O Buda do Cerrado: uma jornada espiritual no coração do Brasil

Paulo Cesar Giordano | Geral | 30/01/2009 18h27

Há quase oito anos o mundo assistia, com um misto de horror e revolta, a uma das cenas mais tristes que precederam a era do terror que, simbolicamente, teve início com o atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque em 11 de setembro de 2001: a covarde destruição dos Budas gigantes de Bamiyan, no Afeganistão, pelas mãos do regime talibã.

Tão discreto quanto a imagem que se tem de um monge budista, Shogyo Gustavo Pinto, brasileiro, ordenado monge no Templo Hompa Hongwanji em Kyoto, está aos poucos construindo uma nova história que, inusitadamente, tem muito a ver com o atentado contra os Budas de Bamiyan. Um pouco dessa aventura está relatada no livro recém lançado pelo monge, O Rito da Montanha Sagrada, uma espécie de diário de viagem que busca valorizar de maneira equilibrada tanto a jornada física quanto a espiritual, porque das duas se pode tirar grandes lições de vida.

O rito a que se refere o título da obra faz parte de uma tradição budista esotérica muito antiga chamado de Rito de Abertura de Montanhas, cujo objetivo é o de despertar a montanha para que esta possa manifestar seu poder transcendente; quando desperta, essa montanha é habitada por um Buda que ali estará para abençoar a humanidade, ajudando a despertar as almas que se propuserem a atender ao seu chamado.

A Montanha Sagrada do Ocidente, cujo despertar esteve sob responsabilidade do monge Shogyo em 22 de abril de 2005 localiza-se no Mato Grosso, no distrito de Chapada dos Guimarães e faz parte de um projeto maior conhecido como Terra da Paz (www.terradapaz.com.br), que busca desenvolver um importante trabalho de recuperação do cerrado naquela região, embora seu objetivo central seja o de promover a paz, como indica o próprio nome, atentando ao fato de que a questão ecológica não se encontra desassociada da questão espiritual.

O primeiro passo dessa caminhada foi efetivamente dado durante o ritual de circunvolução da Montanha Sagrada (coincidentemente chamado de Morro do Japão, sem que se saiba a origem dessa denominação), em outras palavras, uma circulação em torno de algo tido como sagrado, nesse caso, a montanha. O autor optou por dar 108 voltas ao redor da montanha, uma por dia ininterruptamente, sempre se levantando muito cedo para evitar o forte calor da tarde, mantendo um silêncio absoluto que só era quebrado nos momentos de se recitar as orações rituais em determinados pontos estratégicos. Num desses pontos, na face norte da montanha, será construído no futuro um Buda de 108 metros de altura cravado na rocha, que num traçado imaginário estará alinhado à montanha que abrigava os Budas destruídos no Afeganistão.  O número 108 não aparece aqui por acaso; na tradição budista, explica o monge, esse número simboliza a infinitude de formas da ignorância humana e da sabedoria compassiva do Buda, representando tanto o que aprisiona quanto o que liberta.

Num relato honesto e cheio de simbolismos, muitas vezes poético, Shogyo consegue transmitir com muita sensibilidade os questionamentos que lhe aparecem pelo caminho, como se a sua escrita fosse, também ela, uma enriquecedora experiência de contemplação.  O sonho desse monge brasileiro é grande, mas não se pode dizer que seja impossível. Parece-se com aquelas cenas de televisão, quando no final do ano um repórter pergunta a uma criança o seu sonho não realizado, ao que ela responde: a paz mundial. E quem seria tolo o suficiente para duvidar disso?

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