Curso de Noivos
João Carlos Teixeira Carneiro* | Fé | 05/10/2008 19:07
Há quatro anos eu atuo na preparação de noivos na paróquia onde tenho minha vida comunitária. O curso é de um bom nível intelectual e trás algumas boas e interessantes informações para aqueles que vão se casar, no entanto tenho a certeza de que está muito aquém do que poderia ser, e mais longe ainda do objetivo que temos, qual seja, reduzir o crescente número de separações entre casais, muitos ainda recém casados. Sempre fica no ar a pergunta: o que podemos fazer para reduzir o número de separações?
A essa pergunta, uma boa parte dos paroquianos responde de maneira simples: "os jovens de hoje não têm responsabilidade", ou então, "ah, no meu tempo é que era bom".
Naturalmente que essas duas respostas refletem que a maioria de nós já passou dos 50 anos de idade e mais de 30 anos de casados. Refletem também a pouca profundidade com que nos dedicamos para responder àquilo que queremos mudar, e sem buscar as razões das separações de maneira isenta e sem idéias pré-concebidas, certamente nunca chegaremos à resposta alguma, ou pelo menos a uma resposta que possa indicar um caminho diferente.
Quando dizemos que os jovens de hoje não têm responsabilidade, na realidade estamos querendo dizer que os jovens não têm a responsabilidade esperada de quem tem mais de 50 anos, o que não quer dizer que eles não têm responsabilidade. A responsabilidade que eles têm é a responsabilidade de um jovem, assim como também nós tivemos a mesma responsabilidade quando ainda éramos jovens. Seria muito chato que um jovem entre 18 e 25 anos de idade tivesse a responsabilidade de uma pessoa com mais de 50 anos. Seria um jovem muito chato, muito sem graça.
A segunda resposta que mais encontro - "ah, no meu é que era bom" - além de ser falsa é de enorme infantilidade.
Infantil porque não percebe que o mundo caminha sempre frente e não há como segurar. Infantil ainda porque ao passado que era bom, nos referimos exatamente àquele passado em que éramos jovens e livres das responsabilidades que temos hoje, pois tínhamos outras responsabilidades, então dedicávamos boa parte do nosso tempo para os bailinhos, as festas, o namoro, etc, etc. Nós éramos exatamente como são os jovens de hoje.
Essa resposta também é falsa, e agora me concentrando no tema casamento, porque até um passado não muito distante em termos de história, os pais interferiam diretamente e sem questionamento com relação à com quem os filhos iriam se casar. O amor entre o casal não era o preponderante, mas sim as razões e os anseios do pais. Isso foi bastante claro até o final dos anos 20 do século passado. Somente a partir dos anos 30 é que os jovens começaram a ter mais liberdade para se casarem com que amavam. Agora eu pergunto: é àquele passado em que não podíamos nos casar com quem amávamos e ter que casar com a pessoa que fosse do interesse dos meus pais? A esse passado eu não quero voltar.
A liberdade para se casar com quem amávamos foi crescendo nos anos 40 e 50 até chegar nos anos 60 em que a juventude da época, e da qual eu fiz parte, colocou uma pá de cal definitiva no casamento arranjado levantando a bandeira do "amor livre".
Voltemos aos dias de hoje, e depois de 40 anos precisamos fazer um entendimento melhor do que significa "amor livre".
Amor livre não pode significar amar sem responsabilidade, pois do contrário não é livre. A liberdade pressupõe responsabilidade. Liberdade sem responsabilidade é qualquer coisa, menos liberdade.
Amor livre também não pode significar uma revolta à legislação do Direito Civil e nem mesmo àquela contida na Doutrina da Igreja Católica, pois ambas têm como pressuposto básico para o casamento a livre e consciente vontade do casal sem qualquer interferência de quem quer que seja para a concretização do casamento.
O amor livre só pode então fazer referência ao sistema em que os pais é que definiam com quem iríamos nos casar, ou seja, um casamento arranjado pelos mais variados motivos, principalmente os de interesse social, econômico e político. Somente contra o casamento arranjado é que podemos entender e defender o amor livre, em outras palavras, defender o casamento que tem por fundamento único o amor.
Naturalmente que em todo processo de mudança radical, algumas coisas também são excluídas e que não deveriam ser, e sobre estas temos que nos debruçar e resgatá-las, e nesse caso quero citar a questão do compromisso.
O amor livre pregado nos anos 60 buscou a eliminação de qualquer tipo de compromisso existente até então, mas acabou por eliminar também, talvez não intencionalmente, o compromisso implícito no próprio amor.
Quem ama tem compromisso com a pessoa amada, e sem compromisso com a pessoa não se trata mais de amor, e sim de egoísmo.
Ninguém tem o direito de convidar outra pessoa para entrar num casamento com espírito de aventura ou de uma simples experiência. Casamento não é, nunca foi, e não deve ser uma aventura e nem experiência, mas sim um projeto de vida que inclui duas pessoas, e ambas devem ser respeitadas. Não faz o menor sentido e ninguém aceitaria a proposta para se viver juntos por cinco anos, ou mesmo dez anos, mesmo porque casamento não é contrato de trabalho. Todos nós, sem exceção, queremos entrar num casamento com a expectativa de que ele dure até o final da vida, e para que isso aconteça é necessário esforço, dedicação e não apenas ficar de braços cruzados, e quando um se cansa do outro se vira às costas e simplesmente diz: "é, não deu certo!".
Certamente outros problemas existem e na próxima semana espero tratar de outro ponto que julgo importante. Até lá, se você conseguiu ler até aqui, me ajude identificando outros problemas que precisam ser tratados.
*comerciante e graduando em Teologia pela PUC-Rio.































