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Opinião - Chegou a crise. E agora?

Paulo Alexandre Teixeira* | Opinião Pit Stop | 08/12/2008 12:35

Em 2009, F-1 pode ter o menor grid em 40 anos (Foto: Honda Racing F1)

"A Honda chegou à conclusão de que iremos cessar todas as atividades relativas à Fórmula 1, fazendo de 2008 nosso último ano como competidores. Esta difícil decisão foi tomada devido à forte quebra sentida nos nossos negócios, que tem como causa principal a crise financeira global, que como se sabe é motivada pelo grave problema económico que os EUA enfrentam".
 
"A empresa precisa garantir a sustentabilidade do seu core business, a construção e venda de automóveis. A recuperação deverá levar tempo e, por isso a Honda decidiu tomar medidas que sirvam para reagir face à crise. Entre elas, está o final da nossa participação na F-1."


Na última sexta-feira, um desolado Takeo Fukui, o CEO da Honda, anunciou desolado, na sua sede em Tóquio, que a Honda, face aos prejuízos que teve este ano, iria se retirar, com efeito imediato, da Formula 1. A Honda, como quase todas as marcas mundiais, dependia das vendas nos Estados Unidos para equilibrar o seu negócio, e este ano, teve uma queda nas vendas de 25 por cento. Prejuízos como este, aliado aos maus resultados, que não compensavam o pesado investimento que a marca japonesa estava a fazer, motivaram esta decisão. E os rumores apontam que a Toyota pode estar a caminho da retirada, eventualmente em 2010.
 
Fukui disse que, caso nada fosse feito, a marca japonesa tinha orçamento operacional para manter a equipa a correr no início de 2009. Só que devido à escalada dos custos no meio da presente crise financeira internacional, a Honda poderia ter de encerrar a equipe antes do final da temporada. Caso acontecesse, seria visto dentro da marca como uma suprema humilhação.

Ainda não se sabe o destino da estrutura de Brackley (sede da Honda F1), mas a sede em Tóquio deu vinte dias a Nick Fry e a Ross Brawn (ou seja até ao dia de Natal) para encontrar computador, caso contrário, fechará definitivamente as portas e colocará quase 800 pessoas no desemprego. Já se falam nos nomes de vários compradores, como David Richards, o patrão da Prodrive, que em meados de 2007 quis montar uma "McLaren B" na Formula 1, mas os seus planos foram abortados pela FIA, que não queria (e ainda não quer) chassis vindos de outras equipas.

Bom, chegamos agora ao centro da tempestade. Era algo que muitos previam. Na semana passada, em entrevista ao jornal português Test Drive, Adrian Campos, fundador da Campos Grand Prix, equipe da GP2 com aspirações na categoria máxima, disse a seguinte frase: "A ideia de ter uma equipa de Fórmula 1 continua sempre na minha cabeça, mas o fecho da Super Aguri mostra que agora não é a altura indicada. A Fórmula 1 chegou a um colapso e é certo que vai mudar muito, veremos o que se passa a partir de 2010." Vistas as coisas agora, era um aviso ao que vinha?

A 7 de maio deste ano, escrevi um pouco sobre a tempestade que vinha aí no meu blog. O pretexto fora do fim da Super Aguri, a amargura que sentia com o fim dos "garagistas", e o facto de esta Formula 1, dominada pelas montadoras, não teria muito futuro. Eis alguns desses extratos:

"Enquanto dizemos adeus a mais uma equipe de Formula 1, pensemos nisto: temos um grid reduzido perigosamente a 20 carros, num ano em que se prometia o acréscimo para 24. A Formula 1, o topo da carreira automobilística por excelência, está a ficar cada vez mais elitista. Para piorar as coisas, nos últimos cinco anos, são mais as equipes que se extinguem do que as que entram. Os custos são cada vez mais astronômicos, e tirando os construtores, os milionários com espírito garagista fogem cada vez mais de um desporto que apesar de ser cada vez mais rico, é um sorvedouro de custos."

(...)

"Bernie Ecclestone e Max Mosley têm apostado nos últimos anos numa fórmula que julgam ser vencedora: reunir o maior número de construtores, pois assim eles lucram com a exposição das suas marcas na maior montra do desporto automóvel. Lá conseguiram: BMW, Ferrari, Renault, Mercedes, Honda, Toyota, estão todos lá."

"(...) todas estas marcas querem ganhar. Ficar no meio da tabela não é algo que gramem muito, e mais cedo ou mais tarde, eles se irão embora. Estas equipes não têm paciência infinita, e se isto tem uma parcela muito pequena nos seus orçamentos, tem impacto nas suas vendas. E para piorar as coisas, temos uma crise mundial à porta, onde tudo aumenta: os alimentos, o petróleo... Estas multinacionais também sofrem, ou julgam que não?"

"(...) Esta formula não vai durar para sempre. Ao menosprezar os "garagistas" estão a enxotar os verdadeiros fãs da Formula 1. Alterações nos regulamentos, impedindo "equipes B", prejudicam a concorrência e afastam investidores, em vez de os atrair."

(...)

"A história do automobilismo teve ciclos destes: quando as marcas eram as únicas a participar, a competição acabava na primeira crise que aparecia. A Formula 1, desde o seu início, teve sempre equipas privadas, com pilotos privados. Alguns garagistas, como Ken Tyrrell e Frank Williams, começaram assim: comprando chassis de outras equipas, e depois montaram os seus próprios chassis."


O pretexto foram os garagistas, mas a crise que já avizinhava, teve outros motivos. Contudo o impacto é o mesmo, e este episódio mostrou que "o rei vai nu". Max Mosley, tão vilipendiado no início do ano por causa do seu escândalo sexual, tornou-se agora num herói inesperado. E o próprio Bernie Ecclestone, o maior fã das montadoras, e que desprezou a Super Aguri quando esta se foi embora, fez hoje à cadeia de TV britânica Sky News o seu discurso de "mea culpa", apelando ao corte de custos, algo que nem queria saber meses antes? 

Neste fim de semana mesmo, o presidente da FIA anunciou um acordo com a Cosworth para o fornecimento de motores "standard", bem como transmissões Ricardo para 2010, em valores próximos das seis milhões de libras. Contudo, tal valor só seria alcançado se pelo menos quatro equipas aderissem ao acordo. De uma certa forma, desapareceu o fantasma do fornecedor único de motores, mas a padronização dos motores vai mesmo para a frente. E Mosley está a mostrar, com o falhanço da Honda, que tem razão: o corte nos custos na Formula 1 tem de ser real, ou então, em vez de ter 18 carros em pista, a 29 de março de 2009, em Melbourne, (o numero mais baixo em 40 anos) poderemos ter muito menos? E a Associação das Equipes (Fota), que se reuniu em Genebra precisamente na quinta-feira, também pode ter chegado às mesmas conclusões. 

Será que Max Mosley é o último a rir com isto tudo? Aparentemente sim. E a Formula 1, sobreviverá? Aposto que sim. Mas depois de uma refundação completa.

*Paulo Alexandre Teixeira, 32 anos, é jornalista de formação, e é o homem por detrás do blog Continental Circus, que existe desde Fevereiro de 2007. Para além disso, trabalha nos sites Supermotores.net e Motormais

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