Professores em áreas de risco
sidney rezende | Sidney Rezende | 19/11/2008 08:58
A PM descobriu um farta quantidade munição no Ciep Frei Agostinho Fincias, no Engenho Novo, no Rio de Janeiro. Muita gente que desconhece a dificuldade em se morar ou trabalhar em áreas de risco passou a responsabilizar a diretora da escola por desconhecer que bandidos faziam das instalações depósito de um arsenal de guerra. Desculpe-me, sou legalista, mas este não é o centro da questão.
Vamos entender o que acontece antes de se acusar injustamente. Professores vivem angústia perversa: cumprir o que prometeram no seu código de honra, que é ensinar. E, ao mesmo tempo. ser obrigado a conviver com alunos armados dentro da sala de aula.
Filhos de traficantes rivais não podem estudar numa mesma classe, senão é encrenca na certa. Alunos inconformados com austeridade do mestre não se acanham em ameaçá-los de morte. O mais ameno que podem fazer é furar os pneus dos carros dos funcionários da Escola. Somem com pertences de inspetores diciplinadores e, muito comum, os agridem fisicamente.
Os professores em áreas de risco enfrentam todos os problemas pertinentes a esta situação anômola. Além de ensinar há uma constante necessidade de se buscar a confiança na relação conflituosa do aluno com o educador. É preciso conquistar os pais - muitas vezes ausentes, quando não inexistentes - e ao mesmo tempo "provar" para os xerifes da área que a escola é para ensinar e não para servir de alçapão para bandidos fugitivos da polícia.
Não é fácil. É muito difícil para o professor enfrentar bandidos fortemente armados que dão ordens sem direito a contestação. Em área de guerra a lei e a ordem é outra. Completamente diferente do que pensam pessoas no confoto do escritório ou estabelecidas no chamado "apartamento no asfalto".
O professor destas comunidades precisam ser mais ouvidos, melhor remunerados e respeitados pelo muito que fazem. Cá prá nós, as garantias de vida e de condições de trabalho são mínimas pelo muito que fazem. É preciso uma política diferenciada para estas escolas e para estes profissionais abnegados.
Postado por:Silvia Mara | 30/11/2008 00:03:08
Parabéns pelo post e OBRIGADA por nos defender de forma tão coerente e correta. Ser professora dessa comunidade não é tarefa fácil, mas continuamos acreditando no fruto do nosso trabalho. Ser professor é uma paixão e é com ela que trabalhamos todos os dias.
Postado por:Rosângela Menezes | 25/11/2008 17:06:17
Investimos 4 ou 5 anos para fazermos uma faculdade. Depois fizemos uma pós-graduação. Alguns, até mestrado . Mais tarde prestamos concurso para o Estado. E quando iniciamos o trabalho, descobrimos que não tínhamos direito nem ao auxílio transporte nem ao auxílio alimentação. A merenda é direito só do aluno, o que sobrar o professor pode comer. Os salários não são reajustados. E a inflação corrói tudo. E para piorar, ainda somos desrespeitados diariamente por àqueles a quem nos dedicamos de corpo e alma preparando aulas que poderiam ser aproveitadas, mas que no entanto são jogadas no lixo, e nós, professores, cansados de tanto apanhar, nos sentimos sozinhos e sem ninguém para nos dar voz. Obrigada por você, Sidney, ter lembrado da nossa existência.
Postado por:Rose Laranjeiras | 20/11/2008 19:04:01
Se nós cidadãos que não moramos numa comunidade dessa já estamos praticamente obrigados a lei do silêncio e ao toque de nos recolhermos cedo em casa, só o Governo está boquiaberto com esse fato que para muitos não é surpreendente. Se forem fazer uma varredura nas escolas dentro de outras comunidades onde o tráfico é quem dita as normas,verão que está não é a unica escola que se encontra sob esse comando. Querer transferir o abandono do Governo e colocar na conta de diretores e professores já é demais,já não basta serem mau remunerados.
Postado por:sidney rezende | 20/11/2008 16:20:34
Grande, Gelcio!! Saudades do amigo. Obrigado por acessar o nosso portal. Este é o lugar para quem gosta e quer informação isenta.
Postado por:Gelcio Cunha | 20/11/2008 15:55:50
Parabens pelo posicionamento perfeito diante de situação tão delicada. De fato os professores são as maiores vítimas. Sou filho de professora, irmão de cinco professoras e garanto a você que nenhuma delas trabalharia em escola de comunidade controlada por bandidos, se dependesse é claro da minha vontade. Não tenho dúvida que 99,9999999 por cento dos moradores destas comunidades gostariam que não fosse assim e sofrem calados por falta de alternativa. Abraço do seu admirador Gelcio Cunha.
Postado por:Paulo Z | 20/11/2008 03:59:46
Caro Sidney Rezende, os bandidos só passarão a respeitar os professores e a escola se a Sociedade e o Estado os tratarem com importância merecida.
Postado por:Paulo Cesar | 19/11/2008 23:21:31
Excelente comentário. O professor é desrespeitado sob todos os sentidos. Por isso o Brasil é subdesenvolvido.
Postado por:Júnia Márcia | 19/11/2008 20:35:38
Ótima matéria, Sidney! O desgaste está afastando os profissionais de educação das escolas. A quantidade de licenças médicas aumenta a cada dia, sem contar com os abandonos no magistério. Aqueles que ainda persistem, ou melhor, resistem, contam os dias para a aposentadoria. A todo momento, presenciamos colegas passarem por situações contrangedoras! E pelo jeito, as coisas tendem a piorar. Não é uma colocação pessimista, mas a realidade nua e crua de quem atua na área há muitos anos. A situação está quase que insustentável. Torço muito para que esteja enganada...! Um grande abraço.
Postado por:judithmaria | 19/11/2008 10:31:24
Caríssimo Sidney, muito pertinente o seu comentário de hoje.Os professores que trabalham nas áreas de risco sofrem de maneira perversa.Tenho uma sobrinha que dava aula numa dessas áreas e teve que se afastar por desgaste emocional tal era a situação de agressividade dos alunos e do "entorno" da sua classe.Para ela, jovem, cheia de verdadeiro amor pela sua escolha foi difícil conviver com o pavor de dar aula. \Muitas vezes só a abnegação não basta é preciso como você tão bem falou que haja uma política diferenciada nesses locais.
Postado por:Silvia Martins | 19/11/2008 09:38:34
Sou professora e concordo plenamente com o que o senhor escreveu. Somos tratados como profissionais de segunda classe. É raro encontrarmos na mídia uma análise objetiva com o senhor escreveu. Nos defenda.






















