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"Romance", a obra de amor de Guel Arraes

Letícia Simões | Cinema | 16/11/2008 22:22



As histórias de amor como conhecemos surgiram no século XII, com a tragédia Tristão e Isolda. Pela primeira vez na literatura, um homem e uma mulher se amam e desejam estar juntos além das conveniências. Há quem diga que o amor, esse estranho sentimento motivador de milhões de livros, peças e filmes, foi inventado justamente nessa história. 

Guel Arraes e Jorge Furtado construíram os seus Tristão e Isolda em "Romance", nas figuras de Pedro (Wagner Moura), ator/diretor de teatro e Ana (Letícia Sabatella), que após ser descoberta por um produtor na montagem de "Tristão e Isolda" encenada pelos dois, torna-se sucesso retumbante nas telenovelas. 

Ciúmes daqui, deslumbramento de lá, Pedro termina com Ana por uma conversa entreouvida na coxia. Três anos se passam, a atriz é um sucesso e sugere ao diretor de televisão uma espécie de programa de fim-de-ano e sugere o nome do antigo namorado, conhecido pela excessiva liberdade criativa.

O teatro cede em um lado, a televisão no outro e ambos concordam em produzir uma adaptação de "Tristão e Isolda", dessa vez passada no sertão nordestino. Entre os chiliques do renomado ator (Marco Nanini), a peripécia inventada pela produtora Fernanda (Andréa Beltrão) para transformar o namorado Orlando (Vladimir Brichta) no próximo galã da vez e o conflito para se decidir sobre o final da minissérie, Pedro e Ana se reaproximam e são obrigados a lidar com a paixão da atriz por outro homem. 

Ou seja: "Romance" é uma delicada história sobre as nuances de um relacionamento - casar ou não casar, ciúmes, medos, desejos, falhas de comunicação. Wagner Moura está completamente perfeito na interpretação do homem que perde a mulher amada por medo de expressar os sentimentos. E a cada mudança pela qual Pedro passa, Wagner acompanha perfeitamente. Nos gestos, no olhar, nas frases - o roteiro vestiu o ator como uma luva. 

Já com Letícia o resultado é bem diferente. Ana é belíssima, impulsiva, romântica. Deseja abraçar o mundo, ter filhos, fazer teatro, televisão, amar o tempo todo. Tanto quer que acaba apaixonada, ao mesmo tempo, por dois homens. A imagem que a atriz fez da personagem era de uma mulher doce, quase infantil - o tom de voz é outro e os olhares são inocentes. Essa Ana é praticamente uma criança, tomando decisões após decisões sem importar-se muito com o que está fazendo. Falta força na interpretação de Letícia Sabatella. 

O que é uma pena, pois "Romance" poderia ser impecável - o texto passeia entre citações e vida real sem chocar-se em nenhum momento, o figurino é belíssimo, as cenas estão muito bem dirigidas, inclusive as eróticas (convenhamos que dirigir corpos nus na tevê brasileira em tempos em que a nudez é algo tão corriqueiro e comum poderia cair na gratuidade). Andréa Beltrão e Vladimir Britcha funcionam muito bem, e dão uma leveza cômica que não incomoda. 

Mas com a atriz principal fraca, e uma interpretação tão certeira quanto a de Wagner, todos os olhos se viram para apenas um lado da balança, quando o atrativo deveriam ser os dois. Afinal, nenhum romance foi feito com apenas um homem só.


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