Na coluna passada comentei sobre a figura do profissional carnavalesco. E darei continuidade a essa série profissionais falando da figura do diretor de carnaval. Antes, eu gostaria de agradecer ao amigo e jornalista Vinicius Brito pela reprodução da matéria no Samblog do grupo RBS, espaço obrigatório de leitura dos carnavalescos de Porto Alegre (em Porto Alegre, o sambista e o amante de carnaval recebem a denominação de carnavalesco). E antes que o Alberto João fique preocupado, a fonte SRZD-Carnavalesco
não deixou de ser registrada.
Eu compreendo o desfile de uma escola de samba como a conclusão de um amplo projeto de carnaval. Esse projeto será tocado por várias mãos, mas seis delas são fundamentais em seu desenvolvimento. O presidente da escola, que é o homem do dinheiro, o carnavalesco que é o responsável plástico pelo projeto e o gestor ou coordenador que é o diretor de carnaval.
Inicialmente, o cargo diretor de carnaval nasceu como um elo de ligação entre a diretoria de uma escola e o seu carnavalesco. A coisa acontecia mais ou menos dessa forma: Cabia ao diretor de carnaval convencer à diretoria e mais especificamente ao presidente que as idéias do carnavalesco eram viáveis e que trariam um bom resultado no desfile e em contra-partida era ele mesmo quem trazia do presidente o recado de que financeiramente muitas das idéias propostas não teriam recursos disponíveis.
E pra que esse intermediário, se o próprio presidente poderia negociar diretamente como o carnavalesco? É que nem sempre, ou quase sempre, o cargo de presidente, que apresenta uma forte conotação política, de uma liderança comunitária, é um homem de carnaval. O pouco que entende de carnaval não é bastante para coordenar e debater de igual para igual com o seu carnavalesco, um projeto amplo para o desfile. É por isso que surge o diretor de carnaval. Com isso compreendemos que direção de carnaval não é um cargo político e sim um cargo técnico a ser ocupado por alguém que conheça, com propriedade, todo o processo de realização de um carnaval.
O diretor de carnaval era quase um moleque de recados e uma ponte entre carnavalesco e presidente e/ou sua diretoria. Porém, o carnaval evoluiu e deixou de ser aquela manifestação folclórica, romântica, simplória e passou a ser o maior show, o maior espetáculo a céu aberto do mundo.
A função de diretor de carnaval ganhou novas atribuições e responsabilidades. As escolas compreenderam que a era de ditadura dos carnavalescos já não tinha mais razão de ser. O espetáculo crescera muito para ficar restrito a uma única cabeça.
Dias atrás li de alguns de nossos comentaristas algumas pérolas assustadoras. "Qualquer um pode ser diretor de carnaval". "Qualquer presidente de ala pode levar um desfile até seu final". "Um compositor pode coordenar um desfile" e outras coisas do tipo. Que os amigos me perdoem, mas a coisa vai muito, mas muito além disso. Seria insano de minha parte se colocasse o diretor de carnaval como o cargo mais importante de uma escola de samba, mas não hesito em afirmar que em desfile o diretor de carnaval é, sem pensar duas vezes, a figura mais importante.
Todo o planejamento de um desfile passa pelo controle da direção de carnaval e um desfile de escola de samba não é apenas colocar alas entre os carros, cantar o samba e esperar o resultado. A coisa é muito mais complicada. Voltemos ao nosso projeto de carnaval lá no seu inicio.
A coisa toda começa na preparação da sinopse que pode ser feita pelo carnavalesco ou por pessoa de sua confiança e aí o diretor de carnaval não precisa participar, mas o segundo passo que é o desenvolvimento do carnaval em alas e alegorias ou o cronograma da escola, a participação do diretor de carnaval é fundamental. Não cabe a ele determinar se as baianas serão brancas ou azuis, isso é função do carnavalesco, mas se a roda das baianas tiver 5 metros, isso influenciará no desfile, pois em sua montagem teremos apenas quatro ou cinco baianas por fila o que levará a ala de baianas a ter mais de 150 metros de comprimento. E isso prejudicará a harmonia da escola. As baianas pelo peso de suas fantasias e de sua idade cantam pouco normalmente.
Não deve o diretor de carnaval interferir em que parte do enredo as baianas desfilarão, mas é sua competência mostrar ao carnavalesco que, tecnicamente, as baianas vindo à frente da escola causarão menos problemas caso uma pane numa das alegorias as obrigue a passar por ela, o que em desfile, pela tamanho e morosidade das senhoras desfilantes será praticamente impossível.
O cronograma de desfile é uma parte do projeto-carnaval que deverá ser executado a quatro mãos. Que o carnavalesco a faça, mas a supervisão do diretor de carnaval é muito importante.
O trabalho de criação do carnavalesco não precisa e nem deve ser supervisionado pelo diretor de carnaval, mas o artista precisa compreender que alguns de seus exageros podem comprometer o desempenho da escola na avenida.
Encerro essa primeira parte para não tornar muito enfadonha essa coluna. Que os críticos peguem leve, ainda tem mais sobre o diretor de carnaval em nossa segunda parte.
Um abraço
Luiz Fernando Reis