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Você Sabia? - Christian "Bino" Heins, uma lenda do automobilismo brasileiro

Gustavo Coelho | Você Sabia? | 23/02/2009 06:57

Foto: Extraída de www.bandeiraquadriculada.com.br Você já ouviu falar em Christian Heins? Provavelmente não. Um dos maiores nomes do automobilismo brasileiro nos anos 50 e 60, "Bino" não entrou para a história como merecia. Se dentro da pista já era um dos melhores, fora delas ele se firmou como um dos nomes mais importante que o esporte a motor do país já teve. Pelo esforço de Bino, o automobilismo ganhou no Brasil algum tipo de estrutura, que permitiu o surgimento de talentos do porte de Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace e até Nelson Piquet.

A trajetória de Christian Heins começa no dia 16 de janeiro de 1935, quando ele nasceu no bairro do Brooklin Paulista, em São Paulo. Filho de um bem-sucedido empresário de origem alemã e de uma italiana, Bino já demonstrava interesse pela mecânica desde criança. Como o automobilismo apenas engatinhava no Brasil, porém, ele foi obrigado a retardar o início de sua carreira, assim com a maiorio dos outros pilotos daquela época.

Sua estréia em competições aconteceu em maio de 1954, quando Bino resolveu se inscrever numa prova em Interlagos. De início, ele chamado de "Cometa", em virtude de sua impressionante velocidade. Logo depois, ganhou o apelido "Bino" - uma abreviatura de "Bambino" - por conta de sua mãe italiana. Esse nome iria lhe acompanhar pelo resto de sua vida.

A fama como piloto da Porsche

Foto: Extraída de www.bandeiraquadriculada.com.br Em 1956, aos 21 anos de idade, Bino participou da histórica primeira edição da Mil Milhas Brasil. Correndo com um VW Sedan, ele terminou na segunda posição, em dupla com outro grande nome do automobilismo daquele tempo: Eugênio Martins. Os adversários, em sua maioria, participaram com as chamadas "carreteiras", carros velhos mas equipados com motores de mais de 250 cavalos.

Um ano após conquistar o vice-campeonato na Mil Milhas, Bino partiu para a Alemanha. Indicado pelo presidente da Mahle no Brasil, ele conseguiu uma vaga na fábrica da Porsche, em Stuttgart. A princípio, seu trabalho era como mecânico. Não demorou muito, porém, e Bino ganhou uma oportunidade como piloto da marca alemã. Era o início de sua fama.

Entre 1957 e 1960, Bino competiu em várias provas importantes da Europa, sempre conquistando resultados de relevância. Nesse período, ele chegou a correr em algumas das maiores pistas da história, como Nurburgring, na Alemanha, e Spa-Francorchamps, da Bélgica. De repente, Bino alcançou o status de ídolo nacional, ilustrado por um episódio curioso, ocorrido numa de suas voltas da Europa.

Um "monumento nacional"


Foto: Extraída de www.bandeiraquadriculada.com.br Ao passar pela alfândega do aeroporto de São Paulo, Bino teve apreendidos todos os seus troféus, já que eles não tinham nota fiscal. Irritada com a situação, a irmã de Bino - Ornella - enviou uma mensagem ao próprio presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek. Por incrível que pareça, JK respondeu, pedindo desculpas pela apreensão e classificando Bino como um "monumento nacional".

De fato, naquele tempo, a importância de Bino no esporte brasileiro só era igualada por duas outras personalidades: Maria Ester Bueno, no tênis, e Pelé, no futebol. Terminado o período com a Porsche, em 1960, Bino retornou ao Brasil, passando a se dedicar de vez às competições nacionais. Logo de cara, neste mesmo ano, ele venceu a Mil Milhas Brasil, em dupla com ninguém menos do que o lendário Chico Landi.

Um ícone dentro das pistas, Bino também viria a se tornar uma figura fundamental nos bastidores quando passou a coordenar o Departamento de Competições da Willys, em 1962. Com o desenvolvimento da equipe, Bino deu condições a vários jovens que desejavam seguir carreira no automobilismo. Pela primeira vez, graças aos seus esforços, a carreira de "piloto profissional" passou a ter valor no Brasil.

O trágico fim

Foto: Extraída de www.bandeiraquadriculada.com.br Já consagrado como piloto e obtendo bastante sucesso como chefe de equipe, Bino pensava em se aposentar em meados de 1963. Foi aí que ele recebeu um convite da Alpine para disputar nada menos do que as 24 horas de Le Mans. Era uma oferta irrecusável, e Bino naturalmente aceitou. Seu plano era participar da corrida e depois aproveitar algumas semans de férias na Europa, com a esposa.

No dia 15 de junho, Bino largou para a legendária corrida. Às 20h20, quando ocupava a primeira posição na categoria 700 a 1000cc e o terceiro lugar no geral, Bino se deparou com uma imensa mancha de óleo na pista. Seu carro rodou, atingiu outro que também havia saído da pista, capotou várias vezes, chocou-se com um poste e, por fim, pegou fogo. Bino foi levado com urgência ao hospital mas, infelizmente, não resistiu.

Sua morte foi um grande baque para o automobilismo nacional. Mesmo assim, Bino deixou muito bem organizada a equipe Willys no Brasil, que seria peça fundamental no início das trajetórias dos irmãos Fittipaldi, de José Carlos Pace e Ingo Hoffmann. O sucesso da Willys, entre outros fatores, gerou um público cativo para o esporte a motor no país. E foram justamente dessas competições quase amadoras que surgiram outros nomes famosos, como Nelson Piquet e Alex Dias Ribeiro.

Bino pode não ser um dos pilotos mais conhecidos da história do automobilismo nacional, mas sua importância para o desenvolvimento do esporte no Brasil é incalculável. Entre os maiores nomes da história do esporte a motor no país, Christian Heins tem o seu lugar garantido.

*A coluna "Você Sabia?" é publicada todas as segundas e quartas no Pit Stop
**Fotos extraídas do site Bandeira Quadriculada
, que também foi a fonte principal para esta coluna