Há erros que nos ensinam mais do que acertos. Um traficante estava preso na Polinter, no centro e alguns comparsas tentaram resgatá-lo. Eles usaram um caminhão e granadas. Na manhã seguinte fui fazer o que o jargão jornalístico classifica como "suíte", a continuação da matéria.
Agentes do esquadrão antibombas estavam analisando os fragmentos do explosivo. Fui lá fazer as tradicionais perguntas e ele contou: "Os bandidos usaram uma granada defensiva na tentativa de resgate". Com urgência que o rádio pede entrei no ar e falei: "Para tentar resgatar o bandido da Polinter, os bandidos usaram uma granada defensiva...". Pouco tempo depois, toca o telefone. O chefe de reportagem da CBN na época, Alexandre Caroli, me pergunta: "Você sabe o que é uma granada defensiva?"
Eu não sabia. Ele então me disse que o nosso diretor de jornalismo, Agostinho Vieira, ligara pouco antes perguntando, pois ficara curioso. Resultado, voltei ao policial e pedi uma explicação sobre o que era uma granada defensiva. Aprendi naquele dia que ao explodir a granada defensiva, solta alguns pinos. O importante é que se ela cair do seu lado, não sobra nada. Informado sobre a diferença das granadas, aprendi que na prática que não se pode prometer o que não se pode entregar.
Os seguidos problemas nas barcas e nos trens me fazem pensar que tudo é um problema de prometer o que não pode entregar. No entanto, o que aconteceu na estação Madureira com funcionários da Supervia batendo nos passageiros é uma vergonha.
A empresa demitiu quatro funcionários identificados. No entanto, discordo da demissão. Uma das primeiras coisas que aprendi ao assumir a chefia de reportagem na CBN, é que se o repórter cometesse um erro, a culpa não era só dele, já que fazia parte de uma equipe. Afinal, a apuração errada comprometeria a credibilidade de toda a emissora. Então, os pés e mãos que encostaram violentamente os passageiros são a realização de uma metáfora de descaso. Descaso que começa em salas refrigeradas e chega numa estação lotada em horário de pico.
Prometer sem ter o que entregar é um tipo de descaso.