CD: "O Coração do Homem-Bomba (Volume 2)" (Zeca Baleiro) - Um Baleiro (um pouquinho) mais sério
Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 26/12/2008 15:26

Zeca Baleiro demorou um tempão para lançar um álbum de inéditas, e, quando chegou a hora, o compositor maranhense arriscou logo com 27 gravações divididas em dois volumes. "O Coração do Homem-Bomba - Volume 1" saiu há uns três meses, e agora é a vez do Volume 2, que já está nas lojas via MZA. Para quem já havia gostado do primeiro volume, uma boa notícia: o novo disco consegue ser superior ao primeiro. Soando mais hermético, "O Coração do Homem-Bomba - Volume 2" mostra um Zeca Baleiro mais afiado poética e musicalmente.
No release distribuído a imprensa (comum aos dois álbuns), Baleiro afirma: "Antes que me perguntem, este não é um disco "conceitual"'. É um amontoado de canções acumuladas ao longo de alguns anos - umas novíssimas, outras nem tanto e algumas ainda tiradas do baú e recicladas. Os temas são diversos - amor, solidão, saudade, sedução, loucura, crônicas deste tempo tecnológico e cínico. Há ritmos e levadas vários - reggaeton, ragga, funk e soul brazucas, rock, ie-ie-iê, repente, ska, samba-funk, etc".
No primeiro volume, de fato, havia uma mistura maior de ritmos, mas, até pelo fato de ser mais constante musicalmente, o volume 2 consegue ser mais agradável e superior. O bailão do primeiro disco deu lugar a canções mais introspectivas, que lembram o seu último álbum de inéditas, "Baladas do Asfalto & Outros Blues", de 2005.
A banda (Os Bombásticos) dos dois volumes é a mesma que vem acompanhado o compositor há alguns anos. Formada por Adriano Magoo (teclados e acordeon), Fernando Nunes (baixo), Tuco Marcondes (violão e guitarra) e Kuki Stolarski (bateria e percussão), ela oferece a cama perfeita para Baleiro se deitar e destilar a sua poesia não muito convencional, que varia do grotesco ao romântico.
A primeira faixa do CD, "Era", segundo Baleiro, uma "balada que exalta a esperança em tempos desesperados" já apresenta bem a idéia desse segundo volume. A metaleira do primeiro disco foi substituída por uma sonoridade com ênfase em um instrumental mais básico, acompanhado por uma letra mais introspectiva ("Era dia de ação de graças / Na praça todo mundo riu / Não entendo bem que graça / Que acham num mundo que ruiu").
Na segunda faixa, "Tevê", o tom mais pop é substituído por uma "levada de reggae germânico e pitadas de cabaré" (palavras do próprio Zeca Baleiro). Entretanto, as letras permanecem (um pouco mais) sérias: "Olhando a estrela azul / Um quadro a cintilar / Vendendo ilusões / A quem não pode pagar / E a vida a passar".
O cordel-pop "Você Se Foi" lembra os melhores momentos do cantor maranhense do álbum "Pet Shop Mundo Cão" (2002), enquanto "Datena da Raça" mistura uma letra bem-humorada (como Baleiro sabe fazer muito bem) com algo mais sério ("Tanta dor na vida / Da dor se duvida / O sangue a ferida / É que dão ibope").
E Baleiro continua misturando ritmos (embora em uma proporção menor do que no primeiro volume), como na excelente "Débora", que, segundo o maranhense, é um "reggae egípcio", mas passa muito perto de seus sucessos mais populares que tocaram no rádio. "Trova Ao Cair da Tarde" é outra que pode se transformar em um hit em potencial. Já "Na Quitanda" tem uma levada africana que, de acordo com o compositor, foi inspirada em "Pata Pata", de Miriam Maqueba, que, aliás, é citada na letra. O pesadíssimo reggae "Tacape" conta com o sampler de "Carcará", de João do Vale, conterrâneo de Zeca Baleiro. O bumba-meu-boi também é lembrado por Baleiro em "Boi do Dono".
"I'm Nobody", que mistura bandolim com acordeon e conta com a participação especial da cantora Vanessa Bumagny, foi musicada em cima de um poema de Emily Dickinson. A canção é uma das que mais se destaca no álbum, com uma levada meio Beatles, meio country, ou, como preferiu Baleiro, com "um clima de luau havaiano". Outra que se destaca é o trava-línguas "Pastiche", que já merece o título de uma das melhores letras de 2008: "Tive uma oficina de desmanche / No carnaval saio na tribo apache / Fiz uma ponta no filme "A Revanche" / Contracenei com a Irene Ravache".
Na balada "Como Diria Odair" (com uma sonoridade puxada propositalmente para uma estética mais brega), Baleiro presta homenagem a um de seus ídolos, Odair José, autor dos célebres versos "felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes", nos quais a letra é inspirada.
"Samba de Um Janota Só", segundo Baleiro, um "pequeno manifesto pleno de atitude contra o excesso de atitude", também tem uma sonoridade mais inspirada nos cantores brega-românticos dos anos 70, com um trompete não muito discreto de Nahor Gomes. E quando a gente pensa que a viagem acabou, ainda tem a faixa-bônus "Eu Detesto Coca Light", um cordel composto em parceria com Chico César: "Eu detesto George Bush desde a guerra do Kuwait / Não quero que tu te vás, mas se tu queres ir, vai-te / Quero adoçar minha sina que viver tá muito diet / Da nação é cocaína mesmo quando chamam bright / Gosto de você menina, mas detesto Coca Light".
Lá no finalzinho do release do disco, Baleiro escreveu: "Este disco não tem "conceito". É um disco de música popular, a boa e velha música popular brasileira. Espero que baste". Quando escrevi a resenha do primeiro volume, eu a terminei com a seguinte palavra: Bastou! Agora podemos dizer que bastou duas vezes!
Abaixo, o videoclipe da faixa "Trova Ao Cair da Tarde".
Cotação: ****













































































































































































































































