Propostas semelhantes, estilos diferentes
Alexandre Mata Tortoriello | Rio+ | 10/10/2008 13:50:00
Quem acompanhou o primeiro debate entre os candidatos Fernando Gabeira (PV) e Eduardo Paes (PMDB) teve a oportunidade de perceber que os dois concordaram em muita coisa. Gabeira até chegou a falar que eles poderiam trabalhar juntos na prefeitura depois da eleição.
É lógico que houve divergências, principalmente quando os assuntos eram saúde e apoio político. Mas a grande diferença ficou por conta dos estilos. Gabeira mais solto. Paes mais compenetrado. Em poucos momentos lembrou o deputado que fez sucesso na CPI. A língua afiada que desferia frases de efeito, arrancava risos e conquistava a simpatia da platéia quase não estava lá. Ela até se fez presente, mas não com o mesmo vigor e rapidez.
Ele insistiu em usar a palavra suburbano com sentido positivo, tentando espetar Gabeira, que teria usado o adjetivo para reclamar de uma aliada, Lucinha (PSDB), a vereadora mais votada do Rio. Mas o adversário fingiu nem perceber. Em um de seus momentos mais firmes, lembrou que Gabeira apoiou César Maia em 2000 e indicou o secretário de Urbanismo após a eleição. Com isso, questionou o discurso do candidato do Partido Verde de que não negociaria cargos com os aliados.
Ao discutir o combate à dengue, disse que suas propostas "não terão tanto impacto no tráfego aéreo quanto às do adversário", ironizando o fato de Gabeira ter dito que faria sobrevôos para mapear as aéreas de risco. "Não tenho tantos aviõezinhos quanto ele", acrescentou quando deixava o estacionamento, depois do debate.
Gabeira arrancou mais risos com suas piadas e aplausos com suas tiradas. Mas é bom ressaltar que, desde o início, a platéia já era mais simpática ao candidato do PV. O número de eleitores com adesivos de Gabeira era visivelmente maior do que o de partidários de Paes.
Para não atacar diretamente o adversário, Gabeira escolheu bater na figura do governador Sérgio Cabral. E os golpes foram duros. "Chegaram a me chamar de Fernando Collor (...) O jovem governador não conhece a história contemporânea brasileira", disparou o deputado. Disse também que chamar os médicos de vagabundos é inadequado e prometeu uma relação mais próxima ao funcionalismo público.
As armas de Gabeira parecem ter funcionado melhor nesse primeiro momento, mas o discurso teve um forte tom de vitória, o que pode se voltar contra ele. Paes sabe disso e já procura contra-atacar. Lembrou que sempre evitou o salto alto: nos momentos em que estava com menos de 5% das intenções de voto e mesmo depois que passou a liderar as pesquisas com folga.
Faltam pouco mais de duas semanas para o segundo turno, mas a caminhada deles ainda é longa. O período promete trazer mais esperança ao carioca. O debate teve qualidade. As farpas e ironias chamam a atenção e são sempre comentadas, mas os dois tiveram um espírito propositivo que há muito tempo não se via em um encontro do tipo.
Independentemente do vencedor, se ele cumprir pelo menos uma pequena parte das propostas e promessas feitas nesse primeiro debate, as perspectivas para os próximos quatro anos no Rio são mais animadoras. O novo prefeito terá a chance de dar o primeiro passo para tirar a cidade do abandono e ser o responsável pelo renascimento do Rio.
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