Em 2009, faz 50 anos que o filme "Orfeu do Carnaval (Orfeu Negro)", dirigido pelo francês Marceu Camus, conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. A história tem como personagem principal Orfeu, um condutor de bonde e sambista carioca, que se apaixona por uma jovem chamada Eurídice, recém-chegada do interior, fugindo de um estranho fantasiado de Morte. O romance dos dois desperta ciúmes em Mira, ex-noiva de Orfeu. Esse fio condutor serve para passearmos pelo universo dos personagens, que é contado em pleno carnaval.
Dos ensaios ao desfile, "Orfeu do Carnaval" registrou um carnaval que não conhecemos mais, e um Rio de Janeiro ainda tranquilo, no ritmo dos bondes. É lindo observar cada detalhe, principalmente pra quem não teve o prazer de ter vivido naquela época.
Trechos do filme no YouTube:
O filme ganhou vários prêmios além deste, e também continuou sendo lembrado por outros anos, como em 1983 pela G.R.E.S. Estácio de Sá.
Orfeu do Carnaval
No verso apaixonado de Orfeu
Reina uma mulher somente sua
Por este amor maior que o envolveu
Enlouqueceu e vagou pela rua
No amor ferido de Aristeu
E o feitiço de Mira
A amante abandonada
A dama negra a ele apareceu
Levando para sempre a sua amada
O morro emudeceu
Explode a dor no peito de Orfeu
E o poeta apaixonado
Canta ao céu desesperado
O grande amor que perdeu
(Oh! Lua)
Lua, oh! Lua
Musa amada, branca e nua
Quero lhe beijar e lhe dizer: Sou seu
E você dizer sou toda sua
Desceu do morro
Enfeitou sua tristeza
Fez seu reino de beleza
Das mágoas do seu coração
E este menestrel moderno
Procura até no inferno
A voz de sua razão
(e vai)
Vai aos orixás do Candomblé
Demonstrando sua fé
Cai na orgia
Porém nada mas fascina
Ao Pierrô sem Colombina
Na sua alucinação
Morreu Orfeu
Vencido pelo mal
Mas há sempre
Um Orfeu no carnaval
Há dez anos, o fime foi novamente filmado, mas com elementos atuais. A história do casal começa num sábado de Carnaval. O mais famoso compositor dos morros do Rio de Janeiro, líder da favela onde mora e também de sua Escola de Samba, a Unidos da Carioca, Orfeu trabalha nos últimos preparativos para o desfile, quando conhece Eurídice, recém-chegada à cidade em busca de uma tia. Os dois se apaixonam, provocando o ciúme e a violência de alguns. O casal decide deixar o morro assim que o Carnaval terminar e, longe dali, viverem felizes para sempre. Uma típica história romântica, não fosse o grande desastre na noite do grande desfile no Sambódromo. Enquanto Orfeu irradiante brilha à frente de sua Escola, cantando mais um samba de sua autoria, sua amada é vítima de uma bala perdida de Lucinho, amigo de infância de Orfeu e chefe do tráfico de drogas naquele morro. Desesperado, Orfeu se vinga de Lucinho e parte em busca de sua amada desaparecida, a fim de levá-la de volta ao morro. A dor de Orfeu só faz aumentar os ciúmes de Mira, de Carmem e de todas as mulheres do morro que já foram suas namoradas. Enlouquecido de paixão, Orfeu é morto na Quarta-feira de Cinzas, no justo momento em que a televisão anuncia a vitória da Unidos da Carioca no desfile de Carnaval pelo terceiro ano consecutivo.
Por meio dos dois filmes, conseguimos, comparando as épocas, observar não só a evolução do carnaval carioca, mas também a da violência urbana que assola nossa cidade.
* * *
A partir do próximo sábado, estarei no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, na Praça XI, ministrando o curso de férias chamado "Cinema e Carnaval". Mostrarei um pouco desses dois mundos que desde 1908, data do primeiro registro em película do carnaval brasileiro, começaram a andar bem próximos, tornando nossas telas mais alegres e coloridas, mesmo ainda na época da imagem em preto e branco.
Já escrevi neste espaço, meses atrás, sobre cinema brasileiro e carnaval. Numa breve recapitulação, podemos dizer que a chanchada teve a sua quarta-feira de cinzas. No fim da década de 50 e ínicio da década de 60, o carnaval brasileiro passou a ser retratado de forma mais realista pelos cinemanovistas, nos brindando com belas obras também.
Considerado o precursor do Cinema Novo, o filme "Rio 40º", de Nelson Pereira dos Santos, mostra o cotidiano carioca através de um olhar neo-realista. A música "A voz do morro" de Zé Kéti (ele também participou do elenco) fecha com chave de ouro o filme e essa coluna.
A Voz do Morro na voz de Luiz Melodia:
A voz do morro
(Ze Keti)
Eu sou o samba
A voz do morro
sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
Salve o samba, queremos samba
Quem está pedindo
é a voz do povo de um país
Salve o samba, queremos samba
Essa melodia de um Brasil feliz
Eu sou o samba
A voz do morro
sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros