Ainda no "olho do furacão"
Julio Hegedus Netto* | Economia | 07/10/2008 18:18
Como fazer qualquer análise diante de tanta volatilidade e entrega de posições? Afinal de contas, quando haverá uma "normalização" dos mercados, totalmente entregues à volatilidade, não sendo possível traçar qualquer cenário? Vivemos um momento só presenciado em teoria, nos manuais de macroeconomia aberta, com uma mistura explosiva de crise conjugada de crédito, liquidez e solvência, num "ciclo vicioso", com "profecia auto-realizável", sem esquecer do "efeito manada" dos investidores, em total irracionalidade.
Retratando disto, nesta terça-feira, o Ibovespa não definiu uma tendência, longe disto, em total volatilidade, chegando a mais de 2% pela manhã para despencar 5% pela tarde e fechar o dia em queda de 4,66%, a 40.139 pontos. O risco país disparou 3%, a 407 pontos básicos, e o dólar foi a R$ 2,312 (+5,1%). Na Europa, os mercados atuaram em trajetória distinta, e nos EUA despencaram acima de 5%.
Afinal, dá para resistir até quando ? Quando sairemos do "olho deste furacão" ? Aos bancos centrais do mundo só resta continuar adotando medidas "amenizadoras", irrigando de liquidez os mercados de crédito, totalmente parados.
Nos EUA, como destaque em mais um dia horroroso, a ata do Fomc/Fed, o discurso de Ben Bernanke e as sinalizações do FMI de prejuízo global ainda maior com a crise. Sobre este último, as projeções de prejuízo passaram de US$ 945 bilhões para US$ 1,4 trilhão (+48%). Até setembro deste ano, as perdas contabilizadas pelos grandes bancos foram de apenas US$ 560 bilhões. Ou seja, novas turbulências nos aguardam.
Na opinião do FMI, "a atual crise que assola o sistema financeiro internacional surpreende por sua magnitude e duração. Previam-se perdas consideravelmente menores do que as registradas até agora, e as turbulências ainda estão longe de terminar." Segundo o FMI, não existe mais espaço para medidas paliativas. Cerca de US$ 675 bilhões precisam ser angariados pelas principais instituições financeiras do globo nos próximos anos. A dificuldade reside justamente no fato de que as condições adversas do mercado impedem um levantamento expressivo de capital pelos bancos.
Para o FMI, é nesta hora que os bancos centrais devem atuar no mercado. "O processo de desalavancagem é necessário e inevitável - mas não pode ser desordenado. É necessária uma ação coordenada mais ampla e enérgica das autoridades monetárias, em especial da Europa e dos EUA, para que a confiança entre os investidores e as dinâmicas financeiras sejam restauradas."
Neste cenário de "terra arrasada", Bernanke não está nada otimista sobre o desenlace da economia norte-americana, mas o Fed vem fazendo todo o possível para tentar estabilizar os mercados. Possivelmente, mais um corte de juro deve ser anunciado até a reunião do Fomc, nos dias 28 e 29 de outubro (ou mesmo antes !), devendo chegar a 1 ponto percentual. Atualmente, a taxa de juros de curto prazo, o Fed Funds, se encontra em 2,0% anuais. No discurso de Bernanke foi dito que "o Fed precisará considerar se a posição atual de política monetária permanece adequada". Segundo ele, "a combinação de novos dados e eventos financeiros recentes sugerem uma piora no desempenho econômico. Por outro lado, com as commodities recuando, o risco inflacionário se dissipou um pouco.
Para Bernanke o pacote de medidas para o resgate do sistema bancário norte-americano (de US$ 850 bilhões) era o que poderia ser feito diante das circunstâncias. Este plano de ajuda, assim como as intervenções do Fed para garantir liquidez ao sistema financeiro e comprar commercial papers, são ações essenciais neste momento de irracionalidade dos mercados.
No mercado doméstico, o Bacen segue atuando em leilões de swap no mercado cambial. Além disto, anunciou que poderá comprar carteira de crédito de pequeno e médio porte a fim de assegurar a liquidez no sistema financeiro doméstico.
Por fim, uma medida anunciada pelos 27 países da União Européia (UE) foi a aprovação da proposta de elevação de 20 mil para 50 mil euros do fundo de garantia de depósitos bancários. Até o momento, os país do bloco europeu vinham adotando medidas isoladas para enfrentar a crise financeira. como Irlanda, Portugal e Dinamarca. Esta decisão da UE tem o objetivo de frear as medidas unilaterais adotadas nos últimos dias por vários Estados integrantes do bloco, de oferecer garantia total aos recursos depositados nos bancos em seus territórios, contribuir com a estabilidade e construir e transmitir confiança aos correntistas.





























