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Os números mentem?

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/04/2009 23:59

O quesito "Alegorias e adereços" é o mais importante no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Ele tem peso de 21% no julgamento das escolas de samba, pouco mais de um quinto do total. Logo depois vem "Enredo", com 14%. Somados, estes dois quesitos representam 35% (mais de um terço) dos pontos perdidos neste carnaval. Os outros 65% são divididos entre os demais oito quesitos. Estas e as outras afirmações que serão feitas nas próximas colunas são conclusões tiradas a partir da análise das notas aplicadas pelos julgadores oficiais do carnaval de 2009. 

"Alegorias e adereços" é o quesito mais importante porque é mais punido pelos julgadores. No total, as escolas perderam 11,5 pontos em alegorias. Um contraste, quando se compara com o quesito "Bateria" que custou ao todo 2,7 às agremiações. Se somarmos os pontos perdidos em "Bateria", "Mestre-sala e Porta-bandeira" e "Harmonia" não se alcança o total das punições de "Alegorias". Não é de se estranhar, portanto, que a única escola com pontuação máxima no quesito tenha sido a campeã. 

Um grande buraco custa apenas um décimo em evolução (quando custa). O mal desempenho de um casal de Mestre-sala e Porta-bandeira não pode valer menos de 9,7. A escola que não canta perde, no máximo, três décimos por jurado. Mas não me apareça com um queijo sem destaque num carro alegórico nem deixe um saco plástico perdido em meio à alegoria. Será fatal!

Para exemplificar: o principal componente da comissão de frente da Grande Rio desabou do tripé em frente ao julgador. O próprio presidente da Liesa foi ajudar a tirá-lo das ferragens. O rapaz foi empurrado pelo traseiro para subir de novo ao lugar correto. Uma cena ridícula. E a nota foi 9,7 - apenas três décimos abaixo das melhores apresentações. No mesmo módulo, o julgador de "Alegorias" (quesito que foi apresentado sem grandes tropeços) deu a mesma nota à escola.

Dentre os quarenta julgadores, só dois (ambos de "Alegorias", óbvio) deram notas inferiores a 9,6. Carlos Marques deu 9,5 para a Mangueira; 9,3 para a Mocidade; 9,2 para o Império Serrano e 9,1 para a Tijuca. Emil Ferreira aplicou apenas uma nota baixo da média geral: 9,4 para o Império Serrano. Nada contra os julgadores de "Alegorias". Eles cumprem o papel razoavelmente. O problema é com os demais trinta e oito julgadores que não usaram a escala de graduação. De um universo de trinta e uma notas possíveis a maioria usou apenas cinco. Equivale a, no sistema antigo, ir de 8 a 10. 

Não sei dizer se este ano houve alguma orientação da Liesa para que os julgadores fossem mais rigorosos com os carros alegóricos. Não pudemos presenciar a reunião entre eles e os presidentes. Posso falar sobre os dois anos em que testemunhei tal reunião, quando não houve uma determinação direta neste sentido. Poderíamos imaginar uma queda na qualidade das alegorias em virtude da crise financeira mundial, mas isso não pode ser desculpa porque o quesito em questão é o mais penalizado há tempos. 

Fico tentando imaginar o porquê deste fenômeno. A primeira resposta que encontro é a máxima de que "carnaval é luxo". O resto é detalhe. É muito mais grave vir com alegorias ruins do que com um samba "meia-boca", componentes "mascando chiclete" e uma bateria apenas certinha. O que importa é o visual (o quesito "Fantasias" é o terceiro que mais faz as escolas serem penalizadas).  

Outra possível explicação pode ser encontrada nas justificativas dos anos anteriores. É muito mais fácil justificar punição apontando as falhas das alegorias, que são mais concretas do que as de outros quesitos. É difícil perceber e explicar as nuances que diferenciam um grande casal de mestre-sala e porta-bandeira de outro apenas mediano. Assim como é complexo analisar o equilíbrio harmônico de uma bateria. Imagina, então, julgar o canto de uma escola sem ouvi-lo (harmonia).

Os jurados, em média, não têm bagagem cultural para questionar a concepção artística das obras que analisam. Alguns não sabem se expressar via escrita. Então passam apenas a fiscalizar erros. A leitura dos cadernos de anos anteriores confirma isso. Um diz que tinha uma escada no fundo do carro, o outro diz que a escultura veio quebrada, e por aí vai. É mais fácil punir assim do que questionar coisas mais profundas. E você, tem outra explicação? 

Confira quanto cada quesito tirou das escolas neste carnaval:
 
Pontos perdidos (somando todas as escolas)

Alegorias e adereços - 11,5
Enredo - 7,9
Fantasia - 5,9
Conjunto - 5,8
Samba-enredo - 5,0
Comissão de frente - 4,5
Evolução - 4,1
Mestre-Sala e Porta-Bandeira - 3,7
Harmonia - 3,4
Bateria - 2,7

A partir de terça-feira vamos analisar, quesito a quesito, como foi o julgamento do carnaval 2009. Assim que terminarmos esta tarefa vamos passar ao Grupo de Acesso com interpretação das justificativas já divulgadas.

NOVOS COLEGAS

Não posso deixar de comemorar a chegada de mais dois companheiros para o site. Anderson Baltar, competente jornalista e amante do carnaval a quem conheço desde o início da década através das listas de discussão, com certeza irá acrescentar conteúdo de alta qualidade a partir de sua análise crítica e seu bom humor.

Walter Nicolau, eu conheci pessoalmente há pouco tempo, mas qual internauta não aprecia seus textos embasados e coerentes?

Sejam bem vindos, companheiros! E preparem-se para as crtíticas!!!