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"Rede de Mentiras" - mais um clichê sobre o Oriente Médio

Letícia Simões | Cinema | 14/11/2008 08:32

Agente da CIA vai para o Iraque localizar o líder de grupo terrorista. Explosões, bombas, agentes duplos árabes, e finito: Estados Unidos vencem. Sem pensar por muito tempo, pelo menos cinco filmes podem ser listados com essa sinopse. Anote mais um: "Rede de Mentiras", a mais nova parceria entre o diretor Ridley Scott e o ator Russell Crowe.

"Body of Lies", na verdade, é o livro de um jornalista americano que cobriu ações da CIA no Oriente Médio, e relata o intricado sistema de investigações da companhia e, em especial, o suposto plano de um agente para criar uma organização terrorista falsa, a fim de atrair um líder da jihad.

Ridley Scott é diretor de filmes de ação. Explosões, batida de carros, ataques de metralhadoras, planos rasantes e montagens rápidas são sua especialidade. No momento em que ele adapta a engenhosa trama de espionagem para seu estilo, o roteiro termina por se perder. A história passa a ser a mesma de sempre - a guerra dos Estados Unidos, os guardiões do universo, versus os bárbaros árabes com seus fuzis e câmeras digitais -, com os diálogos de sempre (todas as frases de efeito estão lá).

Sabemos que o agente Ferris (Leonardo DiCaprio) está no Iraque, em busca de Al-Saleem, chefe de uma organização terrorista cujo único objetivo é explodir todo o Ocidente até que não reste pedra sobre pedra. Já que os EUA possuem tecnologia suficiente para rastrear qualquer um em qualquer lugar a qualquer hora, a represália dos terroristas islâmicos é simples - basta apenas abandonar todos os aparelhos. A comunicação é feita por papel ou cara-a-cara. E a qualquer sinal de vazamento de informações, destrói-se tudo para recomeçar ninguém sabe onde.

A única opção de Ferris, então, é adaptar-se ao meio hostil da melhor maneira possível, até chegar ao ponto de poder ser confundido com um árabe. A extrema preocupação em entender a cultura local choca-se de frente com o modus operandum de Ed Hoffman (Russell Crowe, mais gordo do que nunca),  veterano da CIA, total workaholic e que traça as estratégias de campo dos agentes por satélite e celular, em seu adorável escritório. O velho conflito entre o mau e o bom policial, certo?

O que era para ser o trunfo de "Rede de Mentiras" está justamente no plano que Ferris bola e que será feito pelas costas do QG da CIA. O que poderia ser uma história eletrizante sobre espionagem nos dias atuais vira mais um filme de ação de cunho moralista estado-unidense. Para piorar, DiCaprio continua fazendo a mesma cara de bravo: franze o queixo, cria uma ruga na testa e aperta os olhos. Diversas vezes. A mesma expressão.

Fernando Meirelles, à época do lançamento de "Jardineiro Fiel", narrou seu maior dilema da seguinte maneira: "Estava com material para produzir um drama, um filme de ação ou um romance. Decidi ir por outro caminho". Ridley Scott deveria ouvir os sábios conselhos do brasileiro e seguir outra estrada, porque, essa, sinceramente, já está muito gasta.


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