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Como será o amanhã? Previsões para 2009?

Áureo de Paula | Economia | 11/01/2009 16:34

Como será o amanhã?  Responda quem puder!  A crise que açola o mundo há meses tem gerado muita ansiedade e um sem-número de previsões. Analistas econômicos, sempre armados com seus realejos e bolas-de-cristal, não perderam tempo em se manifestar a respeito da severidade e do horizonte da atual recessão.  É de se esperar.  Afinal de contas praticamente toda a decisão que se toma, desde a mais corriqueira à mais sofisticada, deve ser precedida por alguma avaliação do futuro. Da dona-de-casa e seu orçamento familiar ao presidente de empresa e suas decisões de investimento, todos precisamos de cenários. Previsões econômicas são, no entanto, sabidamente difíceis. Na atual conjuntura elas são particularmente delicadas, dados os mecanismos que promoveram a retração das atividades econômicas nos Estados Unidos e consequentemente no resto do mundo em 2008.

Antes de debater o futuro, cabe uma pequena digressão a respeito do passado recente e das atuais circuntâncias. Não é novidade que o estopim da crise nos Estados Unidos foi o mercado imobiliário, extremamente aquecido já há alguns anos.  Certos estados como Arizona, Florida e Nevada sofreram booms imobiliários praticamente sem precedentes. Movidos a crédito fácil os preços pareciam não ter teto. Vide por exemplo os infames subprime loans, empréstimos a tomadores com credenciais menos sólidas, que ajudaram a estourar a bolha. A compra de imóveis para especulação atingiu níveis extraordinários. Em certas áreas de Las Vegas por exemplo, cerca de metade dos imóveis haviam trocado de mãos em menos de dois anos em 2005. A prática, conhecida como flipping, virou atividade acessória de muita gente por aqui e tinha até programa de televisão (pelo menos dois, praticamente homônimos: Flip This House e Flip That House). Sabia-se que havia uma bolha e que mais cedo ou mais tarde ela iria estourar. Enquanto os preços subiam e a música tocava, no entanto, ninguém queria sentar. Tais excessos porém não bastam para explicar o caos que se instalou nos EUA a seguir. No final dos anos oitenta e início dos noventa, os preços de imóveis, principalmente nos estados de Massachusetts e da California, caíram dramaticamente após um ciclo de apreciação igualmente insustentável. Tais movimentos contribuíram para a recessão do início dos anos noventa mas o impacto não é comparável ao atual em parte porque a estrutura financeira de hoje é fundamentalmente diferente. 

A cadeia de transmissão agora passa por diversas vias que tornaram o sistema financeiro e econômico americano muito mais frágil do que em episódios anteriores. Para início de conversa, um dos mais notáveis motores do crédito nos Estados Unidos é em parte responsável pelo descontrole a que chegamos. Ao conceder um empréstimo imobiliário, um banco norte-americano tipicamente vende o direito aos pagamentos dos mutuários para outra instituição que "empacota" a hipoteca ou parte dela com outras criando um novo ativo que é em seguida vendido a uma terceira instituição e por aí vai. Por um lado, esse é um mecanismo fenomenal, que permite expandir o crédito na economia. Por outro, já que o banco inicial basicamente concede o crédito e quase que imediatamente o repassa, não há o menor incentivo para que o originador do empréstimo seja criterioso.  Basta passar o problema adiante. A isso somam-se as "generosas" avaliações feitas por firmas como Moody's e Standard and Poor's a respeito da qualidade destes ativos lastreados em hipotecas. Em determinado momento alguns desses mutuários teriam problemas em manter os pagamentos de suas hipotecas, como de fato ocorreu, e todo mundo se dá conta que o rei está nu! Mas a história não pára por aí. Tome-se por exemplo o caso dos credit default swaps.

Os CDSs, como são conhecidos, são contratos que protegem um investidor de um calote por parte de algum devedor. Imagine que a firma de investimentos Fulano compre um título de dívida emitido pela companhia Sicrano. Para mitigar o prejuízo de um potencial calote por Sicrano, Fulano vai ao banco Beltrano e paga a este para emitir um CDS que lhe garanta o valor que Fulano espera receber caso Sicrano de fato renegue a dívida. Até aí tudo bem: o CDS nada mais é que um seguro, comparável a uma apólice contra incêndio! É normal (e mesmo desejável) que eu compre um seguro contra um imprevisível (e indesejável) incêndio de minha casa.  O problema é que não só Fulano, credor de Sicrano, pode comprar o seguro-calote nesse mercado.  Muitas outras firmas que quiserem apostar na saúde financeira de Sicrano também podem. E Beltrano o emite com prazer, pois conquanto não haja calote, o prêmio do contrato de seguro é basicamente dinheiro fácil. É como se todos os meus vizinhos começassem a comprar apólices contra o incêndio da minha casa! Para se ter uma idéia o valor dos ativos "segurados" pelo mercado de CDSs era mais que dez vezes maior que o valor de títulos corporativos em circulação. Mais que isso: como essas transações são privadas e o mercado deste tipo de ativo é extremamente imbricado é muito difícil saber quem está a perigo ou não. Coloque isso tudo na panela e o que se tem é uma bomba esperando para explodir. Quando por exemplo a crise levou ao chão o banco de investimentos Lehman Brothers em setembro, os CDSs emitidos contra sua dívida levaram abaixo uma das mais conhecidas seguradoras do país: a AIG, que estava na ponta perdedora de muitos destes CDSs.  Com isso tudo acontecendo, ao final de setembro o mercado de crédito americano travou de vez. Não se sabia mais quem era saudável ou quem tinha câncer.  Até o McDonald?s, uma das poucas grandes empresas cuja ação fechou o ano passado com retorno positivo, supostamente adiou planos para instalar máquinas de café em suas lojas por falta de crédito! E quando o crédito trava ao nível do que se viu neste semestre que passou, a economia trava. Uma série de outros fatores, como falhas regulatórias e inépcia administrativa, pode ser listada para completar o quadro. 

Por que então é difícil prever o que vai acontecer? Previsões econômicas são geradas por modelos matemáticos, um casamento de teoria econômica com técnicas estatísticas que tentam reproduzir o funcionamento básico da economia com base em dados do passado recente. A imagem tipicamente utilizada é a de guiar um carro com os olhos no espelho retrovisor. Tudo vai bem numa estrada reta ou com curvas leves. Num percurso cheio de curvas bruscas como o atual o carro logo, logo sai da estrada.  Obviamente o bom uso das previsões produzidas por tais modelos econométricos passa pelo filtro adicional do bom senso e a incorporação de fatores subjetivos não explicitamente presentes nas equações estatísticas. O que é inegável, dadas as considerações anteriores, no entanto, é que o sistema econômico responsável pela contaminação vista em 2008 não é igual ao que vigia nas recessões passadas. Mesmo que o melhor modelo para a economia fosse utilizado e adequadamente calibrado, a solução para a atual crise passa por uma série de ajustes institucionais (regulatórios, por exemplo) de natureza relativamente incerta por enquanto, especialmente em vista da transição presidencial. Resta aguardar as diretivas do novo governo e ver como a economia responde às medidas sugeridas por sua equipe econômica. Este sendo o epicentro da crise, a incerteza se espalha para o resto do mundo.

* Áureo de Paula é bacharel e mestre em Economia pela PUC-Rio, doutor em Economia pela Universidade de Princeton e professor da Universidade da Pensilvânia nos Estados Unidos.




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Postado por:Lola Coeli da Cata Preta Corrêa | 12/01/2009 09:41:52

Equilibrado, sensato e eficiente. O texto nos ensina todos os meandros pelos quais a economia mundial passou e tende a passar. Que bom quando temos tão ilustre professor, brasileiro, que de forma clara descreve o cenário econômico, passado, presente, e proválvel futuro, sem empáfia, sem rapapés, sem pré-julgar pré- conhecimentos (forma de mitigar conhecimento). Parabéns, como modesta economista, orgulho-me de colegas como você. Lola Coeli da Cata Preta Corrêa


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