"Eu conheço essa voz..."
Anna Luiza Guimarães | Cultura | 06/01/2009 00:01
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SIDNEY REZENDE ENTREVISTA RICARDO JUAREZ:
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"Eu conheço essa voz...", essa é a frase que Ricardo Juarez, 38 anos, costuma ouvir de desconhecidos. Há mais de 10 anos, ele dubla um dos personagens de desenho animado mais queridos da garotada: o galanteador Johnny Bravo.
"Converso com crianças no telefone, que pensam estar falando com o Johnny. Uma vez, uma menina me perguntou se eu tinha plano de saúde, já que apanhava tanto nos desenhos", diverte-se Ricardo.
Além de Johny Bravo, estão no currículo do dublador o Batman, em Batman - O Mistério da Mulher Morcego, o Tygra, do desenho animado Thundercat, o Taz Mania, a girafa Melman, do filme Madagascar, o recente herói Helboy, o Sr. Bennet, personagem do ator Jack Coleman na série americana Heroes, o personagem de Will Farrel, na série da Feiticeira e o comediante Jeffrey Dane Cook.
No início, a inusitada profissão causava desconfiança na família. "Meu pai era militar e achava estranho que eu pudesse ganhar a vida assim. Mas hoje, minha mãe é fã", lembra o dublador, que começou como locutor de vinhetas em rádio e TV, mas resolveu cursar teatro. "Eu percebi que o mercado de locução estava pedindo uma coisa mais natural e menos impostada. Então, fiz um curso de teatro pra deixar minha locução mais natural. Tirei meu registro profissional de ator, que é necessário para tornar-se dublador, e comecei", contou.
Sobre a voz marcante, Ricardo explica que, como um atleta, é necessário dedicação. "Eu tive que ir lapidando minha voz para ficar assim", revelou o dublador, que não descuida da sua ferramenta de trabalho. "Não posso gritar muito, nem ficar tomando muito sorvete, apesar de adorar". Exercícios da fonoaudióloga para as cordas vocais também são rotineiros.
Para quem costuma ouvir elogios sobre sua voz e acha que tem talento para o ofício, Ricardo avisa: "Ter uma boa voz não é suficiente, se você não tiver desenvoltura. O nervosismo e a vergonha podem inviabilizar a profissão".
"No momento, é impossível viver só de dublagem".
A greve dos roteiristas de Hollywood, por meio de seu sindicato Writers Guild of America (WGA), teve início em meados de 2007 e causou uma grande crise no mercado de dublagens pelo mundo. No Brasil, muitos estúdios não se recuperaram do problema e vêm atrasando em até quatro meses o pagamento dos profissionais.
O dublador Christiano Torreão, que faz a voz de um dos maiores ídolos de Hollywood, Leonardo Dicaprio, conta que está no mercado há 16 anos e passou pelos melhores estúdios como diretor de dublagem e dublador. "Dei muita sorte ao ter oportunidades ótimas em tão pouco tempo. Hoje, o processo de início de carreira de um dublador leva quase cinco anos", conta Torreão. "Com a greve dos roteiristas, os filmes ficaram escassos, os seriados e desenhos ou atrasaram ou diminuíram de tamanho".
Com tantas dificuldades, Christiano, que sempre viveu de dublagem - sua maior paixão -, agora tenta uma carreira de cantor. "Eu não tenho conseguido me manter somente com a dublagem. Então, há pouco mais de um ano, dei início ao meu projeto 'Eclipse', que é meu primeiro CD de estréia como cantor e compositor. A produção será lançada em 2009 e quem quiser conferir uma prévia, acesse www.myspace.com/christianotorreao e curta meu som", divulga o ator, dublador e, agora, cantor.
Apesar do extenso currículo de dublagem, Ricardo Juarez, o Johny Bravo, explica que ganha a vida mais como locutor publicitário em rádio do que com os personagens. "A dublagem só surge de vez em quando. Viver só de dublagem é difícil. Muitas dessas vozes conhecidas são de médicos, engenheiros...", conta.
Segundo Ricardo, o pagamento de um dublador gira em torno de R$ 70 por hora de trabalho, independente da experiência. "Uma pessoa que está começando hoje, pode ganhar o mesmo que eu", explica. "Com a crise no mercado, conheço dubladores consagrados que estão em situação muito complicada. Vendendo salgadinho para sobreviver".
Esse ano, Ricardo resolveu dar uma chance para um forte talento que o persegue há alguns anos: a fotografia. "Sempre gostei de fotografia. Desde os oito anos, que pegava naquela câmara descartável e fazia foto de tudo. De uns tempos para cá, comecei a levar o hobby mais à sério e publiquei um livro para mim. Com as minhas melhores fotos. Por enquanto, não é nada comercial, mas quem sabe...".
O livro reúne imagens de paisagens, animais e todos os detalhes que passam desapercebidos na correria do dia-a-dia. "A foto que mais gosto é a dessa gota d?água. Ela estava na minha janela, em um dia que ventava, e fiquei muito tempo para conseguir fotografá-la assim. A fotografia é um exercício de paciência e de muita sensibilidade", explica o dublador, agora, fotógrafo.
Para Christiano Torreão, a questão salarial poderia ser resolvida com um canal direto entre os distribuidores e atores. "Sempre acreditei que os atores deveriam se desvincular totalmente desse relacionamento de patrão com empregado que existe no mercado, onde os estúdios deixam de ser meramente captadores de áudio e som e assumem o papel de agenciadores de vozes talentosas. Isso tem que acabar", sugere. "Os distribuidores e atores chegariam aos valores e, após o contrato firmado, o distribuidor simplesmente encaminharia esse ator para o estúdio de sua conveniência. Os diretores seriam ligados diretamente aos distribuidores e os atores teriam a oportunidade de fazer um trabalho menos 'industrial' do que é".
Para quem está começando na carreira, Torreão aconselha o desenvolvimento de todas as possibilidades e funções de um ator. "A dublagem é legal, paga relativamente bem pela hora trabalhada, mas é impossível se viver somente de dublagem hoje em dia".
Ricardo Juarez também aconselha: "É necessário manter outra profissão".
O futuro da dublagem
Apesar das dificuldades da profissão e de aconselharem aos iniciantes manterem uma segunda profissão, os dubladores não desanimam em relação ao futuro.
"O mercado está aí. Não vai acabar. Pelo contrário, a exigência dos assinantes por programação dublada nas TVs a cabo aumentou consideravelmente. Há cerca de dois anos, a rede Telecine, que na sua data de lançamento fez campanha publicitária execrando a dublagem e se vangloriando por não ter cópias dubladas em sua programação, lançou o Telecine Pipoca, canal 100% dublado", lembra Christiano Torreão. "Eles sabem que a perda de assinantes foi um fator decisivo para que os conceitos deles sobre TV à cabo fossem revistos".
Segundo Torreão, a tendência é existirem sessões dubladas em todos os filmes em cartaz, já que existe um público de terceira idade que cresce e possui poder aquisitivo para freqüentar cinemas e teatro. "Se as pessoas idosas tiverem que fazer esforço para ler letrinhas, tenho certeza de que não freqüentarão as sessões. É um publico rentável, visto que a expectativa de vida no Brasil tem crescido consideravelmente nos últimos 10 anos".
Postado por:dj marcos projeto cristoteca mãe do céu | 27/02/2009 23:07:12
ricardo juarez merece tudo de bom porque ele e um cara muito legal e solidário e nota 1000
Postado por:Mariana Moura | 06/01/2009 14:02:04
Boa matéria. A parte que ele comenta sobre as crianças é ótimo!
Postado por:Paulo Cesar | 06/01/2009 13:04:52
Ricardo Juarez é um ótimo profissional. Era seu ouvinte na Globo Fm.


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