Cesta Básica de Baden Powell: Um guia do maior violonista do país
Luiz Felipe Carneiro | Cesta Básica | 06/01/2009 15:42

Por incrível que pareça, já existiu uma época no Brasil em que as gravadoras davam valor à música instrumental. Se a qualidade da música produzida naquele período era melhor, prefiro não me meter na discussão, mas fato é que Baden Powell lançou álbuns muito importantes para a história da Música Popular Brasileira. Registre-se que a sua parceria com o poeta Vinícius de Moraes foi fundamental, gerando alguns clássicos de nossa música. A parceria também teve grande importância pelo fato de formatar o gênero musical mais conhecido como "Afro Samba". Nos anos 60, Baden Powell gravou discos antológicos, a maioria pelo selo Elenco, que foram relançados em uma caixa de CDs indispensável. Mas, durante a sua carreira, o violonista gravou diversos álbuns em outros países, especialmente na França. Nesse caso, as coisas complicam um pouco, eis que a maioria dos discos está fora de catálogo ou com preços proibitivos. De qualquer forma, a Cesta Básica dessa semana vai lhe ajudar ao menos a saber quais foram os discos mais importantes da carreira de Baden Powell.
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"Os Afro-Sambas" (1966) - Bons tempos aqueles em que um grande artista lançava três discos em menos de um ano. 1966 foi um ano assim para Baden Powell. Além de "Ao Vivo No Teatro Santa Rosa" e "Tempo Feliz" (com Maurício Einhorn), Baden também gravou um dos álbuns mais célebres da Música Popular Brasileira. "Os Afro-Sambas", feito em parceria com o Vinícius de Moraes e participação do Quarteto Em Cy, nasceu meio que de repente. Um encontro entre dois amigos, algumas caixas de uísque, violão, papel e caneta na mão foram o suficiente para a composição de oito clássicos, bem como para a criação do conceito musical "afro-samba". Antes, os dois músicos já haviam composto algo que se aproximava do gênero, como "Berimbau" e "Canto de Pedra Preta". Mas foi com esse álbum que o gênero se cristalizou, e Baden passou a ser visto como um dos grandes artistas de nossa música. O álbum, com sucessos como "Canto de Ossanha" e "Bocochê", ainda conta com os arranjos do maestro Guerra Peixe. No encarte do LP, Vinícius de Moraes assinou um texto que resume bem a proposta do trabalho: "Essa antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar, dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal". E deu mesmo!
"À Vontade" (1967) - Se em 1996 foram três álbuns gravados, no ano seguinte, foram dois grandes álbuns gravados. "À Vontade", apresenta 10 canções, sendo que metade delas são de autoria do próprio Baden, como "Berimbau" (única que possui vocais), "O Astronauta", "Consolação", "Candomblé" e "Samba Triste". Com exceção dessa última, as demais faziam uma espécie de continuação dos "Afro-Sambas" lançados poucos meses antes. E para acompanhar tantos clássicos de Baden Powell, as outras cinco canções eram de autoria de feras como Antonio Carlos Jobim, Dorival Caymmi e Moacir Santos. "Garota de Ipanema" (que abre o álbum) e "Samba do Avião" haviam sido lançadas no ano anterior, no histórico show que Tom, Vinícius, João Gilberto e Os Cariocas fizeram na boate Au Bon Gourmet. Outra faixa que merece destaque é "Sorongaio" (de Pedro dos Santos), com uma percussão bastante original tocada pelo seu próprio compositor. No encarte do LP, Aloysio de Oliveira (dono do selo Elenco, pelo qual o disco foi lançado) enfatizou: "Em contraste com o primeiro álbum que lançamos de Baden, neste vocês terão Baden à vontade. À vontade porque ele está mais solto, mais Baden". Se estava mais solto, não sei, mas fato é que "À Vontade" é um dos melhores álbuns instrumentais gravados no país.
"Baden Powell Swings With Jimmy Pratt" (1967) - No mesmo ano em que lançou "À Vontade", Baden Powell se uniu ao baterista norte-americano Jimmy Pratt (que já havia acompanhado, dentre outros, ninguém menos que o saxofonista Charlie Parker), para mais um álbum antológico. "Baden Powell Swings With Jimmy Pratt" também tem um time de artistas nacionais de peso, como o flautista Copinha, o saxofonista Moacir Santos, o percussionista Rubem Bassini e o baixista Sergio Barroso. Era músico para ninguém botar defeito... E é exatamente de um deles que vêm os dois maiores destaques do álbum. "Coisa Nº 1" e "Coisa Nº 2", ambas de autoria de Moacir Santos, são duas canções tão originais, que mostram o quanto nossa música instrumental pode ser rica. Rica e moderna, aliás. Dentre as outras canções de "Baden Powell Swings With Jimmy Pratt", estão "Deve Ser Amor" (uma das mais belas composições da dupla Baden / Vinícius), e "Samba de Uma Nota Só" (de Tom Jobim), que ganhou uma versão cheia de balanço, e na qual Pratt usa e abusa da escovinha na bateria. Destaque também para "Rosa Flor", parceria de Baden com Geraldo Vandré.
"O Universo Musical de Baden Powell" (2003) - Entre 1964 e 1977, Baden Powell gravou diversos álbuns para as gravadoras francesas Barclay e Festival. Alguns desses álbuns acabaram se transformando em alguns dos principais da discografia do violonista, como "Le Monde Musical de Baden Powell" (volumes 1 e 2) e "Tristeza". Entretanto, esses discos são muito difíceis de serem encontrados por aí. Levando esse fato em consideração, a gravadora Universal teve a idéia de reunir 29 fonogramas desses discos raros e reuni-los em "O Universo Musical de Baden Powell", lançado no Brasil em 2002. É fato que essa coletânea, pela raridade e pela beleza de suas faixas, é daquelas que realmente valem a pena. No disco duplo, é possível encontrar clássicos como "Samba do Avião", "Asa Branca", "Samba Em Prelúdio", "Vou Deitar e Rolar", além de versões alternativas de faixas que haviam sido (ou seriam ainda) lançadas em seus "discos brasileiros", como "Berimbau", "Coisa Nº 1" e "Samba da Bênção". A brilhante (e arrepiante) adaptação de "Jesus Alegria dos Homens" (de Bach) é outro ponto alto do álbum.
Dispensável:
"Live À Bruxelles" (2005) - De todas as Cestas Básicas feitas até agora, sem sombra de dúvida, a mais difícil de se encontrar um álbum "dispensável" foi nessa de Baden Powell. Com um padrão de qualidade acima do normal, o violonista não perdeu tempo em lançar discos que não tivessem algo a dizer. Mas se o tal disco "dispensável" faz parte de nossa brincadeira, não tem jeito. Assim, a escolha recaiu em cima de "Live À Bruxelles", que traz uma das últimas apresentações de Baden Powell, realizada no Théâtre 140, na capital belga, em 30 de outubro de 1999, ou seja, menos de um ano antes de sua morte, que ocorreu no dia 26 de setembro de 2000. Se "Live À Bruxelles" não é um disco ruim (e nem poderia ser, com clássicos como "Garota de Ipanema", "Samba Em Prelúdio", "Berimbau" e "Samba da Bênção"), mas a tristeza e a melancolia são dois sentimentos que predominam nele. Parece que Baden sabia que aquele seria um de seus últimos shows, colocando o violão para chorar nas belas versões para "Jesus Alegria Dos Homens" e "Naquele Tempo" (clássico de Pixinguinha e Benedito Lacerda). O seu fiapo de voz em "Consolação" também é comovente, assim como as suas ótimas variações para "Asa Branca", de Luiz Gonzaga. "Live À Bruxelles" é dispensável apenas pela sua tristeza. A tristeza de Baden não estar mais aqui. À Benção!
Abaixo, segue um vídeo de Baden Powell interpretando "Canto de Yemanjá" e "Tristeza e Solidão", duas faixas de "Os Afro-Sambas", durante o programa "Ensaio", transmitido em 1990, pela TV Cultura (disponível em DVD).









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