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Atuações do Bacen devem ser mais diretas

Julio Hegedus Netto* | Economia | 08/10/2008 19:25

Acabou a parcimônia do Bacen na sua atuação no mercado cambial. Se até terça-feira suas atuações vinham se pautando por atuar na recompra de moeda norte-americana, emprestada ao mercado, ou em swap, sem "queima de reservas", nesta quarta-feira, com o fracasso destas operações, passou atuar com mais agressividade neste mercado, com três leilões de "venda pura", o que não acontecia desde março de 2003.

Nestas três intervenções, com as taxas de corte a R$ 2,4485, R$ 2,3700 e R$ 2,3560, respectivamente, e mais um leilão de swap, a moeda norte-americana, que chegou a R$ 2,50 pela manhã, acabou recuando ao longo do dia, até fechar o dia a R$ 2,2940, em queda de 0,74%. Terá sido suficiente? Parte desta crise cambial se explica pela "aversão generalizada ao risco", com os investidores, entre fundos e empresas, desmontando suas posições para cobrir perdas no exterior. Mas não podemos esquecer o "empoçamento de liquidez" dos grandes bancos, retendo recursos, não emprestando ao mercado e não operando com os médios e pequenos. Com isto, o dólar, que chegou a cair a R$ 1,5590 no dia 1º de agosto, se encontrava neste dia 8 em torno de R$ 2,294, numa alta bem expressiva de 47%.

Sendo assim, não restará ao Bacen outra saída a não ser começar a queimar as reservas cambiais, hoje atualmente em torno de US$ 208 bilhões, para tentar amortecer estas oscilações da moeda nacional. O cenário atual tem muito de especulação, de irracionalidade, mas não fazer nada seria pior, dado que bancos e empresas se encontram endividados em dólares e podem enfrentar um drástico agravamento de sua situação atual, assim como a inflação voltar a assombrar. Por outro lado, melhor seria, também, que o governo atuasse em coordenação entre Fazenda e Planejamento, anunciando um pacote fiscal bem austero e o avanço no encaminhamento das reformas. Lembremos que as projeções já indicam um crescimento bem menor da economia em 2009, em torno de 3%, afetando a arrecadação, o que diante de despesas crescentes tende a ser um temor a mais.

Por outro lado, no cenário global desta quarta-feira mais volatilidade e crise, mesmo com a operação conjunta dos bancos centrais pela manhã, cortando suas taxas básicas de juro em 0,5 ponto percentual. Mesmo assim, os mercados não se acalmaram. 

Nos EUA, mesmo com toda esta maré negativa, um dado favorável veio com as Vendas de Casas Pendentes (NAR) em agosto, elevadas em 7,4% contra julho e 8,8% contra o mesmo mês de 2007. No cenário doméstico, a "seca" de outubro não impediu que em setembro o fluxo cambial se mantivesse positivo, com o bom fluxo comercial, apesar do financeiro no vermelho. O saldo do mês foi a US$ 2,80 bilhões, com o comercial positivo em US$ 6,99 bilhões e o financeiro, no vermelho em US$ 30,11 bilhões. No ano, até o dia 3 de outubro, o fluxo geral era positivo em US$ 17,70 bilhões.

Neste clima de total irracionalidade, as instituições multilaterais já começam a repensar suas projeções de crescimento para este ano e o próximo. No encontro anual de Washington, patrocinado pelo FMI, as projeções da economia mundial estão sendo revisadas para baixo, com a expansão neste ano devendo ficar em 3,9%, puxada pelos emergentes e no ano que vem caindo a 3,0%. Segundo o FMI, "muitas economias avançadas estão perto ou caminhando para uma recessão". Para o organismo multilateral a recuperação no fim de 2009 "será excepcionalmente gradual tendo em conta padrões anteriores". Atualmente, o que derruba as economias e os mercados é uma total perda de confiança. Mesmo neste ambiente de terra arrasada nos países industrializados, "os emergentes ainda devem oferecer alguma resistência, aproveitando-se de um forte aumento na produtividade e de um esquema melhor de política monetária. Quanto mais durar a crise financeira, mais o crescimento das economias emergentes pode ser afetado".

Ainda sobre as projeções do FMI, as dos Estados Unidos indicam um crescimento de 1,6% em 2008 e de apenas 0,1% em 2009; na zona do euro, o PIB deve crescer 1,3% agora e 0,2% em 2009; no Japão 0,7% em 2008 e 0,5% em 2009.

 

* Julio Hegedus Netto
Economista-chefe
Lopes Filho & Associados, Consultores de Investimentos
julio@lopesfilho.com.br

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