridade que segurou um pouco sua fé católica para ter o direito de se comunicar com Eme Erre, (abreviaturas do seu amor). Não sei este pode se comunicar com Eme Erre, ou que esta possa ouvir as canções do seu amor, assim como seja muito improvável que a Florzinha leia o anúncio no obituário de J, pois, pessoalmente, creio que não exista "andar de cima", mas apenas penso que quando pára o ônibus da vida todos descemos mesmo é para o "andar de baixo" onde nos tornaremos fertilizantes de minhoca e nada mais que isso. Mas de qualquer forma uma conjectura que até tem tudo para deixar de ser conjectura é que o J ao escrever o anúncio, sentiu-se sobremaneira feliz... Assaz satisfeito... Ou demasiadamente nostálgico. Porém penso mesmo é que J queria apenas era sociabilizar a morte de sua querida Florzinha, assim como nós todos temos esta maneira: sociabilizarmos a morte em um pomposo funeral ou mesmo em um obituário, como fez o J. Sociabilizarmos a morte ameniza nossa dor dos que partem primeiro que nós...

Postado por:Luiz Felipe Carneiro | 28/04/2009 01:01:30

Muito bom... Quando li o segundo paráragrafo do texto, a primeira coisa que imaginei foi a Florzinha num show do Pink Floyd... Hehe... Abraço,


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Soares Junior

Jornalista desde 1996. Depois de passagens pela TV Bandeirantes e Rádio Tupi ingressou na rádio CBN. Durante os 9 anos no Sistema Globo de Rádio, ele apresentou e redigiu O Globo no Ar, fez cobertura aérea de trânsito, ancorou e foi chefe de reportagem. Soares Júnior é professor da PUC e da Escola de Rádio.