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Você Sabia? - O piloto mais azarado que a Fórmula 1 já viu

Gustavo Coelho | Você Sabia? | 17/12/2008 09:57

Chris Amon teve várias chances de vencer corridas, mas o azar sempre esteve em seu caminho (Foto: Extraída do Blog F1 Nostalgia / sem crédito divulgado)

Pilotos da Fórmula 1 ganham fama por diversos motivos. O francês Alain Prost, por exemplo, era sempre tão preciso que começou a ser chamado de "Professor". Por causa do estilo agressivo e espetacular, derrapando o carro nas curvas de alta velocidade, o sueco Ronnie Peterson ganhou o apelido de "Piloto-show". Além desses, há vários outros exemplos ao longo dos quase sessenta anos de história da Fórmula 1.

Apenas um piloto, entretanto, é conhecido por ser o mais azarado de todos os tempos. Seu nome é Chris Amon, um neozelandês que disputou 108 provas entre 1963 e 1976. Em 14 temporadas na Fórmula 1, Amon correu por equipes tradicionais como Ferrari, Tyrrell e BRM, mas nunca conseguiu quebrar a barreira da vitória. No total, o piloto marcou cinco poles, largou 19 vezes da primeira fila e fez 11 pódios. Mas, na hora da decisão, parecia sempre faltar um pouquinho de sorte ao azarado Amon.

Azar desde o início

A falta de sorte do neozelandês já ficou evidente em sua primeira corrida na Fórmula 1. Na época um jovem de 20 anos, Amon faria sua estréia no GP de Mônaco de 1963. Faria. Nos treinos para a prova de Monte Carlo, o veterano Maurice Trintignant, companheiro de equipe de Amon, tem um problema grave de motor. A solução do chefe Reg Parnell é bastante simples: tirar o carro de Amon para que Trintignant possa correr. Sem carro, Amon vê-se obrigado a assistir o GP dos boxes.

Em seus primeiros quatro anos na F-1, Amon não soma praticamente nenhum resultado expressivo. Seu talento aparece mais nas corridas extra-campeonato, onde é sempre um candidato para a vitória. Em 1966, o neozelandês recebe o convite do compatriota Bruce McLaren para ser o segundo piloto da recém-formada Bruce McLaren Motor Racing. Seria a grande chance de Amon, que finalmente estaria numa equipe competitiva na F-1.

Pouco antes da temporada, porém, a McLaren se depara com um problema inesperado. Um impasse com a fornecedora de motores Cosworth impede que a equipe corra com dois carros e, mais uma vez, Amon é o sacrificado. Como compensação, a McLaren escala Amon para várias corridas fora da F-1. Nas 24 Horas de Le Mans, em parceria com o patrão Bruce McLaren, Amon conquista a vitória e, finalmente, consegue conquistar um lugar na Fórmula 1.

Na Ferrari, três anos de várias decepções

A equipe que oferece um contrato a Amon é nada menos do que a Ferrari. Em 1967, a escuderia italiana disputaria o campeonato com quatro pilotos. Além de Amon, também formavam o time os italianos Lorenzo Bandini e Ludovico Scarfiotti, além do inglês Mark Parkes. Para Amon, o primeiro ano seria de aprendizado ao lado dos companheiros veteranos. Entretanto, em poucos meses, tudo começa a dar errado para a Ferrari.

No GP de Mônaco, Bandini bate, seu carro pega fogo e o piloto morre dias depois no hospital. Na Inglaterra, Parkes sofre um grave acidente e quebra as duas pernas. Horrorizado, Scarfiotti resolve se aposentar temporariamente, o que deixa Amon sozinho para liderar a Ferrari. Para piorar, a equipe vivia uma grave crise financeira, que culminaria na venda para a Fiat algum tempo depois.

Em meio a toda a turbulência, Amon soma quatro pódios e termina o campeonato em quarto lugar, um resultado bastante promissor para as circunstâncias. Um ano depois, o neozelandês era apontado como candidato ao título de 1968. É nesse ponto que a fama de azarado começa a perseguir o pobre piloto, que começa a sofrer com uma incrível seqüência de falta de sorte. Amon é o pole position de três das primeiras quatro provas do ano, mas nunca consegue converter a vantagem em bons resultados.

Na Espanha, a bomba de combustível quebra quando Amon está na liderança. Na Bélgica, o radiador pára de funcionar logo no início da prova. Pior ainda aconteceria no Canadá: Amon comanda a corrida desde o início e já tem uma vantagem superior a um minuto, mas a embreagem começa a falhar. Apesar disso, o neozelandês permanece firme na liderança. A poucos voltas do fim, porém, a transmissão quebra de vez e Amon é obrigado a desistir.

Até problema no capacete tira vitória de Amon

A temporada de 1969, sua terceira pela Ferrari, também é uma grande decepção. Depois de quebrar em cinco das seis primeiras provas do ano, Amon deixa a equipe e assina com a recém-criada March para a temporada seguinte. Nas três corridas iniciais do campeonato - África do Sul, Espanha e Mônaco - Amon aparece na segunda posição e tem boa chance de brigar pela vitória. Mas não consegue, porque o carro tem problemas mecânicos em todas as oportunidades.

Na segunda metade do ano, a March cai de performance e Amon não passa de oitavo no campeonato. Para 1971, o neozelandês assina com a francesa Matra, campeã apenas dois anos antes com o escocês Jackie Stewart. Era um recomeço para Amon, que seria o líder da equipe. Infelizmente para ele, o entusiasmo da Matra com a Fórmula 1 já não é o mesmo e isso se reflete em seus desempenhos na pista.

A única chance de vitória aparece no GP da Itália. Amon larga da pole e lidera boa parte da prova. Na fase final da corrida, porém, um problema ridículo estraga tudo: uma proteção da viseira do capacete se solta e Amon é obrigado a diminuir para não causar um acidente. Termina em sexto, mais uma vez sem o troféu de vencedor. Apesar das decepções, Amon renova com a Matra e permanece na equipe em 1972. Seria um ano ainda pior, e marcado por um acontecimento ainda mais bizarro.

O episódio do caminhão de verduras

Depois de marcar apenas dois pontos nas seis primeiras provas do campeonato, Amon e a Fórmula 1 viajam ao desafiador circuito de Clermont-Ferrand para o GP da França. Ao chegar na pista, Amon tem uma surpresa muito desagradável. Interessada em fazer bonito nas 24 Horas de Le Mans, a Matra decidira priorizar a tradicional corrida de longa distância. O problema é que a marca praticamente abandonara Amon e a equipe de F-1.

Em Clermont Ferrand, apenas dois mecânicos são mandados para acompanhar o neozelandês. Com o equipamento todo deslocado para Le Mans, a Matra aluga um caminhão de verduras para levar o carro de Amon até o circuito. Parecia que o fim de semana seria uma desgraça. Mas, no treino classificatório, Amon surpreende a todos e termina com uma incrível pole position, que seria a última de sua carreira.

Na largada, Amon dispara e parece perto da tão sonhada vitória. Para azar dele, o circuito de Clermont-Ferrand era recheado de pedras. Uma delas causa um furo de pneu no carro de Amon, que se vê obrigado a fazer um pit stop. Os dois mecânicos fazem o máximo para trabalhar rápido, mas Amon fica muito para trás. Ao sair, o neozelandês faz a corrida de sua vida e termina num excepcional terceiro lugar. Não fosse o furo e certamente teria conquistado uma vitória fácil.

O fim da carreira e a frase de Mario Andretti

No final do ano, a Matra abandona a Fórmula 1 e Amon fica sem carro. A partir daí, o neozelandês iniciaria uma peregrinação por equipes de médio e pequeno porte, nunca com sucesso. Em 1973, chega a receber um convite da Tyrrell para disputar o GP dos Estados Unidos. Infelizmente, o francês François Cevert morre nos treinos de sexta e a Tyrrell se retira da prova, impedindo Amon de correr.

Em 1974, o piloto chega a tentar a aventura de construir um carro próprio, mas desiste depois de apenas quatro corridas. Nos dois anos seguintes, Amon ainda disputaria provas da F-1, nunca com destaque. No GP da Alemanha de 1976, o neozelandês fica chocado com o terrível acidente de Niki Lauda e se recusa a participar da corrida. Demitido pela equipe naquele mesmo dia, Amon faria apenas mais duas provas antes de se aposentar.

No total, o neozelandês venceu oito provas com carros de F-1, mas nenhuma delas contava para o campeonato. Até hoje, Amon vive no interior da Nova Zelândia, curtindo uma pacata vida de fazendeiro. Na Fórmula 1, sua fama de azarado nunca foi esquecida e ficou eternizada numa frase cunhada pelo amigo Mario Andretti:

"Se Chris resolvesse virar coveiro, as pessoas iam parar de morrer".

*A seção "Você Sabia?" é publicada todas as segundas e quartas no Pit Stop
**Fotos:
Amon no carro de número "20" - Blog F1 Nostalgia
Amon de Perfil - Wikimedia Commons
Demais - F1-Facts.com / sem crédito divulgado




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