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Conjuntura Macroeconômica

Julio Hegedus Netto* | Economia | 10/10/2008 21:08

Dizem que é da crise que se tiram as lições mais preciosas, com todos prometendo não repetir os erros dos passado. Será mesmo? Nas últimas semanas muito vem se comentando sobre a necessidade de um "redesenho" da arquitetura financeira internacional, uma regulação mais rigorosa dos mercados e o resgate do paradigma keynesiano sobre a realidade econômica atual, totalmente caótica, num tremendo "salve-se quem puder".

Em um momento como o atual fica complicado ter certeza sobre qualquer saída para esta onda de pânico que se instalou nos mercados. A crise de confiança é total e seu restabelecimento uma árdua tarefa. No entanto, um fato novo poderá ser a reunião do G7 e do G20 neste fim de semana em Washington, quando novas alternativas deverão ser apresentadas sobre o desenrolar da crise e os próximos passos das autoridades.

Este Panorama, inclusive, em mais uma semana de "terra arrasada" nos mercados, versa sobre os "sofismas econômicos". Só para entender: sofisma significa um raciocínio capcioso, feito com a intenção de enganar. Isto é, em fase de crise aguda, muitos dão palpites e apontam soluções, mas poucos, realmente, têm razão.

Na crise global de confiança que estamos atravessando, a irracionalidade acaba se tornando regra, com a intensificação dos movimentos de "manada" dos investidores, numa atitude defensiva, em busca de liquidez imediata e cobertura de perdas com a debacle. Muitos diagnósticos vêm sendo realizados, muitos culpados apontados, muitas soluções apresentadas, mas o mercado ainda não se acalmou. Na verdade, todo este clamor público por mudanças só acontece depois que o estrago já está instalado. Como dizem por aí, é muito fácil criticar, se colocando como arauto da tragédia anunciada, quando a crise eclode. E antes, alguém previu os estragos atuais?

Sim, muito previram uma crise de crédito, como o estouro da bolha imobiliária, mas poucos acreditavam que esta chegaria a este ponto que estamos vivendo. A fase é tão ruim que qualquer intervenção oficial, de governo local, só piora a situação. A saída passa a ser então a coordenação de várias autoridades, num salvamento global. Será esta a solução à crise atual? Sem dúvida, pode ser um caminho!

Na verdade, muitas críticas chegaram a ser feitas sobre o ritmo exuberante e insustentável do crescimento da economia mundial nos últimos seis anos, a liquidez abundante e o juro baixo. No entanto, com a economia mundial crescendo a um ritmo de 5% ao ano e todos ganhando muito dinheiro e o crédito fluindo, poucos deram a devida atenção aos "catastrofistas de plantão".

Um dos mais famosos personagens nestes anos, a criticar esta exuberância irracional dos mercados, foi o economista norte-americano Nouriel Roubini, diagnosticando o estouro da bolha imobiliária e os estragos daí decorrentes. Ele afirmava já no início deste ano, que a economia mundial estava à beira de uma recessão, com o Brasil não devendo crescer mais de 2% em 2009.

Outro personagem foi um dos criadores deste "estado de coisas", o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, ao criar o termo "exuberância irracional" dos mercados. Ele, no entanto, não acreditava no desfecho atual, de crise sistêmica global, ao contrário de Roubini, sempre prevendo o pior.

A seguir, façamos algumas ponderações sobre o atual momento, ressaltando alguns sofismas muito em voga no meio político-econômico.

No cenário doméstico, as atuações do Bacen vêm sendo acertadas até o momento. Sem dúvida, Henrique Meirelles é o alicerce de credibilidade do governo neste momento crítico. A autoridade monetária vem atuando preventivamente no esforço de tentar debelar a crise de crédito em curso, irrigando o sistema bancário com mais liquidez. Na semana passada, várias medidas foram anunciadas. O que não ocorria desde março de 2003, o Bacen voltou a intervir diretamente no mercado de câmbio, nas chamadas "vendas puras". Além disto, várias medidas para proteger os pequenos e médios bancos foram anunciadas, com o aumento do poder de intervenção da autoridade monetária. Vejamos: aquisição da carteira de crédito como garantia nos empréstimos, via redesconto, aos bancos; permissão de empréstimos em dólares, tendo como garantia os títulos soberanos do Brasil e de outros países; imposição de limites para novas linhas de negócio; obrigação de venda de ativos; suspensão da distribuição de dividendos e  proibição de novos ganhos para os executivos das instituições financeiras em dificuldades. Na verdade, muitas destas medidas vieram no bojo de um aperto das autoridades monetárias mundiais diante dos abusos dos últimos anos. O próximo passo, nos dias 28 e 29 de outubro, será o Copom sancionar um corte de juro, atualmente em 13,75%. O problema, neste caso, é a depreciação cambial, próxima a 45% desde o início de agosto, e os riscos inflacionários daí embutidos. 

Um alento nesta semana foi a ação coordenada nos bancos centrais, reduzindo a taxa de juros em 0,5 ponto percentual, o que pode ser visto como um sinal de novas medidas conjuntas à nível global. A reunião dos G7 e dos G20 pode ser encarada como uma iniciativa louvável. Apenas uma ação global como esta poderá amenizar um pouco o ambiente atual de crise, abrindo espaço para atuações no médio/longo prazos. As ações isoladas do governo Bush careceram de credibilidade, ainda mais quando se tem em vista as eleições presidenciais no dia 4 de novembro. Este governo está em fim de mandato, o que vem prejudicando muito as decisões tomadas por Henry Paulson e Ben Bernanke. A leniência na aprovação do pacote emergencial de US$ 700 bilhões, com o jogo político no Congresso, pode ter contribuído para a perda de credibilidade deste. Um "plano B" começou a ser costurado, ou pensado nesta semana, pelo Tesouro Norte-americano. A idéia agora é comprar fatias controladoras dos bancos com problemas para tentar estancar a perda de confiança no sistema. A saída seria a aquisição da participação com a injeção de capitais dos bancos em troca de percentual de ações para o Tesouro. Isto demonstra que o pacote anterior acabou se mostrando insuficiente para estancar a "sangria atual". O problema é que esta decisão é boa para a economia, mas tende a ser negativa para os acionistas, por diluir o capital dos bancos.

Sendo assim, no cenário atual não faz sentido a "politização" da crise. Ela é muito grave, atingindo o mundo inteiro, para as medidas saneadoras se perderem em picuinhas de poder.

Tudo bem. Nesta batalha de expectativas que estamos vivendo, com o clima de incerteza e pânico, é preciso serenidade na análise dos fatos. O Brasil não está blindado contra a crise, mas os US$ 206 bilhões de reservas nos permitem uma solução menos traumática nesta fase mais aguda. Por outro lado, bravatas não resolvem e, exceções à parte, várias autoridades locais têm sido pródigas em agir como se fôssemos uma ilha de tranqüilidade em meio a verdadeiro mar revolto.

Por fim, neste momento que vivemos, seguramente a maior crise do capitalismo desde 1929 (Crash de Nova Iorque), só nos resta lembrar Mário Henrique Simonsen: "O problema mais difícil do mundo, se for corretamente enunciado, um dia poderá ser resolvido. Já o problema mais fácil, ao ser mal apresentado, é irremediavelmente insolúvel". Nada mais acertado.

* Julio Hegedus Netto
Economista-chefe
Lopes Filho & Associados, Consultores de Investimentos
julio@lopesfilho.com.br

Caros amigos, acessem o meu blog "De olho na economia"; pelo portal  www.ondeinvestir.com.br.

 

 


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