
Lembro como se fosse hoje: no dia 17 de setembro de 2005, com minha câmera digital, registrei a transferência das escolas de samba do Grupo Especial dos armazéns do Cais do Porto para a sonhada Cidade do Samba, na Gamboa, Zona Portuária do Rio. Nossa! Parecia que todos eram campeões! Que vitória!
Dos presentes: presidentes, dirigentes e carnavalescos fui colhendo alguns depoimentos, nos quais ressaltavam a esperança, a alegria, o entusiasmo, a felicidade do sonho realizado, ou seja, apenas pontos positivos com a mudança.
"Esse novo espaço que nós estamos tendo é o espaço que todo sambista planejava ter; é a glória do samba, é tudo aquilo de que o samba precisava e necessitava." - Aniz Abrahão David
"Hoje é um dia muito importante para as escolas de samba? Começamos a fazer alegoria debaixo dos viadutos, e hoje pra nós isso aqui é um sonho." - Fernando Horta

"O mais importante é a gente poder trabalhar num lugar que tenha uma infra-estrutura que se possa executar o trabalho? Porque você trabalhar naqueles barracões que a gente vinha trabalhando, que não tem o mínimo de higiene? Muita coisa se perde dentro dele, muita coisa não é executável por causa da própria altura? Aqui a gente consegue montar alegoria inteira, administrar o barracão, ter limpeza, consegue dar melhores condições de trabalho a todos os funcionários, receber a própria imprensa, enfim, é tudo de perfeito que a gente sempre sonhou." - Paulo Barros
E lá foram os carros alegóricos, apenas nas ferragens ou cobertos por enormes plásticos, passeando em meio ao trânsito da cidade, anunciando a mudança. A primeira a chegar foi a Beija-Flor, pois era a campeã do ano na época. Logo após sua entrada, começou a queima de fogos. Foi um momento emocionante. E, sem dúvida, um marco para o nosso carnaval. Outras escolas chegando - e, aos poucos, aqueles enormes espaços vazios foram preenchidos, ganhando vida.
Ainda com muita obra por fazer, já podíamos vislumbrar seu futuro: com muitos shows e oportunidades de trabalho. Um sonho realizado por meio da parceria entre Liesa e a Prefeitura do Rio de Janeiro.
No entanto, não posso deixar de registrar o seguinte comentário: como sentir-se realizado e feliz se outras tantas agremiações continuam em barracões cujo estado é lastimável? O que há de errado com o carnaval do Acesso que não consegue também uma Cidade do Samba? Não me refiro ao excelente trabalho da Liesa, mas da Prefeitura em relação as outras escolas de outros grupos.
O Presidente da Lesga, Reginaldo Gomes, procurado por mim, deu a seguinte declaração: "É um sonho antigo dos sambistas das escolas do Grupo de Acesso ter também uma Cidade do Samba. Existe um projeto, que será encaminhado à Prefeitura, de construir a Cidade do Samba II, ao lado da quadra da São Clemente, ou talvez na aréa onde se concentram algumas escolas, no Carandiru (assim chamado por fazer alusão ao presídio cujas condições de trabalho são sub-humanas). Seria para as escolas do A e do antigo B (hoje Rio de Janeiro I) , que desfilam no centro do Rio. Para as escolas que desfilam em Campinho, entretanto, o problema persistiria, pois se apresentam num local muito afastado do Centro. Certamente, faz diferença um local com mais segurança, estrutura apropriada, sem precisar de adaptações. Não se enfrentaria mais o problema da chuva - problema que já destruiu tantos carnavais... Enfim, estamos trabalhando para que esse sonho venha a tornar-se realidade, como em Cabo Frio, que ergueu a sua Morada do Samba."
A alternativa, muitas vezes, para essas pessoas que não querem trabalhar em ambientes nada propícios é fazer de suas casas um grande ateliê. Muitas alas que apreciamos na avenida não saem de barracões, e sim da casa das pessoas que amam e vivem do carnaval.
A varanda vira o local da costura, na garagem monta-se a fantasia, na cozinha guarda-se o que já está pronto, e assim vai surgindo um carnaval nada famoso, mas que faz a alegria da mesma forma. Muitos dizem ser até mais prazeroso ter participado de tão perto da criação; dizem que dessa forma se tem uma certa liberdade de horário que os barracões não permitem. Será? E o incômodo de ter a própria casa pelo avesso, com um entra e sai sem fim?
A verdade é que tem que ser muito "artista" nos Grupos de Acesso para colocar um carnaval na rua. Improvisa-se aqui e ali, tira-se da cabeça o que o bolso não dá. Mas o mais importante para quem trabalha com o carnaval é conseguir sempre ter seu espaço, não importa se é na Cidade do Samba ou nessa outra cidade, menos glamourosa, onde se tem que "sambar" para fazer carnaval.
Fotos da transferência das escolas para Cidade do Samba (Fotos extraídas do documentário de Thatiana Pagung: "Do Barracão à Apoteose, 80 minutos de emoção"):















