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Furacão varre a Cidade do Samba

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 24/03/2009 16:22

Esta é, definitivamente, a entressafra mais marcante dos últimos anos no carnaval carioca. Estão sendo quebrados vínculos muito fortes e antigos. As saídas de Rosa Magalhães da Imperatriz e do casal Marquinhos e Geovana da Mangueira são exemplos deste furacão que está varrendo a Cidade do Samba. E outras grandes novidades ainda podem surgir até que a festa de 2010 esteja desenhada de forma mais clara. 

Na coluna anterior falei sobre a quebra de identidade em algumas baterias pela troca de seus comandantes. Será que isso também acontece quando se mexe no carnavalesco? Não é exatamente a mesma coisa, embora seja indiscutível que a identidade visual da Imperatriz esteja diretamente ligada a Rosa Magalhães.

A talentosíssima carnavalesca imprimiu seu jeito de ser à escola da Leopoldina durante os dezoito anos que permaneceu no comando artístico da agremiação. É o tipo do casamento que parece eterno... até que a morte os separe. Mas a verdade é que a relação já vinha desgastada há algum tempo. Não que houvesse brigas, mas havia algum tipo de acomodação. Um já estava muito acostumado com o outro. O resultado era a produção de carnavais pouco inspirados e previsíveis. 

Acredito que esta mudança será muito positiva para a Rosa. Não sei para que escola ela vai (espero que não encerre a carreira), mas seja qual for o destino, terá muito a acrescentar com sua cultura e seu talento. Com certeza há de encontrar novos desafios e motivações. 

Por outro lado a Imperatriz se permite oxigenar as idéias e buscar soluções diferentes para seus desfiles. O que me preocupa, com todo o enorme respeito que tenho pelo talento do Max Lopes, é que a direção da escola parece estar querendo voltar aos anos oitenta, trazendo não só o carnavalesco como também o intérprete do inesquecível "Liberdade, liberdade". São, de fato, nomes de peso no carnaval, mas indicam conceitos tradicionalistas demais num momento em que a festa se renova. 

Há bons valores surgindo no mercado e voltar ao passado não me parece a melhor maneira de encontrar o "gás" necessário para voltar a disputar títulos.

Mas porque a troca de um carnavalesco não assusta tanto quanto a de outros segmentos? Talvez porque ao advento carnavalesco tenha surgido já num momento em que a festa estava se profissionalizando. É um artista que não se forma dentro das agremiações e desde sempre foi visto como um personagem com livre trânsito por várias escolas.

É diferente, portanto, de um casal como Marquinhos e Geovana. Ambos são criados na Mangueira, possuem ligações familiares com a escola de samba que defenderam por quatorze anos (só neste posto) e representavam um pouco do que ainda restava de amor à bandeira. 

Há muitos casais profissionais (quase todos). E isso não é problema algum. Mas havia - neste caso - uma identificação, uma verdade única. E isso acabou. Perde muito a Mangueira não apenas porque eles formam um dos melhores casais da cidade (foram os únicos a conseguir todas as notas máximas nos últimos dois anos), mas porque esse "elo de amor à bandeira", essa magia, se desfaz.

Não estou aqui criticando a decisão de ambos. Eles é que sabem os motivos que os levaram a tal decisão que, estou certo, não foi nada fácil. Estou apenas lamentando como amante do carnaval que ainda vê algum romantismo na festa.

ELEIÇÕES NA MANGUEIRA

Quem diria que não haveria nenhuma chapa inscrita para a eleição na verde e rosa! É realmente uma tarefa para quem tem muita coragem assumir o comando da escola a esta altura. O Ivo Meirelles parece ser o único a ter esta coragem. O que os mangueirenses (e todos os amantes do carnaval) precisam, então, é torcer e ajudar para que ele faça uma grande administração. O carnaval precisa da verde e rosa forte.

MOCIDADE RENOVADA

Depois de um ano repleto de decisões erradas a Mocidade começa bem o trabalho para 2010. Cid Carvalho e Tavinho Novello fizeram grandes trabalhos no último carnaval e trazem respaldo à escola de Padre Miguel.

As opções para o comando da bateria são boas: Odilon, Andrezinho e Dudu (filho de Coé). O primeiro é referência no carnaval, mas precisaria respeitar as características da escola. Andrezinho carrega a herança do criador daquela bateria e uma boa imagem devido ao sucesso que fez com o Molejo. Dudu (que dirigiu a Unidos de Padre Miguel este ano) é um desses novos talentos que tem a seu favor o fato de estar vivendo o dia a dia da comunidade.

Isso somado às permanências do casal e da comissão de frente faz com que o torcedor possa sonhar com algo muito melhor em 2010.

ALEX NA PORTELA

Muitos portelenses ficaram assustados com os nomes de Alex de Oliveira e Amauri Santos para comandar o carnaval de 2010. Realmente uma escola do porte da águia de Madureira deveria pensar em nomes de ponta, com currículos mais extensos e vitoriosos. Mas todo portelense sabe que esta não tem sido a política da direção. E, apesar disso, a Portela vem subindo ano a ano na classificação do carnaval.

Não dá para garantir que a aposta será um sucesso. Não conheço o Amauri, mas passei o carnaval dividindo a cabine da Rádio Tupi com o Alex. E vi o desfile dele no Jacarezinho. Fiquei com a impressão de que estava testemunhando o nascimento de um grande artista. Também acho que ele precisa de mais experiência para assumir uma Portela. Mas Alex tem uma visão muito interessante do que deve ser o carnaval em termos de enredo, fantasia e alegoria. E fez, apesar das dificuldades financeiras, um trabalho de bom gosto na terça-feira. Vamos ver o que o futuro nos reserva.