Opinião - Um tributo a Teddy Mayer
Paulo Alexandre Teixeira* | Opinião Pit Stop | 03/02/2009 12:15
Ex-chefe da equipe McLaren faleceu na sexta-feira passada, aos 73 anos. Aqui, Mayer aparece com Emerson Fittipaldi (Foto: Sem crédito divulgado)
A McLaren tem uma longa história de 45 anos de participação na Formula 1, e a sua fundação foi obra de um grupo de entusiastas que se juntaram à volta do neozelandês Bruce, que aos 26 anos, e insatisfeito com a Cooper, decidiu que era a altura de construir os seus próprios chassis. Entre os entusiastas estavam dois irmãos americanos, Timmy e Teddy Mayer. Timmy era um piloto, e teve vida curta. O outro irmão, Teddy, era mais virado para a gestão da equipa. Quando o fundador morreu, o gestor decidiu pegar onde ele deixou, e levou-a para os primeiros campeonatos como construtor, tendo como pilotos Emerson Fittipaldi e James Hunt. Cuidou da equipe até 1980, altura em que, sob pressão da Marlboro, fundiu-se com a Project Four de Ron Dennis, para poder sobreviver. Hoje vou falar de Teddy Mayer, um dos homens que moldou a Formula 1 nos anos 70, que morreu esta sexta-feira, em Inglaterra, aos 73 anos.
Edward Everett Mayer
nasceu em Scranton, New Jersey, a 8 de Setembro de 1935, e era filho de um ás da I Guerra Mundial, Edward Mayer
, e de Mary Guggenheim
, um membro da famosa família de Nova Iorque, e sobrevivente do naufrágio do Titanic. Para se diferenciar do pai, ficou com o apelido de Teddy. Três anos depois, nasceu o seu irmão. Enquanto estudava Direito em Cornell, o seu irmão Timmy
cumpria o serviço militar na Europa, onde descobriu as corridas. Nessa altura, Teddy conheceu outro herdeiro nova-iorquino, dos cosméticos Revlon, e entusiasta do automobilismo, chamado Peter Revson
(1939-74). Quando Timmy, Teddy e Peter se juntaram, em 1962, após Teddy se ter graduado, o automobilismo tornou-se parte da sua vida, e embarcaram para a Europa. Nessa altura, conheceram um jovem neozelandês, piloto experimentado de Formula 1, chamado Bruce McLaren
(1937-70). Em 1963, os quatro pilotos, mais outro americano, chamado Tyler Alexande
r, ajudaram a fundar a Bruce McLaren Motor Racing Ltd.
Nessa altura, correr em automóveis era arriscado, e esperava-se que muitos pilotos tivessem uma vida curta. Teddy sofreu na pele o primeiro das suas grandes perdas, quando o seu irmão Timmy morreu na pista australiana de Longford, em Fevereiro de 1964. Em seu tributo, Bruce McLaren disse a seguinte frase: "Fazer algo bem vale tanto a pena que morrer tentando fazer ainda melhor não pode ser loucura. A vida é medida por feitos e não por anos"
. Seis anos mais tarde, quando McLaren morreu testando um carro de Can-Am na pista de Goodwood, muitos se lembraram da frase, afirmando que tinha escrito o seu próprio epitáfio.
Nessa altura, a McLaren estava na Formula 1, e já era uma equipa vencedora. Com McLaren e o seu compatriota Dennis Hulme
(1937-92), estavam a fazer sucesso não só nas pistas de Formula 1 europeias, mas também na USAC Séries (a antecessora da CART) e especialmente na Can-Am. A McLaren dominava a competição, que chegou a ser baptizada de "The Bruce and Denny Show"
. O seu amigo Peter Revson ajudava a McLaren a ter sucesso nas pistas americanas, ao lado de outro americano, Mark Donahue
(1937-75).
Hulme pediu a Meyer para cuidar da equipe, algo que o fez. A McLaren continuou a ter sucessos nos anos seguintes, com Revson e Donahue. O primeiro na Can-Am, e depois numa curta, mas bem sucedida carreira na Formula 1, o segundo ao dar à equipa o seu primeiro sucesso nas 500 Milhas de Indianápolis, em 1972.
Em 1973, é projetado o McLaren M23, que iria dar à equipe os seus primeiros grandes sucessos. Em 1974, após a partida de Revson para a Shadow, onde morreria poucos meses depois, num acidente em testes, no circuito sul-africano de Kyalami, Meyer contrata o brasileiro Emerson Fittipaldi
. Este melhora o M23 e dá à equipe o seu primeiro titulo Mundial de pilotos e de Construtores. No final do ano, Dennis Hulme aposenta-se, e vem para o seu lugar o alemão Jochen Mass
.
No final de 1975, depois de perder o campeonato para o Ferrari de Niki Lauda, Fittipaldi sai para erguer o projecto brasileiro da Copersucar. Para o seu lugar, contrata o inglês James Hunt
(1947-93), um piloto muito rápido e que tinha mostrado todo o seu valor na Hesketh. Foi uma temporada bem disputada, contra Niki Lauda
, e que teve o seu culminar no pavoroso acidente do austríaco em Nurburgring. Apesar do regresso, Hunt ganhou na torrencial prova de Mont Fuji, depois de Lauda ter encostado voluntariamente na primeira volta. Esse segundo campeonato de pilotos era o culminar de um bom ano para a equipa, pois nesse ano, Johnny Rutheford
tinha dado á equipa a sua segunda vitória em Indianápolis.
Contudo, este tinha sido o seu auge, e a decadência não tardava vinha aí. A última vitória sob a tutela de Mayer tinha sido o GP dos Estados Unidos de 1977, através de James Hunt, e depois disso, a McLaren afundava-se no pelotão, mesmo tendo na sua equipa pilotos como o norte-irlandês John Watson
, e depois um jovem francês, de seu nome Alain Prost
. Em 1980, a McLaren tinha conseguido somente 11 pontos, e nenhum pódio. A Marlboro, mais concretamente o seu CEO, John Hogan, pediu a Teddy Mayer para que se fundisse com uma equipe de Formula 2, chamada de Project Four, liderada por um jovem ex-mecânico da Cooper e Brabham, chamado Ron Dennis
.
Meyer e Dennis partilhavam a liderança da equipe, e isso atraiu um jovem projetista inglês, chamado John Barnard
, que concebeu o primeiro carro com fibra de carbono, o MP4/1 (Mclaren/Project Four 1). A partir de então, todos os carros têm essa sigla. A equipa voltou a vencer, e em 1982, Niki Lauda decidiu voltar à Formula 1 através da McLaren. Por essa altura, Meyer decidiu vender a sua parte da equipa, e voltou para os Estados Unidos, construindo a sua própria equipa na CART, a Mayer Motor Racing. Com o americano Tom Sneva
, teve um enorme sucesso.
Isso chamou a atenção de Carl Haas
, que o resgatou em 1985 para o seu projeto da Formula 1. Ajudado pela Beatrice, uma multinacional de produtos alimentares, tinha motores Ford Cosworth Turbo e um chassis construído pela Lola, era guiado por dois veteranos da Formula 1: o australiano Alan Jones
e o francês Patrick Tambay
. Mas o projeto foi um fracasso e no final de 1986, a Beatrice-Ford sai de cena, e Meyer sai definitivamente da Formula 1. Nos anos 90, volta à CART, ajudando Roger Penske
na sua equipe, sendo o vice-presidente da empresa, cuidando da filial europeia em Poole até a sua aposentadoria, em 2007.
Casado por duas vezes, teve dois filhos. O mais velho, Tim
, é atualmente vice-presidente da IMSA, a entidade que cuida da American Le Mans Séries, e uma filha, Anne.
Este domingo, no meio dos tributos prestados a Meyer, Ron Dennis chamou-o de "um dos últimos grandes homens que o automobilismo teve".
"Em relação à história da McLaren, ele tem particular importância, pois ele fez parte de um pequeno grupo de homens, entusiastas pelo automobilismo que, em 1963, ajudaram a fundar a Bruce McLaren Motor Racing Ltd, ao lado de Bruce. Quando entrei na equipe, em 1980, Teddy tinha consolidado as fundações lançadas por Bruce e Tyler Alexander, e tinha conquistado muito - dois campeonatos do mundo com Emerson Fittipaldi e James Hunt, bem como um enorme êxito nos Estados Unidos. Em 1982, Teddy vendeu sua parte, e estou feliz por poder dizer que continuamos a ter sucesso e a vencer campeonatos desde então. Mas a origem das nossas vitórias remonta ao período de Bruce e Teddy"
, afirmou.
Apesar de Ron Dennis reclamar muito do sucesso que a equipe teve nas décadas de 80 90 e a atual, somente continuou o trilho deixado pelos seus antecessores baixando a sua cabeça em sinal de respeito a eles. E o melhor exemplo desse respeito pelo passado foi que manteve o nome original, algo que hoje em dia, com outras pessoas, seria impensável. E agora, é mais um homem notável que passa a fazer parte da História da Formula 1. Ars Lunga, Vita Brevis
.
*Paulo Alexandre Teixeira, 32 anos, é jornalista de formação, e é o homem por detrás do blog Continental Circus , que existe desde Fevereiro de 2007. Para além disso, trabalha nos sites Supermotores.net e Motormais
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