Quando as 11 canções de "Longo Caminho" já estavam prontas, Herbert Vianna sofreu aquele fatídico acidente de ultraleve. Antes da tragédia, os Paralamas do Sucesso já haviam decidido que era a hora de um retorno aos velhos tempos, no formato de trio, sem teclados ou sopros. O álbum, bem puxado para o rock, foi bem recebido pela crítica e pelo público, que lotou os shows da banda nas maiores casas de shows e festivais do Brasil.
As catárticas apresentações - quem esteve presente, não se esquece de um show com três horas de duração que a banda fez no Canecão em um domingo do mês de junho de 2003 - geraram o CD e DVD ao vivo "Uns Dias - Ao Vivo", que mostrava que a banda ainda estava tinindo em cima do palco. Em seguida, foi a vez de "Hoje", um álbum sombrio com algumas pitadas de alegria, em canções como "2A" e "Na Pista". Infelizmente, o álbum acabou não acontecendo muito, apesar da ótima turnê de divulgação.
Agora, quase quatro anos depois de "Hoje" (e uma turnê e CD/DVD ao lado dos Titãs), os Paralamas do Sucesso estão de volta com "Brasil Afora", 12º álbum de estúdio da discografia da banda. E a conclusão é a de que o longo caminho percorrido pela banda após o acidente de seu vocalista e guitarrista valeu a pena.
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"Brasil Afora", como o próprio título já adianta, é uma viagem dos Paralamas pelo Brasil. Só que, bem diferente daquele "Longo Caminho" do início da década, o colorido encarte do CD, inspirado naquelas célebres frases que aparecem nos pára-choques dos caminhões, mostra que, dessa vez, o caminho será bem mais alegre.
Após quase 30 anos de carreira, os Paralamas do Sucesso não querem (e nem precisam) provar mais nada a ninguém. Também, pudera, uma banda que tem "Selvagem?" no currículo, já mereceria uma placa de honra no "museu" da história do rock. Só de pensar que tem tanto moleque por aí que ouve um disco do The Killers e acha que é a salvação do rock, e nem sabe o que foi "Selvagem?"...
E o mais bacana de "Brasil Afora" é que nele, é possível sentir o cheirinho de "Selvagem?". Quando gravaram o seu terceiro álbum, Herbert, Bi e Barone queriam realmente inovar. "A gente apostou todas as nossas fichas de novo. Se desse errado, voltaríamos para a Universidade e pronto", disse João Barone em uma reportagem comemorativa dos 20 anos de lançamento do disco, que fiz em 2006 para a Folha de S.Paulo.
Ainda bem que ninguém precisou voltar à Universidade. Pelo contrário, com "Selvagem?", os Paralamas quebraram barreiras e invadiram países nunca dantes navegados pelas nossas bandas de rock.
Uma das peculiaridades de "Selvagem?" é a proximidade dos Paralamas com os ritmos baianos e jamaicanos. E isso pode ser ouvido novamente em "Brasil Afora", que, aliás, foi gravado entre Rio e Salvador. "Sem Mais Adeus", por exemplo, mistura tudo isso com uma leve pitada de rock e os vocais de Carlinhos Brown (que compôs a letra ao lado de Alain Tavares). "Quanto Ao Tempo" também tem uma levada jamaicana e mais uma letra de Carlinhos Brown - e de quem mais poderia ser versos como "Lágrimas não são forever / Dores já não são together"?
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Não, a ideia aqui não é traçar um paralelo de "Brasil Afora" com "Selvagem?". Até mesmo porque não seria nada interessante aos Paralamas retornar 23 anos. Mas, de fato, a primeira coisa que me chamou a atenção nesse novo disco dos Paralamas foram essas coincidências (ou, até mesmo, semelhanças) entre os discos. Afinal de contas, Liminha pilotou os trabalhos de ambos.
Aí, fiquei pensando: quais bandas são capazes de fazer algo desse tipo? Uma reinvenção com um olho no passado não deve ser das coisas mais simples. Ao mesmo tempo, li muita coisa dizendo que o disco é "despretensioso". Sim, ele é despretensioso. Mas não só isso. Na verdade, ele é pretensiosamente despretensioso. (Caramba, como isso aqui está ficando complicado...) Ou será que alguma banda é capaz de gravar um álbum tão cheio de significados e referências, e ser despretensiosa ao mesmo tempo?
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Bom, melhor parar com a minha viagem e embarcar no caminhão dos Paralamas. Até mesmo porque, a viagem deles é bem mais interessante do que a minha.
"Brasil Afora" poder ser considerado, de certa forma, um álbum temático. Com um título desse, não tem como não identificar cada música a uma cidade do país. Vamos lá?
"Meu Sonho" - Rio de Janeiro. Os sopros que introduzem a canção fazem referência direta a "Do Leme Ao Pontal", o clássico de Tim Maia. Além disso, a canção é a mais solar do álbum.
"Sem Mais Adeus" - Maceió. O reggaezinho lembrou Djavan. Como se não bastasse, a letra tem a palavra "lilás". E Djavan é uma das maiores influências dos Paralamas.
"A Lhe Esperar" - Salvador. Sonoridade leve, alegre, cheia de sopros. E já que o baiano tem a (injusta) fama de preguiçoso, a letra cai bem: "Todo dia, toda hora, em qualquer lugar / Eu estou a lhe esperar / Quando é que você vai chegar?".
"El Amor" - Porto Alegre. Uma canção mais tranquila, com uma sonoridade sem o calor das três anteriores. De quebra, a canção é uma versão de Herbert Vianna para o sucesso "El Amor Después Del Amor", de Fito Paez. E Buenos Aires está pertinho da capital gaúcha!
"Quanto Ao Tempo" - Florianópolis. Reggaezinho, praia, surf e outras coisitas mas. Essa também foi fácil!
"Aposte Em Mim" - Qualquer cidade do Brasil. Pop bacana, refrão bacana... Desce bem em qualquer BR da vida. Mas coloque o volume no máximo...
"Mormaço" - João Pessoa. Com a participação especial do paraibano Zé Ramalho e uma letra que diz "Dá um laço e lança o sal / Passo ao largo em João Pessoa", também fica fácil demais...
"Taubaté ou Santos" - Alguma dúvida?
"Brasil Afora" - São Paulo. A mais pesada do disco. Melodia "estressante", bateria nervosa, guitarra rosnando, baixo galopando, refrão rapidinho... São Paulo na cabeça!
"Tempero Zen" - Belo Horizonte. Bom, confesso que aqui no finalzinho, a imaginação vai rareando. Forcei a barra mesmo. Tempero lembra comida. E a melhor cozinha do país é a de Minas Gerais. E não se fala mais nisso...
"Tão Bela" - Brasília. A música lembrou um pouco a sonoridade crua de bandas como Legião Urbana, Plebe Rude...
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Em pouco mais de 33 minutinhos, os Paralamas oferecem uma bela viagem pelo país. E tomara que o show "Brasil Afora" rode muitas estradas do Brasil, para assinalar mais um momento histórico na carreira de Herbert, Bi e Barone.
E se você quiser relembrar um outro momento histórico da carreira dos Paralamas, basta clicar aqui
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Mary
06/04/2009 11:51:29
Sidney, ótima descrição do disco - que tb está ótimo! - viajei na sua descrição de cada canção e tb senti essa alegria que você comentou. Parabéns pelo blog! Abs.
Felipe dos Santos Souza
16/03/2009 00:49:29
Rapaz, eu não lembrei de "Do Leme ao Pontal" com "Meu Sonho", não. Lembrei foi de "Chorando no Campo", por incrível que pareça. Dá até para cantar uma parte da letra do Lobão em cima da melodia que vai descendo de tom... E eu gostei do tom meio "easy listening" de "Taubaté ou Santos". E da porradaria de "Brasil Afora". Bem, realmente, é o CD mais solar desde o "9 Luas". E, depois que eu comprei a bolachinha, deu, realmente, para notar que as experimentações também dizem "presente". Pois se "Mormaço" traz Barone (tocando muito, sempre, sempre) se arriscando no ukulelê...







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