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Crônicas de uma crise

Julio Hegedus Netto* | Economia | 14/11/2008 14:32

Mais uma semana de prostração nos mercados. Esta crise deverá ser mais longa do que o imaginado por todos anteriormente. Estamos caminhando céleres para o que parece ser um longo e tenebroso inverno. Muitos países desenvolvidos já se encontram mergulhados em recessão, casos da Alemanha, da França e do Reino Unido, só para ficarmos nos mais relevantes. Os emergentes devem ser afetados de alguma forma, com um crescimento bem menor, mas ainda é cedo falarmos numa recessão global. A China, por exemplo, deve sair de um crescimento em torno de 11,4% em 2007, para 9,7% neste ano e 8% em 2009.

Para piorar os ânimos, nos EUA tanto o governo que sai como o que assume no dia 20 de janeiro parecem não ter o diagnóstico exato para buscar a superação da crise. Todos estão meio desorientados. Na semana passada, como estopim, o secretário Henry Paulson anunciou que não mais irá adquirir títulos podres, mas sim incorporará as ações das instituições financeiras em dificuldade. Ou seja, com esta decisão, acabou "enterrando de vez" o cerne do pacote anunciado em outubro, que mobilizava algo em torno de US$ 700 bilhões. Isto, na certa, pode ter sido decisão do novo presidente eleito Barack Obama. Ou seja, o governo Bush já acabou. Todas as decisões tomadas a partir de agora terão que passar sob o crivo da equipe de transição de Obama.

Neste momento, todas as expectativas se voltam para sua posse no dia 20/01/09. Um novo pacote fiscal deverá ser anunciado, mas será que o tempo decorrido já não terá sido excessivo? A impressão que se tem, neste momento, é a de que corremos numa competição desenfreada para salvar a economia de uma recessão ainda mais profunda. O problema é que a confiança se deteriora a cada dia. Quem chegará primeiro?

No Brasil, o cenário continua indefinido, longe do "controlado" apregoado pelos policy makers do governo Lula. No front fiscal observamos uma certa parcimônia destes, com o Orçamento do ano que vem já prevendo um aumento de gastos correntes de R$ 80 bilhões, sem uma expansão correspondente da arrecadação federal. Sim, porque dificilmente a economia continuará no mesmo ritmo do primeiro semestre deste ano, o que deverá impactar no recolhimento de impostos. 

Sendo assim, o tão sonhado arsenal de medidas fiscais para compensar a deterioração das expectativas dos agentes ainda não passa de um "sonho de verão". Como uma boa ação deste governo, mostrando atenção à crise, o ideal seria que as reformas estruturais voltassem à pauta de negociações. O encaminhamento da reforma tributária, por exemplo, ainda não passou pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e dificilmente deve ser aprovada ainda neste ano. O Congresso ainda continua com a pauta obstruída pelo grande volume de MPs a serem votadas. As  únicas aprovadas até o momento foram as que aumentam o poder dos bancos oficiais sobre os privados. Como argumento, o governo usou o exemplo do realizado pelos países desenvolvidos.

Só que nem sempre o que vale lá fora deve ser empregado no Brasil. No caso da política de juros do Bacen, por exemplo, poucos se arriscam sobre a hipótese de um corte do juro neste momento, dada a trajetória da inflação, impactada pelo câmbio depreciado, além da única demanda a cair ser a do setor privado, decorrente do aperto do crédito. Este, aliás, tende a ser cada vez mais escasso e seletivo, o que deve derrubar o consumo da economia neste final do ano, com perspectivas de um Natal mais fraco do que o previsto.

Até o pagamento do 13º salário deverá ser dificultado, inclusive, nesta primeira parcela de fim de mês, visto que as empresas estão tendo muita dificuldade para o financiamento do capital de giro dos seus negócios. Sobre a injeção de recursos na economia, decorrente do 13º salário, estudos indicam que estes devem totalizar algo em torno de R$ 78 bilhões, com incremento de 21% sobre 2007, na hipótese, é claro, de todas as empresas poderem pagá-lo.


Segmentos da indústria pregam que o Bacen e o Tesouro tenham uma maior coordenação diante da crise, com a adoção de medidas de cunho mais horizontal, beneficiando a todos os segmentos da economia e não apenas alguns poucos eleitos, como no caso da indústria automobilística. Esta pregação decorre do fato de que o câmbio oscilou fortemente e o crédito parou desde a fase mais aguda da crise entre meados de setembro e início de outubro.

Os dados da produção industrial e do comércio varejista, neste mês, inclusive, devem mostrar uma "perigosa inflexão", já considerado como um "ponto fora da curva" nesta trajetória da economia em 2008. Mas será que esta queda abrupta do crédito será mantida até o final do ano? Esta é a pergunta que todos se fazem neste momento.

Se nos três primeiros trimestres deste ano, contra o mesmo trimestre do ano passado, a economia brasileira até cresceu bem, em torno de 5,9%, 6,1% e 5,0% (este último, pela mediana das projeções de mercado), no quarto trimestre é bem capaz que o crescimento decaia a algo em torno de 3,0%.

Contra o trimestre anterior, a previsão é de que a taxa fique próxima à estabilidade, ou mesmo negativa. Nesta base de comparação, a expansão neste ano foi de 0,8%, 1,6% e 1,0% pelas projeções de mercado, respectivamente. Para o quarto trimestre, a trajetória prevista oscila entre uma queda de 0,5% e uma expansão no mesmo patamar. Neste cenário, todos os elementos da demanda agregada devem desacelerar também, quais sejam, taxa de investimento, consumo do governo e o privado e exportações líquidas. Para o ano que vem, pelo efeito do carry over, que carrega no efeito estatístico alguma expansão deste ano, se a "economia zerar" anda assim será possível crescer algo em torno de 2,4%.    

Indicativos desta desaceleração em outubro poderiam estar na queda das vendas de veículos, na restrição ao crédito e no crescimento dos indicadores de inadimplência. Por outro lado, as vendas de papéis ondulados e o consumo de energia se mantiveram aquecidas neste mês. Além disto, o cronograma dos investimentos previstos deve sofrer um bom atraso, com muitos projetos adiados.

Sendo assim, o desempenho da economia brasileira no ano que vem deverá ser bem mais fraco, com o crescimento do PIB não devendo passar dos 3,0%, o consumo privado despencando, assim como os investimentos. As exportações e as importações devem perder força, decorrente da queda da demanda externa, e o consumo do governo ainda deve se manter em bom ritmo. Isto, no entanto, só deve se confirmar na eventualidade do crédito melhorar neste final de ano. O patamar ofertado em 2009, no entanto, deverá ser outro, mais baixo, dado que a liquidez mundial se desacelerará fortemente, afetando diretamente a nossa capacidade de consumo.

*Julio Hegedus Netto
Economista-chefe,
Lopes Filho & Associados, Consultores de Investimentos
julio@lopesfilho.com.br
Tel: (21) 2210-2152


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