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Boff é censurado na celebração dos 800 anos do franciscanismo

Antonio Carlos Ribeiro* | | 19/11/2008 07:22

O teólogo Leonardo Boff divulgou sua colaboração - censurada pelo bispo - para a carta aberta aos governantes, escrita pelos franciscanos, reunidos de 17 a 19 de outubro em Brasília para celebrar os 800 anos do carisma de Francisco e Clara de Assis. O documento é similar ao divulgado pelo fundador da Ordem dos Frades Menores quase no final de sua vida.

O evento contou com a participação de 1.000 pessoas, de diversas regiões e culturas, que fizeram uma caminhada pela Esplanada dos Ministérios. A Carta aos Governantes, entregue ao vice-presidente da República, criticou o projeto de transposição do Rio São Francisco. O texto de Boff pede pela terra devastada e as populações abandonadas, clama por justiça ecológica e social, lembra a vocação humana de "guardião de tudo que existe e vive" e adverte que os governantes terão que "prestar contas diante do tribunal da humanidade e enfrentar o Juízo do Senhor da história".

Leonardo Boff ingressou na Ordem dos Frades Menores em 1959, doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique (Alemanha), recebeu títulos de doutor honoris causa das Universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia), e das Faculdades EST (Brasil). Sofreu um processo da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, foi condenado a um ano de silêncio obsequioso e deposto das funções editoriais e magisteriais. Renunciou ao sacerdócio, ensinou Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e continua escrevendo artigos e livros.


Veja a íntegra da contribuição de Leonardo Boff:
A todos os chefes de Estado e aos portadores de poder neste mundo, eu Frei Francisco de Assis, vosso pequenino e humilde servo, lhes desejo Paz e Bem.
Escrevo-vos esta mensagem com o coração na mão e com os olhos voltados ao alto em forma de súplica.
Ouço, vindo de todos os lados, dois clamores que sobem até ao céu. Um, é o brado da Mãe Terra terrivelmente devastada. E o outro, é a queixa lancinante dos milhões e milhões de nossos irmãos e irmãs, famintos, doentes e excluídos, os seres mais ameaçados da criação.
É um clamor da injustiça ecológica e da injustiça social que implora urgentemente ser escutado.
Meus irmãos e irmãs constituídos em poder: em nome daquele que se anunciou como o "soberano amante da vida"(Sabedoria 11,26) vos suplico: façamos uma aliança global em prol da Terra e da vida.
Temos pouco tempo e falta-nos sabedoria. A roda do aquecimento global do Planeta está girando e não podemos mais pará-la. Mas podemos diminuir-lhe a velocidade e impedir seus efeitos catastróficos.
Não queremos que a nossa Mãe Terra, para salvar outras vidas ameaçadas por nós, se veja obrigada a nos excluir de seu próprio corpo e da comunidade dos viventes.
Por tempo demasiado nos comportamos como um Satã, explorando e devastando os ecossistemas, quando nossa vocação é sermos o Anjo Bom, o Cuidador e o Guardião de tudo o que existe e vive.
Por isso, meus senhores e minhas senhoras, aconselho-vos firmemente que penseis não somente no desenvolvimento sustentável de vossas regiões. Mas que penseis no planeta Terra como um todo, a única Casa Comum que possuímos para morar, para que ela continue a ter vitalidade e integridade e preserve as condições para a nossa existência e para a de toda a comunidade terrenal.
A tecno-ciência que ajudou a destruir, pode nos ajudar a resgatar. E será salvadora se a razão vier acompanhada de sensibilidade, de coração, de compaixão e de reverência.
Advirto-vos, humildemente, meus irmãos e irmãs, que se não fizerdes esta aliança sagrada de cuidado e de irmandade universal deveis prestar contas diante do tribunal da humanidade e enfrentar o Juízo do Senhor da história.
Queremos que nosso tempo seja lembrado como um tempo de responsabilidade coletiva e de cuidado amoroso para com a Mãe Terra e para com toda a vida.
Por fim, irmãos e irmãs, modeladores e modeladoras de nosso futuro comum: recordeis que a Terra não nos pertence. Nós pertencemos a ela pois  nos gestou e gerou como filhos e filhas queridos. Custo aceitar que depois de tantos milhões e milhões de anos sobre esse planeta esplendoroso, tenhamos que ser expulsos dele.
Pela iluminação que me vem do Alto, pressinto que não estamos diante de uma tragédia cujo fim é desastroso. Estamos dentro de uma crise que nos acrisolará, nos purificará e nos fará melhores. A vida é chamada à vida. Nascidos do pó das estrelas, o Senhor do universo nos criou para brilharmos e cantarmos a beleza, a majestade e a grandeza da Criação que é o espaço do Espírito e o templo da Santíssima Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Se observardes tudo isso que Deus me inspirou para vos comunicar em breves palavras, garanto-vos que a Terra voltará novamente a ser o Jardim do Éden e nós os seus dedicados jardineiros e cuidadores.


* Teólogo luterano e jornalista, doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)


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